Manchetes Socioambientais
As notícias mais relevantes para você formar sua opinião sobre a pauta socioambiental
“O encontro entre índios e brancos só se pode fazer nos termos de uma necessária aliança entre parceiros igualmente diferentes, de modo a podermos, juntos, deslocar o desequilíbrio perpétuo do mundo um pouco mais para frente, adiando assim o seu fim.”
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos fundadores do ISA
O tema "Povos Indígenas" está na origem da existência do Instituto Socioambiental. Lá se vão pelo menos quatro décadas de comprometimento e trabalho com o tema, produzindo informações para a sociedade brasileira conhecer melhor seus povos originários. Desde sua fundação, em 1994, o ISA dá continuidade ao trabalho do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que havia sido iniciado em 1980 e que, por sua vez, remonta ao começo dos anos 1970, quando o então governo da ditadura militar lançava o Plano de Integração Nacional, com forte componente de obras de infraestrutura na Amazônia, região que era então descrita pelo discurso oficial como um "vazio demográfico".
Por meio dos relatos coletados, dados produzidos e pesquisas empreendidas por uma rede de colaboradores espalhada pelas diversas regiões do País, o Cedi ajudou a derrubar essa tese. Ao dar publicidade às informações levantadas por essa rede social do tempo do telex, o Cedi colocou, definitivamente, os povos indígenas e suas terras no mapa do Brasil. Seus integrantes ainda participaram ativamente no movimento de inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e, juntamente com integrantes do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e ativistas ambientais, fundaram o ISA em 1994.
De lá para cá, ampliando sua rede de colaboradores em todo o País, o ISA se consolidou como referência nacional e internacional na produção, análise e difusão de informações qualificadas sobre os povos indígenas no Brasil. O site "Povos Indígenas no Brasil", lançado em 1997, é a maior enciclopédia publicada sobre as etnias indígenas no Brasil, com suas línguas, modos de vida, expressões artísticas etc. O site é uma das principais referências sobre o tema para pesquisadores, jornalistas, estudantes e acadêmicos.
A atuação hoje é transversal aos territórios onde atuamos, especialmente na Bacia do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Bacia do Rio Negro, no Amazonas e Roraima, e também envolve povos indígenas de todo o Brasil, por meio da atualização permanente do site e de seus mais de 200 verbetes, inclusão de novos textos sobre etnias emergentes e indígenas recém-contatados, além do monitoramento e cobertura jornalística sobre situações de violência e perda de direitos contra estas populações. O tema "Povos Indígenas" ainda é tratado no site "PIB Mirim", voltado ao público infanto juvenil e de educadores.
O monitoramento de Terras Indígenas também é um eixo central do nosso trabalho com o tema, e remonta à sistematização de dados e divulgação de informações iniciada pelo Cedi em 1986, e se dá por meio da produção de livros impressos e mapas temáticos sobre pressões e ameaças, como desmatamento, mineração, garimpo, obras de infraestrutura, entre outras, além do site "Terras Indígenas no Brasil".
Confira os conteúdos produzidos sobre este tema:
|
Imagem
|
Em formato de enciclopédia, é considerado a principal referência sobre o tema no país e no mundo |
|
Imagem
|
A mais completa fonte de informações sobre o tema no país |
|
Imagem
|
Site especial voltado ao público infanto-juvenil e de educadores |
|
Imagem
|
Painel de indicadores de consolidação territorial para as Terras Indígenas |
O documentário "Mãri hi - A Árvore do Sonho" foi selecionado para a pré-lista do IDA Documentary Awards. Premiação é considerada a porta de entrada para o Oscar
O documentário "Mãri hi - A Árvore do Sonho" pode ser o primeiro filme dirigido por um cineasta indígena a representar o Brasil no Oscar. O curta do diretor Yanomami Morzaniel Ɨramari venceu o "É Tudo Verdade", festival classificatório reconhecido pelo Oscar, e disputa uma indicação à maior premiação do cinema na categoria de curta-documentário.
O filme estreou internacionalmente no Sheffield Doc Fest no Reino Unido e conquistou diversos prêmios nacionais como Melhor Fotografia e Especial do Júri, no 51º Festival de Gramado 2023 (Brasil). Foi exibido na Mostra Cinema de Inclusão do 80º Festival de Veneza, no Festival Internacional de Cine de Valdivia (Chile), e classificado para a restrita pré-lista da International Documentary Association (IDA) Awards.
Único representante brasileiro na lista do IDA Awards, Mãri hi convida a uma imersão na poética e nos ensinamentos dos povos da floresta pelas palavras do grande xamã Yanomami, Davi Kopenawa. O filme foi realizado na casa coletiva de Watorikɨ, na região do Demini, na Terra Indígena Yanomami (TIY), situada entre os Estados de Roraima e Amazonas.
A obra é uma produção Aruac Filmes em coprodução com a Hutukara Associação Yanomami e produção associada da Gata Maior Filmes, e integra o projeto “A Queda do Céu”, que conta com a produção de um longa-metragem livremente inspirado na obra homônima de Davi Kopenawa e Bruce Albert.
"O filme vai ajudar a fazer com que não-indígenas conheçam o povo Yanomami, conheçam as nossas imagens e comecem a pensar junto com os Yanomami para defender a terra e melhorar a saúde do nosso povo. Espero que todos possam defender o povo Yanomami, nos ajudar a viver em paz, livres de invasores e com boa saúde", afirma Ɨramari.
"Mãri hi" também será exibido com outras produções brasileiras que lutam por uma indicação ao Oscar, como "Retratos Fantasmas", de Kleber Mendonça Filho ("O Som ao Redor", "Aquarius", "Bacurau"), "Incompatível com a Vida", de Eliza Capai, e "Big Bang", de Carlos Segundo, nos cinemas da Academia em Los Angeles durante o 15th Hollywood Brazilian Film Festival, que ocorre entre 6 e 11 de novembro.
Ficha Técnica
Direção
Morzaniel Ɨramari com Davi Kopenawa Yanomami
Direção de Fotografia e Câmera
Morzaniel Ɨramari
Produtores
Eryk Rocha, Gabriela Carneiro da Cunha
Montagem
Morzaniel Ɨramari, Rodrigo Ribeiro-Andrade, Julia Faraco, Carlos Eduardo Ceccon
Edição de Som
Waldir Xavier
Mixagem de Som
Guilherme Lima de Assis
Som Direto
Marcos Lopes da Silva, Morzaniel Ɨramari
Color Grading e Finalização
Caio Lazaneo
Desenhos Originais
Ehuana Yaira Yanomami
Tradutores
Ana Maria Machado, Richard Duque, Corrado Dalmonego, Marcelo Silva, Morzaniel Ɨramari
Supervisão Geral
Davi Kopenawa Yanomami, Dário Vitório Kopenawa Yanomami
Responsável Formação Audiovisual Yanomami
Marília Garcia Senlle
Produção Executiva
Heloisa Jinzenji
Coordenação de Produção
Margarida Serrano
Coordenação Financeira
Tárik Puggina
Gerente de Projeto
Lisa Gunn
Produtoras de Impacto
Marília Garcia Senlle, Carolina Ribas
Produção
Aruac Filmes
Coprodução
Hutukara Associação Yanomami
Produção Associada
Gata Maior Filmes
Apoio
Instituto Socioambiental (ISA)
Contatos
Aruac Filmes (Instagram: @aruacfilmes)
Margarida Serrano - margarida@aruacfilmes.com.br
Marília Senlle - mariliasenlle@gmail.com
Notícias e reportagens relacionadas
A atuação de Danilo, aliada à excelência do corpo técnico da entidade, afirmou ao longo dos anos a fundamental importância das contribuições de povos indígenas e comunidades tradicionais para a política e a cultura brasileira
O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta o falecimento de Danilo Santos de Miranda, neste domingo (29/10), aos 80 anos. Diretor regional do Sesc (Serviço Social do Comércio) São Paulo desde 1984, Danilo dedicou 55 anos de sua vida a transformar a entidade em um dos mais importantes difusores de culturas e suas manifestações do Brasil.
A atuação de Danilo, aliada à excelência do corpo técnico do Sesc SP, afirmou ao longo dos anos a fundamental importância das contribuições de povos e comunidades tradicionais para a política e a cultura brasileira.
Diversas parcerias entre o Sesc SP, organizações comunitárias e o ISA continuamente oferecem caminhos, por meio da informação qualificada e da arte, para sensibilizar os públicos que acessam as mais de 40 unidades da entidade sobre a luta por direitos de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
Em 2017, na ocasião do lançamento do livro “Araweté: um povo tupi da Amazônia”, do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro - uma entre tantas obras com a temática indígena disponibilizada pela Edições Sesc - Danilo ofereceu sua visão sobre o assunto.
“Para o Sesc São Paulo, o respeito à pluralidade cultural, em termos constitucionais e morais, é condição sine qua non para a cidadania de quem há muito vive nestas terras e de quem aporta com expectativas e visões de mundo. Entre os que vêm e os que ficam se reelabora a identidade brasileira”, afirmou Danilo.
O ISA oferece seus sentimentos à família, à equipe do Sesc SP e às pessoas de seu entorno.
Notícias e reportagens relacionadas
#ElasQueLutam! Coroada na parada LGBTQIA+ do estado, Paola já liderou o maior abrigo indígena da América Latina e tem como referência Joenia Wapichana, presidente da Funai
Atravessar a fronteira era o início de uma nova vida – um “renascimento”, como descreve a nova miss trans da parada LGBTQIA+ de Roraima, Paola Abache, de 23 anos. A indígena da etnia Warao, habitantes do Delta do Rio Orinoco, no Norte da Venezuela, enxergou na imigração a oportunidade de começar sua transição de gênero. Mas a chegada ao Brasil lhe proporcionou ainda mais conquistas: Paola foi escolhida como “cacique” do maior abrigo indígena da América Latina e realizou o sonho de infância de se tornar uma “reina” (rainha, em espanhol).
Coroada em outubro de 2023, quatro anos depois de chegar em Roraima, Paola conta que não conseguiu acreditar quando teve seu nome anunciado pela segunda vez. O primeiro anúncio ocorreu por engano e a colocava em terceiro lugar. Quando teve que voltar a sua posição achou que não daria nem mais um passo à frente, até que os apresentadores do evento disseram que ela era a nova miss trans do estado.
“Eu lembro que fiquei sem reação. Pensava que ia chorar, mas não chorei. Pensava que ia gritar, mas não gritei. Achava que ia pular, mas não pulei. Eu só pensava que não podia acreditar, mesmo com a faixa de miss. Só entendi em casa, onde coloquei a faixa de novo e fiz tudo que achei que iria fazer. Depois, eu só pensava que queria abraçar forte a minha mãe”, relembrou.
A dificuldade para entender que havia alcançado um sonho não era só pelo choque do momento. Paola afirma que teve dificuldades financeiras para passar por todas as etapas do concurso. Além disso, ela lembra que a concorrência não foi fácil.
“Eu olhava para as outras meninas concorrendo, estavam bem vestidas, maquiadas, e eu sentia que iria passar vergonha porque não estava bem produzidas como elas. Também eram muito bonitas, nenhuma era feia. Um amigo me olhou e disse: ‘é a sua noite, brilhe e arrase’, eu acenei com a cabeça e disse: ‘está bem, isso que vou fazer’”, disse.
Ao fim do concurso, Paola se sente realizada e equiparada a Lilith Cairú, indígena Wapichana que também foi coroada miss trans em 2020. Segundo Paola, Lilith se tornou uma inspiração desde a primeira vez que a viu. Então, pediu orientação à ela para se inscrever no concurso deste ano. As duas se conheceram durante a Parada.
Inspirações e aspirações
Lilith Cairú é só uma das três mulheres Wapichana que têm inspirado a indígena Warao em sua jornada pelo Brasil. Mari Wapichana, a primeira a vencer o concurso de miss indígena de Roraima, também é um exemplo que Paola deseja seguir.
No entanto, é a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, que faz Paola suspirar e sonhar com o futuro. Atualmente, ela cursa o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) e planeja estudar Direito.
“Quero fazer Direito para poder trabalhar com a defesa dos Direitos Humanos, assim como a Joenia faz. Eu quero ser como ela, quero lutar como ela, porque ela é forte. É lindo ver como ela defende sua comunidade”, afirma.
Além do EJA, Paola também tem se dedicado a aprender a língua portuguesa. Este será o seu terceiro idioma, pois ela se comunica em warao e espanhol. Após quase cinco anos no Brasil, ela diz que hoje já consegue entender os brasileiros.
Renascimento
Em janeiro de 2019, quando tinha 19 anos, Paola decidiu que era hora de ser quem ela sabia que era desde os 6 anos. Ela seguiu o movimento de venezuelanos que, desde 2014, buscam melhores condições de vida em outros países.
“No meu caso, a imigração não foi pela fome ou falta de remédios. Eu imigrei para renascer”, conta a jovem, que chegou em Roraima em janeiro de 2019. Durante os primeiros dois anos, ela viveu em um abrigo no município de Pacaraima.
A fim de dar assistência aos venezuelanos que vivem em Roraima, o governo federal instaurou em 2017 a Operação Acolhida, uma força-tarefa coordenada pelo Exército Brasileiro, que garante abrigos e orientações sobre os trâmites legais no Brasil.
Quando a indígena Warao deixou a comunidade Araguabisi, na Venezuela, a transição ainda não havia iniciado, mas ela já enfrentava problemas para ser aceita, inclusive por parte da própria família. No entanto, ela já estava decidida e, quando iniciou a triagem na fronteira, pediu que seu nome nos documentos brasileiros fosse Paola Abache.
Em Roraima, o namorado já a esperava. Ele havia chegado dois anos antes e os dois mantiveram o relacionamento pelas redes sociais. Também pelos meios virtuais a família de Paola descobriu a transição ao ver suas fotos.
“Minha avó, que me criou, foi a primeira a me aceitar. Eu também fui acolhida por minhas duas tias, irmãs da minha mãe, e duas das minhas primas. Elas me apoiaram muito e minha avó dizia que já sabia que eu seria assim porque me observava desde criança”, contou. Ela disse que hoje sua identidade é aceita pela família.
Após dois anos vivendo em Pacaraima, ela decidiu que era hora de ir para a capital e foi transferida para um dos abrigos de Boa Vista. Quando chegou, o espaço ainda era dividido com não indígenas, mas se tornou um abrigo específico para os Warao em 14 de março de 2022.
O Waraotuma a Tuaranoko (“lugar de repouso até que possa partir para outro” na língua Warao) é o maior abrigo indígena da América Latina, segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas Para Refugiados (Acnur). O espaço já chegou a abrigar quase 2 mil indígenas e também já esteve sob a liderança de Paola Abache.
De acordo com o Censo mais recente da Venezuela, de 2011, a etnia Warao é a segunda mais populosa do país com cerca de 49 mil indígenas. Este povo também é apontado como o grupo humano mais antigo da Venezuela. Relatório do Acnur afirma que em 2014 havia 30 Warao vivendo no Brasil, mas em 2016, quando a crise no país vizinho se agravou, o número saltou para 600 e chegou a 3.300 em 2020.
Na comunidade, na Venezuela, as questões de gênero foram uma barreira entre Paola e seu povo, mas no abrigo sua identidade não foi uma questão. Os próprios indígenas a escolheram como uma cacique para representá-los mesmo sem que ela quisesse aceitar.
Primeiro, ela ocupou o cargo de “suplente” de um dos caciques. No entanto, ele optou pela interiorização, um processo da Operação Acolhida que leva imigrantes venezuelanos para viver em outros estados brasileiros a fim de reduzir os impactos em Roraima. Então, foi necessária uma nova votação para escolher um novo cacique e a comunidade já sabia que queria Paola, mas levou dois dias até que a convencessem a aceitar.
“Já estava como mulher e nunca me passou nada com os indígenas, não sofri preconceito. Ainda assim, eu não quis ser líder de cara, eu fiquei pensando e os outros me convenceram dizendo que eu já tinha experiência e expressava bem as necessidades de todos e que sabia fazer uma boa defesa do meu povo”, contou.
Paola foi cacique por sete meses. Ela dividia a liderança com outros quatro indígenas. “Ser cacique não é fácil. É preciso conhecer a própria comunidade, entender os problemas, atuar nos casos de conflito, ser uma conselheira e, mais do que tudo, precisa saber trabalhar para levar o melhor para comunidade. E, eu tinha medo, porque não saberia ser de outro jeito se não conseguisse ser uma cacique assim”, relembrou.
Após transicionar em um novo país, liderar seus parentes no maior abrigo indígena da América Latina e se tornar miss trans da parada LGBTQIA+ de Roraima, Paola sabe que suas conquistas são fruto de uma luta que precisa se multiplicar. “Para outras mulheres assim como eu, trans e indígena, é preciso trabalhar, lutar e estudar. Se vocês têm sonhos, não desistam e não acreditem nas muitas pessoas que vão tentar fazer com que não consigam realizar seus sonhos!”.
Notícias e reportagens relacionadas
Comunicadores da Rede Xingu+ mostram seus trabalhos mais recentes na Galeria Metrópole; evento terá apresentação musical do grupo andino Lakitas Sinchi Warmis
Na sexta-feira (27/10), às 19h, em São Paulo (SP), comunicadores indígenas do Xingu+ apresentam suas realizações audiovisuais na loja Floresta no Centro, do Instituto Socioambiental (ISA). O espaço fica na segunda sobreloja da Galeria Metrópole, na Praça Dom José Gaspar, centro da capital paulista.
Serão exibidos os filmes “A castanha é o nosso tempero” e “Kurigre: esquilo”, produzidos e dirigidos por Kujaesãge Kaiabi e Kamatxi Ikpeng. Em seguida haverá um bate-papo com a presença dos diretores xinguanos e de Miraip Kaiabi, assessor técnico do ISA e de Anaya Suyà, assessora de comunicação da Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX). A mediação será de Silia Moan, jornalista do ISA.
O espaço Floresta no Centro contará com a exposição fotográfica 'O AIC pelos olhos dos comunicadores do Xingu', assinada por Kujaesãge Kaiabi e Kamatxi Ikpeng. São 11 fotos que contam as histórias de 4 projetos comunitários desenvolvidos pelos povos indígenas do Território do Xingu (TIX).
Leia também:
Circuladores de conhecimentos, comunicadores do Xingu ampliam alcance de ‘porta-vozes da floresta’
Exposição de produtos do Território Indígena do Xingu fortalece laços por uma economia do cuidado
O evento terá abertura com apresentação do grupo Lakitas Sinchi Warmis, que reúne mulheres imigrantes e filhas de imigrantes que fortalecem sua cultura por meio de músicas tradicionais andinas. O coquetel será realizado pelo Kitanda das Minas, cozinha afro brasileira, que resgata os saberes ancestrais através da gastronomia contemporânea.
Venha conhecer como a comunicação está sendo utilizada pelos xinguanos para registrar soluções encontradas nas aldeias que fortalecem seus modos de vida em meio à emergência climática.
Bate-papo Olhos do Xingu
Cinema indígena no centro de SP, com os comunicadores do Xingu+
Galeria Metrópole | Segunda sobreloja
Praça Dom José Gaspar, Metrô República, São Paulo (SP)
Quando: 27 de outubro
Horário: Das 19h às 21h
Notícias e reportagens relacionadas
Impactos no noroeste do Amazonas atingem serviços essenciais, com mudança de horário de atendimento em postos de saúde e escolas. Cidade passa por racionamento.
Na segunda-feira (16/10), dia em que o Rio Negro atingiu seu nível mais baixo em 120 anos de medição em Manaus, parte dos moradores de São Gabriel da Cachoeira (AM) acordou sem energia elétrica. E a estação seca está apenas começando na região.
São Gabriel da Cachoeira é a terceira cidade mais indígena do país, e o racionamento de energia já atinge serviços essenciais para a população. Na manhã desta terça-feira (17), um cartaz em frente à Unidade Básica de Saúde (UBS) no bairro Praia informava sobre a mudança do horário de funcionamento por causa do racionamento. Escolas precisaram alterar seus horários devido à falta do abastecimento de energia e ao calor excessivo.
A cidade corre risco de ficar sem fornecimento de energia. Na noite de 18 de outubro, autoridades se reuniram no Fórum da cidade para discutir a questão. Foi informado que a cidade tem combustível para mais 4 dias, ou seja, até o dia 22 de outubro, mantendo o racionamento. A balsa com o combustível tem previsão de chegada apenas para o dia 23, mas com o nível do rio baixo, a viagem pode demorar mais.
Com a chegada da balsa, a situação pode se normalizar por alguns dias, entretanto o cenário de incerteza sobre o abastecimento de combustível continua, pois o período da seca vai até o início de 2024, o que pode piorar as condições de navegabilidade.
São Gabriel é abastecida por uma termelétrica. Normalmente, são utilizados 44 mil litros de diesel por dia para gerar 8 megawatts. Com o racionamento, estão sendo gerados 4,2 megawatts/dia, com uso aproximado de 25 mil litros de diesel/dia. Os cortes temporários por região da cidade vêm se intensificando.
Em nota, a Amazonas Energia explicou que a VP Flexgen, produtora independente de energia responsável pela geração do insumo no município, informou no domingo (15) sobre a dificuldade de recebimento de combustível que abastece a termelétrica. “A VP Flexgen comunicou ainda que adotou as medidas necessárias junto ao fornecedor de combustível, mas que o agravamento dos efeitos da estiagem afetou de forma severa as operações em função das dificuldades de navegação e logística do transporte pelo Rio Negro”, diz o informe.
Moradores argumentam que a empresa tem condições de se programar para evitar o racionamento. A população de São Gabriel da Cachoeira enfrenta também problemas no abastecimento de água, dificuldade para encontrar determinadas mercadorias, aumento dos preços, problemas na navegabilidade do rio e altas temperaturas. Indígenas ainda relatam perda de roças, solo quente e sensação de água fervendo no rio.
“Estamos acostumados com as cheias e as secas do rio, mas agora está tudo diferente. Até a água mudou, a quentura mudou. Até o sol mudou muito, a quentura é diferente de antigamente. Ninguém regula mais o que vai acontecer”, afirmou a indígena Cecília da Silva, do povo Tukano, que desde a década de 1980 mantém comércio na beira do Rio Negro, na região do Porto Queiroz Galvão, de onde acompanha mudanças do clima.
Na manhã de terça-feira, em um dos postos de combustível no Porto Queiroz Galvão, era possível ver vários carotes (tambores) deixados lá por consumidores. O combustível tinha sido vendido, mas não foi possível entregar o produto também por falta de energia.
Com o bote parado ao lado do posto flutuante, o indígena Tarcísio Saldanha, povo Tariano, aguardava para abastecer e seguir viagem para Urubuquara, no distrito de Iauaretê, Alto Rio Uaupés. “Na minha região, lá para dezembro e janeiro é seco, seco. Esse ano parece que vai ser mais seco ainda. Ainda falta muito tempo de verão”, diz.
Para chegar a Urubuquara, ele precisa passar pela Cachoeira de Ipanoré. Esse trecho, devido às corredeiras, não é navegável: é necessário retirar o bote da água e transportá-lo em um caminhão em trecho de estrada até outra parte do rio. Na seca, esse processo é dificultado, pois entre o rio e a estrada aparece um barranco.
Conhecido como Joaquim 90, o comerciante Joaquim Henrique Uchôa vende gelo na sua balsa, no Porto Queiroz Galvão. Mas não está conseguindo encontrar o produto para entregar aos clientes. “Sem energia, não há fabricação”, explica.
Ele mantém uma balsa que faz o trecho São Gabriel da Cachoeira – Distrito de Iauaretê. A embarcação realizou o trajeto de ida, mas não se sabe se conseguirá voltar, o que depende das condições de navegação. Para medir o nível do rio, ele improvisou um medidor. “Choveu um pouco, mas o rio está parado”, comenta Joaquim.
As poucas chuvas que estão atingindo a região não estão sendo suficientes para alterar o nível do rio, conforme a observação dos moradores. Os dados mostram que o Rio Negro continua secando. Em São Gabriel da Cachoeira, o nível baixou de 602 cm para 508 cm entre os dias 5 e 13 de outubro, conforme boletim divulgado no dia 16 de outubro (confira o boletim completo abaixo).
Na principal orla da cidade, a praia de areia branca avança sobre o rio, com muitas pedras expostas. Um dos marcadores para a seca é a travessia para a Ilha da Juíza. Em 2017, durante a estiagem, as pessoas conseguiam atravessar para a ilha passando pelas pedras. Agora, já é quase possível fazer esse mesmo caminho. Além disso, para acessar a cidade pela orla principal, os indígenas precisam arrastar o bote sobre um canal de areia que se formou no rio.
A comerciante Marilene Ferreira de Oliveira, povo Baré, mora no fim da avenida da orla, em um trecho que costuma alagar durante as cheias. Em frente à sua casa e à sua mercearia, ela e o marido construíram uma estrutura suspensa para poderem trabalhar mesmo com o rio cheio. Mas estão tendo que lidar com a seca e a falta de algumas mercadorias.
“Está faltando frango e carne. O nosso fornecedor só está vendendo até dois fardos de refrigerante. Tudo está com preço alto, o arroz, o macarrão, tudo subiu”, diz.
Em São Gabriel da Cachoeira – onde só se chega de barco ou avião –, o abastecimento de mercadorias é feito principalmente por balsas. Mas as embarcações grandes não estão conseguindo desembarcar no Porto de Camanaus, de onde os produtos são transportados em caminhões até o centro comercial.
As balsas têm ficado estacionadas em um trecho abaixo do porto, e para buscar os mantimentos são utilizados botes pequenos, o que encarece a logística e, consequentemente, os produtos. Arroz, macarrão e até a água subiram de preço. O galão de 20 litros, que era vendido a R$ 12, agora é encontrado com o preço entre R$ 16 e R$ 20. No domingo, a balsa conseguiu chegar a Camanaus.
Além dos problemas de energia e abastecimento de mercadorias, os moradores também enfrentam a falta de água. A Secretaria Municipal de Obras, Transporte e Serviços Urbanos (Semob) divulgou nota pedindo que as pessoas economizem água e comunicou que o fornecimento pode ter interrupções devido à estiagem.
O informe alerta ainda que o problema pode atingir as bicas d’água, devido ao rebaixamento do lençol freático nos poços artesianos. Em São Gabriel da Cachoeira, muitas pessoas utilizam as bicas espalhadas em alguns pontos do município.
Nas redes sociais, os indígenas alertam sobre os impactos da estiagem
Liderança de Santa Maria, no distrito de Iauaretê, Edvaldo de Jesus gravou um vídeo pedindo o apoio dos órgãos públicos, pois o poço de água, que é utilizado para abastecer a comunidade, secou. Na comunidade de Buia Igarapé, na região do Rio Içana, o professor Cleto Hermes, povo Baniwa, também registrou imagens mostrando o fogo avançando em áreas de roças já plantadas.
Arivaldo Matias, do povo Baré, morador da comunidade Yamado, relatou que devido às altas temperaturas não há como trabalhar as roças. Além disso, ele relata que a terra está quente, prejudicando as plantações de maniva e as pimenteiras.
O pescador Antônio Carlos Azevedo, Baré, conta que há impactos também para os peixes. “Está mais difícil pescar, os peixes estão sumindo. A água tá muito quente. Com a chuva que deu, esfriou um pouco”, relata.
A liderança Yanomami José Mário Góes divulgou vídeo na quinta-feira (12), mostrando foco de incêndio na Serra do Opota, considerada sagrada e localizada na comunidade de Maturacá, no Território Yanomami no Amazonas.
Ele relata que um raio atingiu a serra e provocou o fogo, que foi apagado na madrugada de sábado após uma chuva atingir a região. “Estamos falando com nossos pajés. É urgente que venha água para molhar o chão, para molhar a floresta. Cada vez mais o rio está secando. Estamos preocupados”, relatou.
Estiagem atípica tem relação com a crise climática
Dados do Boletim de Monitoramento Hidrometeorológico da Amazônia Ocidental – Serviço Geológico do Brasil (CPRM) indicam que o rio Negro está mantendo o processo de descida em São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, onde os níveis registrados estão abaixo da faixa da normalidade.
O Rio Negro em Manaus atingiu a cota de 13,59 m em 16 de outubro, superando a vazante de 2010 (13,63 m), apresentando descidas diárias na ordem de 10 cm. Em 24 de outubro de 2019, o rio chegou a 13,63 metros. Até então essa era considerada a seca mais severa desde o início das medições, em 1902.
Ainda conforme o CPRM, no período de 12 de setembro a 11 de outubro de 2023, permanece o quadro de chuvas abaixo da média predominando na região. A causa da queda do índice de chuva é o fenômeno El Niño, intensificado pelos impactos da emergência climática.
“Os fenômenos El Niño (aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico) e aquecimento anômalo das águas superficiais do Atlântico Tropical Norte continuam atuando, favorecendo a condição de subsidência (movimento vertical do ar de cima para baixo) sobre grande parte da região inibindo ou reduzindo a formação de nuvens e por consequência redução dos volumes de chuva observados”, diz o relatório do CPRM.
Notícias e reportagens relacionadas
Curta documental mostra como foi o diálogo com o governo federal, orientado por protocolo de consulta e com foco no fim da invasão do garimpo ilegal
“Eu chamo vocês, eu convido vocês, juntos vamos cuidar da Terra”, diz o xamã e liderança do povo Yanomami Davi Kopenawa no filme do IV Fórum de Lideranças Yanomami e Ye´Kwana. O curta documental estreou nos canais de comunicação da Hutukara Associação Yanomami (HAY) nesta quarta-feira (04/10) e narra as demandas feitas pelos Yanomami e Ye’kwana para o governo federal.
Assista ao filme:
O Fórum de Lideranças é uma grande assembleia para tomadas de decisões coletivas dos povos da maior Terra Indígena do Brasil. O evento ocorre anualmente desde 2019 e neste ano foi realizado em Maturacá, no Amazonas, de 10 a 14 de julho.
“Essa semana é muito importante para todos nós Yanomami do Amazonas e de Roraima. Todas as associações estão se encontrando junto com as lideranças”, afirma José Mário, ex-presidente da Associação Yanomami do rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA) na abertura do filme.
Ao todo, dez associações e mais de 300 lideranças estiveram presentes no evento. Pela primeira vez, o Fórum contou com a participação de representantes do governo federal, que fez uma ampla escuta guiada pelo Protocolo de Consulta Yanomami e Ye'kwana, documento elaborado pelos próprios indígenas. Tudo foi registrado pelos cineastas Cassandra Melo e Fred Rahal, que assinam o curta com quase dez minutos de duração.
“Por que fizemos este protocolo de consulta? De que forma queremos ser consultados? Quem vai nos consultar e quem vai responder em nome da Terra Indígena? Uma pessoa só? Só um presidente de associação? Só uma liderança? Então eu acho que é um papel muito importante que estamos fazendo no Fórum de Lideranças”, refletiu o diretor da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Maurício Ye’Kwana.
Entre os membros do governo federal presentes, estavam a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e a ministra de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva.
“Eu e a Soninha estamos fazendo uma verdadeira campanha para que o Brasil vote em priorizar as políticas para os povos indígenas, porque o Congresso tem que ter uma mensagem muito clara que o povo brasileiro respeita e quer ver protegido no Congresso brasileiro o meio ambiente e os povos indígenas”, afirmou Marina Silva.
Para Joenia Wapichana, que também esteve em 2022 no III Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, na comunidade Xihopi, como deputada federal, disse que já sente uma diferença com um clima de esperança entre os indígenas.
A Terra Indígena Yanomami sofre com a invasão de garimpeiros, que se intensificou nos últimos seis anos. No início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou uma operação emergencial de saúde e de desmonte dos garimpos ilegais, além da retirada dos invasores.
“A Terra Indígena Yanomami continua sangrando, porque os garimpeiros continuam rasgando as nossas comunidades. O governo está dizendo que acabou, mas ainda não acabou os garimpeiros”, alertou Junior Hekurari Yanomami, presidente da Urihi Associação Yanomami.
Além da HAY, Ayrca e Urihi, também estavam presentes a Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), a Associação Ye’kwana Wanasseduume (Seduume), a Associação Kurikama Yanomami (AKY), a Associação Xoromawë, Associação Parawamɨ, a Associação Sanöma Ypassali e a Associação Ninam Texoli (Taner).
Juntas, as associações escreveram uma carta (acesse AQUI) resumindo os temas discutidos durante o Fórum. Entre os temas estão proteção territorial, saúde, educação e segurança alimentar. Ao final do filme, um QR Code é apresentado para direcionar os espectadores à leitura integral do documento, que também foi entregue ao governo federal.
Notícias e reportagens relacionadas
Episódios gravados por jovens e lideranças indígenas em Santa Isabel do Rio Negro e Iauaretê, no Amazonas, começaram a ser divulgados esta semana. Narrativas trazem conhecimentos ancestrais e histórias de vida
Dona Maria Lucélia, povo Desana, de nome indígena Diakarapo, nasceu na comunidade Pakowa, na Colômbia, e cresceu na comunidade Yai Boha, Santa Marta, rio Papuri, no Brasil. Lá passou pelo processo de benzimento e desde cedo recebeu orientações do pai. Ela se mudou ainda jovem para Iauaretê, distrito de São Gabriel da Cachoeira (AM), para dar continuidade aos seus estudos no internato salesiano junto com outras 600 internas. É uma conhecedora de histórias ancestrais.
Roberto da Silva é do povo Baré e nasceu em 1961. Educador das comunidades da região do Médio Rio Negro, passou parte da juventude pelos piaçabais, o que marcou sua história de vida. É morador da comunidade Jerusalém, em Santa Isabel do Rio Negro (AM).
Essas e outras histórias – contadas em primeira pessoa e registradas por indígenas do médio e alto rio Negro – estão disponíveis no podcast Guardiões da Memória do Rio Negro, projeto desenvolvido pelo Museu da Pessoa com a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro.
O lançamento aconteceu na quinta-feira (21), dentro da programação “Memórias Ancestrais”, agenda do Museu da Pessoa na Primavera dos Museus. Os áudios podem ser encontrados nas redes sociais do Museu da Pessoa e da Rede Wayuri.
Os episódios serão disponibilizados quinzenalmente, até o final do ano. Escute no Spotify:
Os comunicadores registraram narrativas e histórias em Iauaretê, no rio Uaupés, e Santa Isabel do Rio Negro. Os principais temas foram o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN) e a Cachoeira da Onça, em Iauaretê, ambos registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
Foram ouvidas 27 pessoas em comunidades do médio rio Negro e 35 em Iauaretê. Muitos dos entrevistados são os próprios pais, mães, avôs, avós, tios e tias dos jovens participantes.
Por meio das histórias de vida, aparecem a riqueza cultural, a tradição, a resistência e a exploração colonizadora que passa por piaçabais e a opressão religiosa, entre outros. A produção do podcast teve início em 2022. Este ano, a Rede Wayuri foi convidada a integrar o projeto com a realização de uma oficina de comunicação para ações de divulgação.
Comunicadora da Rede Wayuri, Juliana Albuquerque, do povo Baré, participou de encontros em Santa Isabel do Rio Negro e em Iauaretê. “Quando fomos convidados, até fiquei com um pouco de receio, pois sabemos da importância do Museu da Pessoa. Mas tive o apoio da Rede e segui em frente”, diz.
Ela desenvolveu as atividades junto com os jovens e lideranças que já integravam o projeto. O resultado foi uma intensa troca de saberes. “Percebi que muitos estavam com dúvidas sobre como gravar os áudios, como fazer os roteiros. Fomos fazendo juntos e aprendendo”, relata.
“É um grande projeto, que nos ajuda a perceber que às vezes a gente mesmo, que vive aqui, não conhece as nossas histórias. Quando ouvi as narrativas, resgatei memórias da minha própria história. Outro grande desafio foi fazer os registros nas línguas indígenas. Em Iauaretê, a maioria dos áudios estavam na língua tukano e foi necessário irmos atrás das traduções. Foi uma troca de saberes”, completou.
Histórias de vida também são patrimônios
A Rede Wayuri tem um programa de rádio semanal, o Papo da Maloca, que divulga informações do movimento indígena e sobre outros temas de interesse dos povos do rio Negro. Além disso, o coletivo mantém o podcast Wayuri e o Instagram da Rede.
São 19 bolsistas e cerca de 40 voluntários indígenas dos povos Wanano, Baré, Tukano, Hupd´däh, Yanomami, Piratapuia, Hupd´äh, entre outros. Eles atuam a partir de São Gabriel da Cachoeira e das comunidades indígenas do extenso território do rio Negro.
A série de podcast está inserida no projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais do Rio Negro, desenvolvido em parceria entre o Museu da Pessoa, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e organizações indígenas locais.
Esses episódios foram idealizados e produzidos pelos Guardiões da Memória – jovens e lideranças que participaram do projeto - em parceria com a Rede Wayuri, que é ligada à FOIRN e tem o apoio do ISA.
O projeto é coordenado pela antropóloga Aline Scolfaro. As oficinas tiveram também a participação da coordenadora do programa Vidas Indígenas do Museu da Pessoa, Márcia Trezza.
“Acredito que, com a execução desse projeto, foi possível reforçar a ideia de que as pessoas e suas histórias de vida não só fazem parte dos domínios que constituem e dão sentido aos patrimônios, mas são também em si um patrimônio a ser salvaguardado”, diz Aline.
Comunicador e Guardião da Memória, Rogério Xavier, povo Baniwa, que vive na comunidade de Cartucho, médio Rio Negro, trouxe a importância do registro das narrativas para a valorização das vivências.
“Com esse trabalho, a gente começou a se dar conta do valor dessas histórias, do valor da cultura, da floresta, desse rio. Acho que a maioria aqui não se dava conta, apenas ia vivendo”, disse.
O Museu da Pessoa é um museu virtual e colaborativo de histórias de vida. Nos últimos anos, vem buscando ampliar sua atuação junto a povos indígenas e outras populações tradicionais, visando contribuir com a luta indígena e a pauta socioambiental, através de projetos de memória desenvolvidos de forma colaborativa.
Além do podcast, também foram produzidos vídeos curtos e dois documentários com trechos das histórias de vida registradas em Iauaretê e Santa Isabel do Rio Negro E ainda o livro “Um rio de raízes e memórias”, com histórias dos detentores do Sistema Agrícola no Médio Rio Negro. Todos esses produtos resultantes do projeto foram disponibilizados ao público dentro da programação da Primavera dos Museus.
Notícias e reportagens relacionadas
Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN-FOIRN) completa 20 anos. Comemorações ocorreram durante a III Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília, com lançamento de publicação, documentário e site
Ohpenkõ di´a kahnã numia é como se escreve mulheres indígenas do rio Negro ou rionegrinas, em Tukano, uma das línguas faladas nessa região da Amazônia. A frase está no canto preparado por Odimara Ferraz Matos, povo Tukano, entoado durante a III Marcha das Mulheres Indígenas, que aconteceu em Brasília, de 11 a 13 de setembro, com organização da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
Com vestimentas tradicionais, urucum e jenipapo, elas divulgaram sua luta durante a marcha na Esplanada dos Ministérios, junto a outras aproximadamente 8 mil mulheres do país todo. Ao som de maracás, fizeram barulho e buscaram espaço nos gabinetes oficiais, articulando por políticas públicas que beneficiem as mulheres em seus territórios.
“Esse canto mostra que a mulher sempre esteve no movimento indígena, mas sua história nem sempre apareceu”, diz Odimara.
Junto dela estavam lideranças como Elizângela Baré, Dadá Baniwa, Cleocimara Reis (povo Piratapuya), Larissa Duarte (povo Tukano), Almerinda Ramos (povo Tariano) e Janete Alves (povo Desana). A presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Joênia Wapichana, também esteve ao lado das mulheres do Rio Negro durante a marcha.
Para as rionegrinas, é um momento especial para falar dessa história: no encontro foram comemorados os 20 Anos do Departamento das Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN-FOIRN).
Foram lançados o documentário “Rionegrinas” e o livro “As mães do DMIRN – Conquistas e Desafios”, que trazem narrativas das lideranças do departamento e resgatam a memória para inspirar o futuro. Também houve o lançamento do site do departamento, instrumento de comunicação e fortalecimento. Conheça em https://dmirn.foirn.org.br.
Coordenadora do DMIRN, Cleocimara Reis fala da valorização dessa história. “Essa história é inspiradora não só para o rio Negro. Mulheres indígenas de outras regiões estão nos propondo intercâmbios para conhecer o DMIRN e para estruturar seus próprios departamentos”, disse em São Gabriel da Cachoeira, ao retornar de Brasília.
A comitiva que foi a Brasília era formada por cerca de 40 mulheres de povos como Baré, Tukano, Baniwa, Yanomami, Piratapuia, Wanano, Desana, Tuyuka, entre outros. Povos considerados de recente contato, os Hudp´däh e Nadeb também contaram com representantes na marcha.
Entre as integrantes estavam três comunicadoras da Rede Wayuri: Cláudia Ferraz, povo Wanano, Suellen Samanta, povo Baré, e Deise Alencar, povo Tukano. “Foi muito especial participar desse momento e mostrar o histórico do DMIRN, a caminhada e o avanço até hoje. Essa caminhada é inspiradora e é necessário termos um olhar diferenciado para a história dessas mulheres, conhecendo, reconhecendo e dando visibilidade”, diz Suellen Samanta.
Veja a cobertura no Instagram da Rede Wayuri:
Escute o programa especial sobre a III Marcha das Mulheres no podcast Wayuri, produzido por Cláudia Wanano:
“Rionegrinas”
Produzido pelo ISA em parceria com o DMIRN e FOIRN, o documentário “Rionegrinas” foi lançado no dia 12, no Centro de Convivência dos Povos Indígenas da UnB (Maloca), em Brasília. Na plateia, mulheres indígenas do rio Negro, mas também de outras regiões, como as Kayapó e Waiãpi e, ainda, estudantes indígenas da UnB. A artista e ativista Daiara Tukano, nascida na região do alto rio Negro, participou da sessão e trouxe a tradição indígena para falar da mulher na narrativa do surgimento do mundo.
A direção e o roteiro são da documentarista Fernanda Ligabue e da articuladora de políticas socioambientais do ISA, Juliana Radler, com colaboração de Dadá Baniwa, Carla Dias, Dulce Morais e Ana Amélia Hamdan. O filme conta, por meio de depoimentos das mulheres indígenas, a luta por espaço, território, renda e sustentabilidade. Desde as roças até as universidades, desde a casa-território até os cargos públicos.
O DMIRN tem uma coordenadora e cinco articuladoras regionais que possibilitam um diálogo com o território indígena do rio Negro.
Na região, vivem povos de 23 etnias em cerca de 750 sítios e comunidades nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos (AM).
A coordenação é de responsabilidade de Cleocimara Reis e as articuladoras são: Belmira Melgueiro, Baré; Madalena Fontes Olímpio, Baniwa; Odimara Ferraz Matos, Tukano; Maria das Dores Azevedo Barbosa, Tariano; e Victoria Campos, Tariano.
Entre as pautas prioritárias do DMIRN estão equidade de gênero, apoio às associações de mulheres indígenas, geração de renda e sustentabilidade, fortalecimento de conhecimentos e saúde, medicina indígena e sistema agrícola tradicional, enfrentamento aos impactos da emergência climática e direitos das mulheres.
Antes de se estruturar como departamento, muitas trilhas foram percorridas, como relata Rosi Waikhon. Ela relembra que o presidente da FOIRN à época, Braz França, do povo Baré, indicou que elas precisavam se organizar no papel. E assim foram trabalhando até criar o DMIRN, depois a loja Wariró, hoje a casa do artesão e da artesã indígena do rio Negro, que não só vende produtos, como fortalece a cultura.
Em 2020, a pandemia da Covid-19 atingiu fortemente a região do rio Negro. As coordenadoras do DMIRN à época, Elizângela da Silva, do povo Baré, e Janete Alves, povo Desana, articularam apoios e parcerias para ações de proteção e saúde. Foi criada a Campanha 'Rio Negro, Nós Cuidamos!', que levou ajuda humanitária para dentro do território indígena.
Entre outras mulheres, o documentário tem a participação da coordenadora da Rede Wayuri, Cláudia Wanano, trazendo a importância da comunicação para e feita pelas indígenas. A Ex-coordenadora do DMIRN, Dadá Baniwa, que hoje está à frente da Coordenação Regional Rio Negro da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai – CR Rio Negro) fala no filme sobre o fortalecimento da presença da mulher indígena no espaço político, citando a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, a presidente da FUNAI, Joênia Wapichana, e a deputada federal Célia Xacriabá. Todas estavam presentes na Marcha.
A antropóloga Francy Baniwa reflete sobre a conquista dos espaços nas universidades e desafios que permanecem. A liderança Edneia Teles, povo Arapaso, aponta para o futuro e fala da importância do registro da memória do DMIRN para as próximas gerações.
O filme será lançado também em Manaus e São Gabriel da Cachoeira, mas as datas ainda não estão confirmadas. Confira o trailer:
“Mães do DMIRN”
O livro “As Mães do DMIRN – Conquistas e Desafios” também traz depoimentos das mulheres indígenas. A escrita foi conduzida por Elizângela da Silva, povo Baré, ex-coordenadora do DMIRN, comunicadora e liderança, numa construção conjunta.
“Quando comecei a escrever é como se fosse uma mulher parindo, uma mulher grávida. As mulheres contavam: lá naquele início nós éramos tratadas assim e nossas estratégias eram essas. Nós procurávamos mais diálogo e parcerias para dizer de nossa importância. A nossa tradição é muito forte, é patriarcal e, na época, os homens eram machistas e diziam que nossa participação estava fora do contexto ou do estatuto. Mas a gente criava outras estratégias e assim foram construindo”, relata Elizângela Baré.
Ela revela que uma das estratégias das mulheres foi fortalecer a geração de renda por meio do artesanato, conquistando outros espaços de luta por saúde, educação e formação. A publicação tem o apoio do Observatório da Violência de Gênero no Amazonas, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com a professora Flávia Melo da Cunha, e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), com o professor José Miguel Nieto Olivar.
Notícias e reportagens relacionadas
Filme guarda memórias de mulheres no movimento indígena do rio Negro (AM) e na construção do DMIRN-FOIRN, que completou 20 anos.
A trajetória de lutas e conquistas das mulheres do rio Negro dentro do movimento indígena e na criação do Departamento das Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN-FOIRN) é narrada no documentário “Rionegrinas”, que será lançado em 12 de setembro, em Brasília, no Centro de Convivência dos Povos Indígenas da UnB (Maloca).
Uma comitiva de cerca de 40 mulheres do médio e alto rio Negro, no Amazonas, estará no lançamento do filme, que celebra os 20 anos do DMIRN-FOIRN. O departamento foi criado em 2002 e chegou aos 20 anos em 2022, mas as comemorações estão acontecendo agora.
O grupo participa da III Marcha das Mulheres Indígenas - Mulheres Biomas em Defesa da Biodiversidade pelas Raízes Ancestrais, organizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
A comitiva leva à Brasília a diversidade do rio Negro, com mulheres dos povos Baré, Tukano, Baniwa, Yanomami, Piratapuia, Wanano, Hupda. Também integram três comunicadoras da Rede Wayuri: Cláudia Ferraz, do povo Wanano, Suellen Samanta, do povo Baré, e Deise Alencar, do povo Tukano. A cobertura pode ser acompanhada no Instagram da Rede Wayuri.
Entre as lideranças estão Dadá Baniwa, coordenadora regional da Funai no rio Negro e ex-coordenadora do DMIRN, Elizângela Baré, ex-coordenadora do DMIRN e comunicadora da Agência Sumaúma, e Francy Baniwa, ex-coordenadora do DMIRN, antropóloga e escritora.
A Coordenadora do DMIRN, Cleocimara Reis, do povo Piratapuia, fala da valorização da história do departamento.
“Essas mulheres foram nossas inspiradoras. Não foi fácil criar o DMIRN, foi com muita luta e discussão. É uma história que precisamos guardar para outras mulheres que virão”.
O filme conta, por meio de depoimentos das mulheres indígenas, a luta por espaço, território, renda e sustentabilidade, desde as roças até as universidades, da casa-território aos cargos públicos.
“Me deram uma salinha bem pequenininha. Mal cabiam a mim, uma mesa e uma cadeira. O que eu vou fazer só com essa mesa e a cadeira?”, relembra Cecília Albuquerque, do povo Piratapuia, primeira coordenadora do DMIRN.
Hoje, o DMIRN tem uma coordenadora, Cleocimara Reis, povo Piratapuia, e cinco articuladoras regionais que possibilitam o diálogo constante com o território indígena do rio Negro, onde vivem povos de 23 etnias em aproximadamente 750 sítios e comunidades nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos (AM).
O departamento tem como pautas prioritárias equidade de gênero, apoio às associações de mulheres indígenas, geração de renda e sustentabilidade, fortalecimento de conhecimentos, medicina indígena e sistema agrícola tradicional, além do enfrentamento aos impactos da emergência climática e os direitos das mulheres.
Produzido em parceria pelo Instituto Socioambiental (ISA), DMIRN e FOIRN, o documentário “Rionegrinas” tem direção e roteiro da documentarista Fernanda Ligabue e da articuladora de políticas socioambientais do ISA, Juliana Radler, com colaboração de Dadá Baniwa, Carla Dias, Dulce Morais e Ana Amélia Hamdan. Confira o trailer:
Também em comemoração aos 20 anos do DMIRN estão sendo lançados o livro “As mães do DMIRN – Conquistas e Desafios” e o site do Departamento de Mulheres Indígenas, instrumento de comunicação e fortalecimento do departamento.
Leia também: Corpo é território: mulheres indígenas se unem para garantir direitos e definir os rumos do aldeamento político
Lançamento do documentário “Rionegrinas”
Data: 12/09, às 18h30
Local: Centro de Convivência dos Povos Indígenas da UnB (Maloca)
Notícias e reportagens relacionadas
Especial da série #ElasQueLutam apresenta a força e resistência de três lideranças em nível local, regional e nacional
“Ouçam a minha fala. Agora já nos resta pouca terra [....] As florestas, os rios, os povos indígenas: é a sobrevivência deles que eu defendo até hoje”.
Aos 53 anos, Tuíre Kayapó ainda se desloca regularmente pelos mais de 1.100 quilômetros que unem a Terra Indígena Las Casas (PA) e Brasília (DF), para garantir que a floresta permaneça de pé e seus filhos e netos possam seguir existindo. É uma vida inteira de luta, que nem mesmo a passagem do tempo se tornou uma fronteira. “Se eu me calar e meus parentes morrerem, onde estarão os indígenas? Apenas os brancos vão existir”, assinala.
Em fevereiro, ela realizou mais uma vez esse percurso, para se unir à Pré-Marcha das Mulheres Indígenas, uma convocação da Articulação das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) para debater coletivamente as possibilidades de incidência política em espaços como o Ministério dos Povos Indígenas, o Congresso Nacional, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e começarem a preparar a III Marcha das Mulheres Indígenas, que neste ano acontece entre os dias 11 e 13 setembro.
Foi nesse espaço, também, que Célia Xakriabá, Sonia Guajajara e Joenia Wapichana receberam a força e poder de representatividade dado pelas mulheres-biomas em cerimônia de posse ancestral.
Liderança histórica do povo Kayapó, Tuíre é reverenciada pelo icônico registro onde brada um facão contra a bochecha do então presidente da Eletronorte, o engenheiro José Antônio Muniz Lopes. Feita em 1989, no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, a fotografia marcou para sempre a história de resistência dos povos indígenas contra projetos predatórios a suas vidas e territórios, como era o caso da Usina Hidrelétrica Kararaô, então em discussão. O projeto, mais tarde, se tornou Belo Monte, que ignorou as vozes ancestrais que já anunciavam sua ruína. Porém, essas vozes não cessam em ousar salvar o pulsar do rio Xingu.
“Eu disse para ele: ‘branco, você não tem floresta. Essa terra não é sua. Você nasceu na cidade e então veio para cá atacar nossa floresta e nossos rios. Você não vai fazer isso”, lembra. “E então os brancos não fizeram mesmo”. Sua imagem correu o mundo e ajudou a adiar a construção da hidrelétrica por mais de 20 anos – a inauguração veio em 2015, agora com o nome de UHE Belo Monte.
Em um momento onde os homens eram os principais – e frequentemente únicos – líderes do movimento indígena, onde as mulheres pouco tinham espaço para participar na política externa das aldeias, Tuíre já se mostrava uma protagonista na defesa do seu território e da cultura do seu povo.
“Antigamente eu era a única mulher que ia para Brasília com os homens, e eu atuava bem”, Tuíre recorda. “Na minha luta, eu defendo meu povo, falo com os brancos; envelheci fazendo isso. Minhas parentas veem minhas fotos, vão aprendendo as coisas e agora somos muitas”.
De fato, onde antes Tuíre era uma exceção entre seus pares, hoje as mulheres indígenas representam de maneira inequívoca o rosto da luta pelos direitos indígenas e socioambientais.
Todos os anos, elas colorem Brasília com seus maracás e corpos pintados de jenipapo e urucum. Nos últimos tempos, essas mesmas mulheres passaram a ocupar lugares estratégicos da política indígena, fruto de uma longa construção para fortalecer e empoderar a assumirem a frente tanto dentro de seus territórios e associações como em espaços de diálogo com os não indígenas.
Inspiradas por Tuíre e por tantas outras, as mulheres Kayapó começam agora a assumir cacicados, liderar associações representativas do povo e até mesmo se candidatar a cargos públicos - caso de Maial Kaiapó, primeira do povo a concorrer a deputada federal.
No entanto, muito além das reuniões, marchas e encontros, Tuíre nunca deixou de lado a política cotidiana dos Kayapó, aquela que acontece essencialmente no território, no dia a dia da aldeia, e na qual as mulheres sempre exerceram influência indireta, desde seus núcleos familiares.
“Nós procuramos lenha, vamos para as roças, trazemos mandioca e ralamos. Preparamos o forno de pedra para alimentar nossos filhos e neles assamos batatas. Quando nossos maridos trazem peixe, nós limpamos e cozemos ou assamos. Se quisermos castanhas, temos que ir colhê-las e trazer para casa”, conta, sobre o dia-a-dia das mulheres Mebêngokrê. “Temos muito trabalho, é difícil. Vocês não dariam conta”.
A atuação feminina local é ponto de partida essencial para qualquer tipo de enfrentamento político, revela Tuíre, que também é cacica da aldeia Irã-Amraire, na Terra Indígena Las Casas. É por causa de suas mães e avós, que permaneceram no território prezando pela coletividade e cuidado com todos da aldeia, que, hoje, mais indígenas podem frequentar universidades, se formar e chegar a lugares que, até pouco tempo atrás, lhes eram negados.
“Agora nossos netos estudam, aprendem o português, aprendem a escrever e assim nossos parentes começam a ocupar esses espaços. E eu fico muito feliz e fortalecida”, diz. “Eles vão ter presença na política e vamos ajudá-los. Votaremos neles e não vamos mais ficar procurando os brancos. Eles vão trabalhar para nós e nos ajudar”.
Do território à academia, da academia para a política
Foi graças aos caminhos abertos por mulheres como Tuíre, que Jozileia Kaingang pôde realizar seu percurso acadêmico e, agora, político.
Doutoranda e mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Jozileia veio ao mundo pelas mãos de uma parteira de seu povo Kaingang, no Rio Grande do Sul, para hoje ocupar a chefia de gabinete da ministra Sonia Guajajara.
A sua história, no entanto, não começa na universidade e tampouco se limita ao cargo que possui atualmente. Jozileia traz consigo a ancestralidade Kaingang e remonta a resistência do seu povo que seguiu em retomada por seus territórios tradicionais, como a Reserva Indígena Serrinha, de onde vem boa parte de sua família e cujo processo foi capitaneado por mulheres indígenas, incluindo sua mãe.
Neta do cacique da Terra Indígena Carreteiro, Jozileia chegou à universidade em uma época em que o direito à educação superior não alcançava os indígenas. Seus pares só vieram a ser contemplados seis anos depois do seu ingresso, por meio da lei 12.711 de 2012, que estabeleceu a reserva de vagas no Ensino Superior para estudantes pretos, pardos e indígenas e para pessoas com deficiência.
“Eu fui para a universidade em um momento em que a gente ainda não tinha cotas, mas nós tivemos a luta das lideranças indígenas, dos nossos caciques, para que a Funai tivesse universidades com quem ela dialogasse e pudesse ter o ingresso com bolsa para os estudantes indígenas naquela época”, relembra.
“E eu acho que isso é importante dizer, a gente nunca fez parte desse lugar”, pontua. Tanto na política, como nas universidades, a presença indígena faz parte de um processo recente de retomada histórica. Cada vez mais indígenas, principalmente mulheres, vêm ocupando esses espaços, que despontam uma nova forma de resistência.
“A abertura das portas da universidade faz com que nós, mulheres indígenas, tenhamos uma outra possibilidade de construir vias que a gente possa trabalhar com os nossos povos, que a gente possa ser, mais uma vez, ferramenta de luta.”
Uma das fundadoras da ANMIGA, Jozileia traz a sua vivência como mulher indígena para a sua atuação acadêmica e para a sua forma de se organizar em uma rede nacional como a que ajudou a construir. “E eu acho que viver o que a gente acredita é isso, é você se doar para o movimento, é construir o movimento. O movimento não está dado, ele é uma construção conjunta coletiva e diária, cotidiana.”.
Nesse movimento, Jozileia vê as mulheres indígenas se organizando em uma importante característica: o recorte de gênero. “As mulheres são as que mais estão no território, estão cuidando dos seus territórios, cuidando das suas famílias, lutando para poder permanecer nas suas terras, fazendo as retomadas”, afirma. “São as mulheres que cuidam, são as mulheres que protegem”, conclui.
E foi como resultado de sua construção tanto pela via da pesquisa quanto pela da atuação direta dentro do movimento que surgiu o convite para comandar o gabinete do Ministério dos Povos Indígenas.
Apesar de receber a proposta com surpresa, Jozileia assumiu prontamente a função em janeiro de 2023. Agora, ela quer mais e mais espaços preenchidos por mulheres indígenas, dentro de cada competência. “Porque se a gente se soma é porque a gente tem cada uma um jeito de fazer, um modo de ser, uma especificidade dentro do nosso trabalho que a gente está mais dedicada, então isso faz com que a gente também ocupe os lugares dentro desse universo”, explica.
A primeira mulher indígena a assumir a Funai no Rio Negro
Somando à luta irrompida por Tuíre, Dadá Baniwa, de 42 anos, se une a Jozileia Kaingang no processo de abertura do que se chama aldeamento da política institucional. A primeira mulher indígena a assumir a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) do Rio Negro, em maio deste ano, nasceu na aldeia Assunção do Içana, em São Gabriel da Cachoeira (AM), a segunda cidade com o maior número de pessoas indígenas no país, segundo o Censo 2022 do IBGE.
Dadá foi nomeada pela presidente da Funai, Joenia Wapichana, em uma cerimônia foi realizada na Casa do Saber da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), organização onde atuou anteriormente como coordenadora do departamento de mulheres.
Sua chegada se deu por meio de uma indicação do movimento indígena local, que desempenhou um importante papel nas conquistas atuais. Dadá é parte disso, é uma das forças de uma luta coletiva. “É com bastante orgulho e profundo sentimento de responsabilidade que assumo hoje a Coordenação Regional da Funai do Rio Negro. Desafio esse que só aceitei por ter a plena convicção de que não estarei sozinha”, afirmou, durante a posse.
Estudante e mãe de quatro filhos, Dadá partilha sua vida entre a família, sua liderança, a articulação com outras mulheres indígenas, seu cargo e, principalmente, a construção de um futuro possível para os povos indígenas, que só se fará presente com as florestas em pé. “A gente precisa cuidar da nossa floresta, porque elas são muito importantes para a gente, do jeito que elas nos sustentam, dando a caça, dando o peixe, as nossas roças. Então a gente também precisa retribuir esse cuidado para a nossa mãe terra, então isso é muito importante, e isso a gente está fazendo através do trabalho das mulheres.”
Dadá destaca que o esforço desempenhado pelas mulheres indígenas vem aos poucos sendo reconhecido. “A gente está tendo oportunidade de ocupar mais esses espaços e mostrar que as mulheres podem, que as mulheres sabem, que as mulheres conseguem”, ressalta. “A gente só consegue realizar, concretizar o que a gente sonha através da nossa união e do nosso fortalecimento”.
Para ela, o futuro de seus filhos e netos ainda não está garantido. Por essa razão, junto ao movimento indígena, ela se articula pelo sonho de que um dia a política local também seja aldeada, com prefeitas e vereadoras indígenas.
“Eu acho que esse trabalho nosso agora é empoderar outras mulheres, chamar essas mulheres pra junto da gente e dizer ‘olha, a gente precisa de vocês, vocês têm que estar junto com a gente, porque só assim vamos conseguir avançar cada vez mais”, explica.
Apesar dos avanços, ela conclui: “Ainda há desafios, ainda há muitas conquistas daqui pra frente”.
Assim como Dadá, Tuíre e Jozileia deram seus depoimentos à equipe do ISA durante a Pré-Marcha das Mulheres Indígenas, em fevereiro de 2023. As três mulheres, representando cada um de seus biomas, se uniram para o fortalecimento da luta e o protagonismo das mulheres indígenas na defesa dos seus direitos.
Mulheres-bioma, guerreiras ancestrais
No XV Acampamento Terra Livre, realizado em abril de 2019, foi um ambiente dinâmico e envolvente para as ações das mulheres indígenas. Lá, elas trouxeram à tona questões cruciais que culminaram na histórica Marcha das Mulheres Indígenas. Neste evento, ocorrido em Brasília, no Dia Internacional dos Povos Indígenas, em 9 de agosto daquele mesmo ano, 2.500 mulheres, representando 130 diferentes povos indígenas, se juntaram em uma poderosa união.
Essas mulheres se definem como mulheres biomas, onde cada qual - a depender do grupo que pertence - tem uma função importante para a organização e fortalecimento da mulher indígena no Brasil, do chão território ao chão do congresso, elas mostram que são mulheres árvores, raízes sementes e não somente mulheres, guerreiras da ancestralidade.
Confira alguns depoimentos:
Shirley Krenak
Co-fundadora Anmiga (MG)
“Estamos mais do que felizes, estamos empoderadas porque nós estamos ocupando esses espaços que realmente são nossos. Isso já deveria ter acontecido há muito tempo”
Gloria Potyguara
Presidente da associação de mulheres da aldeia Jucás- Monsenhor Tabosa (CE)
“Nós, como “mulher-semente” queremos ver crescer onde a gente for plantado. A gente quer articular outras mulheres a empoderar, a encorajar para estar na luta e estar na resistência”
Auricélia Arapiun
Coordenadora do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (PA)
“Nós passamos esses quatro anos só fazendo resistência, fazendo estratégia de resistir e proteger os nossos territórios. Nós acreditamos que só nós ocupando os espaços podemos fazer outra política”
Alana Wapichana
Vice-coordenadora das Mulheres da Região Murupu (RR)
“É muito bom estar presente e levar essa força dessas mulheres para o meu Estado”.
Assista:
Carregando