"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
Indígenas, quilombolas e extrativistas da Amazônia exigem acesso a energia elétrica
Mais de 300 lideranças de nove estados participaram de encontro sobre energias renováveis em Belém (PA), que se encerrou com carta de reivindicações ao governo federal
Mais de 300 lideranças de povos indígenas, populações extrativistas e quilombolas de nove estados da Amazônia participaram do II Encontro Energias e Comunidades, que ocorreu em Belém, no Pará, entre 9 a 11 de maio. Ao final do encontro, uma carta com reivindicações dos povos da Amazônia foi publicada.
Dividido em três partes para contemplar as especificidades de indígenas, quilombolas e extrativistas, o documento elenca desafios, necessidades e exigências. Os quilombolas, por exemplo, citam que a energia melhoraria o acesso à educação, à segurança e à soberania alimentar.
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Participantes do II Encontro Energias e Comunidades, que ocorreu em Belém, no Pará, entre 9 a 11 de maio|Energia e Comunidades
“As comunidades dos Territórios Quilombolas veem a energia passando por seus territórios, mas não a recebem em suas casas. Nós somos os donos da água, dos rios e dos territórios. Portanto, acessar a energia é um direito nosso", apontam os quilombolas.
Para os indígenas e extrativistas, um dos pontos principais da discussão é a forma como a energia deve chegar. O documento reforça a necessidade de consulta sobre os territórios e dispensa obras que cheguem sem diálogo, orientação e compensação.
“Nos deixa indignados a energia estar disponível para os invasores dos nossos territórios e não estar para nós que fazemos a proteção”, diz trecho do documento sobre os povos indígenas.
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Ciro Campos, analista de recursos ambientais do ISA|Energia e Comunidades
Durante o II Encontro Energias e Comunidades, os líderes da Amazônia puderam dialogar com representantes do governo federal dos ministérios de Minas e Energia, Meio Ambiente, Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome e do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, além da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e secretaria geral da presidência.
“As lideranças puderam apresentar as suas demandas e ouvir os representantes do governo como está a implementação das políticas públicas relacionadas à energia, produção, comunicação, saúde e diversas outras políticas que dependem da energia elétrica”, pontuou o analista de recursos naturais do Instituto Socioambiental (ISA), Ciro Campos.
Um estudo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) estima que quase um milhão de pessoas na Amazônia ainda vivem sem energia. O governo federal tem até 2030 para resolver esta situação através do programa “Mais Luz para a Amazônia”.
No entanto, as lideranças aproveitaram o encontro para pedir celeridade. O encontro foi organizado pela Rede Energia e Comunidades, formada por diversas organizações não-governamentais.
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Guia de plantas da Mata Atlântica, ‘Do Quilombo à Floresta’ é lançado no Sesc Registro (SP)
Livro da Rede de Sementes do Vale do Ribeira compartilha conhecimentos tradicionais quilombolas; baixe a publicação gratuitamente
Guia de plantas da Mata Atlântica é lançando no Sesc Registro pelos coletores da Rede de Sementes do Ribeira, os agricultores João da Mota e Maria Tereza Vieira, do Quilombo Nhunguara (ambos de blusa branca), e pelos autores, Bianca Magdalena e Juliano do Nascimento|Sesc Registro / Livia Badur
A atividade reuniu coletores de sementes e técnicos do ISA em uma mesa de debates sobre restauração florestal. O Sesc Registro fica no município de Registro (SP), no Vale do Ribeira.
Organizado por Bianca Cruz Magdalena, pesquisadora em etnobotânica e mestranda em antropologia, a obra contém informações técnicas e relatos histórico-culturais quilombolas sobre os conhecimentos da plantas nativas da região.
O objetivo da publicação é apoiar o trabalho de coletores e coletoras da Rede de Sementes do Vale do Ribeira e traçar estratégias de defesa da Mata Atlântica, além de valorizar os conhecimentos de convivência com o bioma.
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João da Mota, do Quilombo Nhunguara, fala no Sesc Registro sobre seu trabalho como coletor de sementes|Giovanna Bernardes/ISA
A coletora quilombola Maria Tereza Vieira, do Quilombo Nhunguara, esteve na mesa de lançamento do guia no Sesc Registro e fez uma síntese do que ele representa para a proteção da Mata Atlântica e como os saberes tradicionais convivem com a sabedoria de viver com a floresta em pé.
“Nós temos como viver com a mata em pé e é isso que nós queremos. O povo quilombola sabe muito bem como fazer isso, temos muitas sabedorias e com esse guia queremos que todos entendam isso: como saber respeitar cada espécie”.
O livro nasceu da necessidade de registrar a experiência prática do manejo da paisagem, além de capacitar futuros coletores. Desde 2017, os integrantes da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, juntamente com moradores dos quilombos André Lopes, Bombas, Maria Rosa, Nhunguara e São Pedro, estão fazendo a diferença na preservação da Mata Atlântica.
As comunidades tradicionais quilombolas que fazem parte da Rede têm coletado sementes de espécies nativas, que são destinadas à restauração ecológica de áreas degradadas. Atualmente, a Rede conta com 60 coletores e em 2022, foram mais de duas toneladas de sementes de 98 espécies florestais, gerando uma receita de 242 mil reais em comercialização.
O guia faz a catalogação de 52 espécies vegetais da Mata Atlântica, com informações sobre as formas de coleta, beneficiamento, armazenamento e plantio das sementes florestais e os usos associados nos quilombos do Vale do Ribeira.
Para João da Mota, do Quilombo Nhunguara e coletor da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, o lançamento do guia é um marco que registra a relação dos quilombolas com a manutenção da floresta viva e a convivência com a Mata Atlântica, conhecimento ancestral que é transferido por gerações.
“Para mim é um dia muito importante no lançamento do livro porque é um conhecimento que a gente não aprendeu em nenhuma faculdade, que nenhuma faculdade ensina, mas só aqueles que recebem o conhecimento de pai pra filho. Então, esse guia ajuda, né? Tanto na parte do que a gente pode retirar de cada árvore para poder nos beneficiar, mas também a maneira que ela continue ... A floresta viva, a floresta em pé”, enfatizou João da Mota.
A publicação também destaca a importância do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola (SATQ), reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de ser um excelente guia para conhecer e se aproximar das espécies vegetais nativas da Mata Atlântica.
O bioma tem poucas áreas contínuas conservadas. Atualmente, a Mata Atlântica está reduzida a 7% de sua área original, ou a aproximadamente 100 mil quilômetros quadrados. Desse total, 23% se situam no Vale do Ribeira.
Segundo Juliano Silva do Nascimento, um dos autores do livro e engenheiro agrônomo do ISA, a publicação terá um uso prático e irá auxiliar os futuros coletores.
“O livro registra o conhecimento praticado pela Rede de sementes no manejo das sementes, mas também registra o conhecimento de uso por essas comunidades quilombolas que praticam o manejo da mata há séculos, valorizando esse conhecimento e garantindo o repasse do conhecimento aos demais coletores, jovens e outras comunidades”, disse.
Adelina Sampaio, jovem liderança do povo Desana, ensinou grafismo na V Oficina de Comunicação da Rede Wayuri, em São Gabriel da Cachoeira|Raquel Uendi/ISA
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, que atua há cinco anos na região do Médio e Alto Rio Negro, no Amazonas, está crescendo e agora foca no seu fortalecimento e na exploração de diferentes formatos de comunicação.
Após dias intensos de trabalho na V Oficina de Comunicação, que aconteceu de 23 a 27 de janeiro na sede do Instituto Socioambiental (ISA) em São Gabriel da Cachoeira, comunicadores de várias etnias – como Wanano, Tukano, Baré, Hupda, Yanomami, Baniwa – aprovaram uma Carta de Princípios, documento que organiza a estrutura do coletivo de comunicação indígena.
Durante o encontro, foram abordadas as diversas formas de comunicação utilizadas na região, desde a rádio-poste até o TikTok, passando pelo podcast. Também foram foco de conversas segurança digital, contexto e fortalecimento da política indígena e comunicação como forma de proteção do território.
Um dos convidados da oficina da Rede Wayuri foi Denilson Baniwa, considerado um dos principais artistas contemporâneos do país. Nascido em Barcelos, na região do Rio Negro, ele teve uma conversa inspiradora com os comunicadores, comparando o ofício da comunicação à construção de barcos, trabalho de extrema utilidade no Rio Negro, já que os caminhos – e a comunicação – se dão pelos rios.
“Comunicação é tão importante quanto saber consertar um barco. São ferramentas e conhecimentos diferentes e que têm a mesma importância para a nossa sobrevivência, nossa luta, nosso movimento”, disse.
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Um dos principais artistas contemporâneos do país, Denilson Baniwa falou sobre a importância da comunicação indígena na região|Raquel Uendi/ISA
Na abertura do encontro, o benzimento do conhecedor Luiz Laureano, do povo Baniwa, marcou o início dos trabalhos. Logo após a cerimônia, foi lançado o documentário Wayuri – sobre os cinco anos iniciais da rede. As imagens – muitas feitas pelos comunicadores – mostram rostos e vozes dos comunicadores indígenas que navegam pelas águas do Rio Negro e pelos mais diversos meios de comunicação levando adiante cultura e informações.
O filme também mostra as atividades da rede durante a pandemia da Covid-19, o que rendeu à Wayuri o título de herói mundial da comunicação, concedido pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Além disso, foi feita a entrega do Prêmio Estado de Direito 2022, do World Justice Project (WJP), concedido na cidade de Haia, na Holanda, e que chegou agora às mãos dos comunicadores. O diretor-presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, e a diretora da Foirn, Janete Alves, fizeram a entrega do prêmio a Cláudia Wanano e a outros comunicadores da sede e das bases.
Já o comunicador Ray Baniwa, que integra a Rede Wayuri desde a sua criação, falou sobre a sua trajetória e das conquistas do coletivo de comunicação. Ele criou a identidade visual da V Oficina de
Comunicação.
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Moisés Baniwa, comunicador e cineasta, filma seu pais, Luiz Laureano, do povo Baniwa, que fez o benzimento no início da oficina|Raquel Uendi/ISA
Governança
Criado coletivamente, o documento de governança da Rede Wayuri segue a forma de trabalho da rede, que traz essa característica no próprio nome. Em nheengatu – uma das línguas faladas no Rio Negro – Wayuri quer dizer “trabalho coletivo”.
“Sinto que a Rede Wayuri está amadurecendo e caminhando para fazer vários tipos de trabalho com a participação dos comunicadores. E, para a gente acolher esses novos projetos, precisamos de estrutura e do documento de governança”, afirmou Cláudia Ferraz, do povo Wanano, comunicadora e coordenadora da Rede Wayuri.
Uma versão inicial do documento de governança foi elaborada ao longo de 2022 pelos comunicadores da Rede Wayuri – com parceria do ISA e apoios dos Repórteres Sem Fronteiras. Depois de o documento ser lido e debatido, recebeu as sugestões trazidas pelos comunicadores.
Durante os debates, os comunicadores mostraram que querem uma rede que realmente represente os 23 povos indígenas do Rio Negro e propuseram, por exemplo, que o documento tenha pontos sobre a produção de conteúdo nas línguas indígenas e equidade étnica e de gênero na composição do coletivo e nas oficinas.
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Cláudia Wanano, coordenadora do coletivo de comunicadores indígenas, aposta no futuro: "sinto que a Rede Wayuri está amadurecendo"|Raquel Uendi/ISA
O articulador e comunicador Hélio Lopes, do povo Tukano, trouxe a preocupação sobre a participação dos povos Hupda, considerados de recente contato. “Esse povo fica em áreas mais distantes, mas devemos nos organizar para possibilitar a participação deles”, disse.
A Carta de Princípios foi encaminhada à Foirn, que avaliará o documento em consulta ao Conselho Diretor. A Rede Wayuri está vinculada à Foirn e tem parceria do ISA.
Na oficina – realizada pelo ISA em parceria com a Foirn – participaram cerca de 70 comunicadores e colaboradores das áreas urbanas de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos e das comunidades em áreas das coordenadorias regionais da Foirn: Diawii, Coidi, Nadzoeri, Caimbrn e Caibarnx.
Comunicação diversa
Nesta edição do encontro, os próprios comunicadores tiveram a oportunidade de dar uma oficina. Apoiados pela geógrafa Jéssica Lozovei, os indígenas Irinelson Piloto, Tukano, Plínio Guilherme, Baniwa, e Josy Pereira, Tariano, repassaram seus conhecimentos em uma oficina de rádio-poste, equipamento montado com megafone e bastante utilizado nas comunidades.
Foi lançado um manual de rádio-poste, também elaborado em conjunto com os comunicadores. O equipamento usado na oficina foi doado para a coordenadoria Caibarnx, a única que ainda não contava com esse equipamento em sua área de abrangência. A escolha foi feita em votação em assembleia.
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Grupos de trabalho foram formados para discutir a elaboração da Carta de Princípios, novo documento de governança da Rede Wayuri|Raquel Uendi/ISA
Plínio Baniwa, que faz parte da rede desde o início, repassou conhecimentos para outros comunicadores, sobretudo os mais jovens. “Nós, que participamos da Rede Wayuri há mais tempo, estamos vendo jovens chegando. Isso quer dizer que estamos avançando”, comemorou.
Liderança jovem do povo Desana, Adelina Sampaio conduziu uma oficina sobre grafismo – importante forma de comunicação para os povos do Rio Negro. “Esses grafismos significam alegria e são utilizados em momentos festivos”, explicou.
Para enriquecer as discussões, o influenciador digital indígena Christian Wariu, do povo Xavante, falou sobre seu trabalho e deu uma oficina sobre vídeos para as redes sociais.
Christian Wariu também trouxe sua experiência nas redes sociais. “Muitos criadores de conteúdo, comunicadores, influenciadores, estão em torno de uma coisa muito vazia que é a influência de números: quem tem mais seguidores. Eu acho que os comunicadores indígenas têm uma visão diferente [pois estão dedicados à] utilização dessas ferramentas em prol de algo, seja em prol do movimento, da divulgação da própria cultura ou da denúncia de ameaça a seus territórios”, refletiu.
Em sua oficina, Wariu orientou os comunicadores a produzirem pequenos vídeos para o TikTok, abordando todo o processo, como construção de roteiro, gravação e edição. Os grupos produziram vídeos com temas sobre a cultura, projetos e vivências locais.
Parceiros
A realização da V Oficina da Rede Wayuri teve o apoio da GIZ (Cooperação Internacional Alemã) e a presença da assessora técnica da organização, Sarah Flister, que trouxe à discussão temas como segurança digital e comunicação para defesa dos territórios, mostrando ferramentas tecnológicas que podem ser utilizadas como recurso pelos povos indígenas.
Um dos projetos apresentados foi o Territórios Vivos, que tem entre suas propostas a divulgação de informações por meio da Plataforma de Territórios Tradicionais. Flister também apresentou a plataforma DEK, que possibilita a identificação de conteúdos digitais de segurança duvidosa, combatendo as fake news e outros problemas.
O encontro também foi acompanhado pela Diálogo Brasil, instituição que apoia a Rede Wayuri com o projeto Jornada de Comunicação para Organizações Indígenas, focado em redes de comunicação indígena. “A Rede Wayuri é modelo e inspiração para outras redes, por ter uma estrutura estabelecida há cinco anos e por atuar em território extenso”, disse Dirce Quintino, da Diálogo.
Jornalista, podcaster e à frente da produtora Vem de Áudio, Letícia Leite, que acompanha a Rede Wayuri desde a sua criação, também participou da oficina pela Diálogo Brasil. Ela conversou com os comunicadores sobre o formato podcast e trouxe reflexões sobre o cenário da política indígena no país, com a mudança de governo e a criação do Ministério dos Povos Indígenas.
Um exemplo de podcast citado é o da Sumaúma, agência de comunicação com foco na defesa da Amazônia e de seus povos. O programa é ancorado pela comunicadora da Rede Wayuri, Elizângela Baré.
“Na Sumaúma eu trabalho com jornalistas que são formados, fizeram faculdade. Mas nós também somos graduados nas nossas histórias, nos nossos mitos, nosso território, nosso lugar de origem”, disse em conversa com os comunicadores.
Jornalista da Unicamp, Juliana Sangion conversou com os estudantes sobre vestibular indígena e sobre o podcast Ecoa Maloca, desenvolvido pelos universitários indígenas.
Quem faz a Rede Wayuri
Atualmente, a principal produção da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas é o programa de rádio semanal Papo da Maloca, que vai ao ar na FM 92,7, de São Gabriel, com produção e locução de Cláudia Ferraz e Juliana Albuquerque, do povo Baré. Em seguida, o programa é editado por Cláudia Wanano e fica disponível nas plataformas de áudio como o podcast Wayuri.
Os comunicadores Adelson Ribeiro, do povo Tukano, Irinelson Piloto, do povo Tukano, e Álvaro Socot, do povo Hupda, apoiam essa e outras produções. A Rede também produz conteúdo para o Instagram, onde se concentrou a cobertura ao vivo da eleição presidencial em São Gabriel da Cachoeira.
Em 2022, outro destaque foi a participação dos comunicadores em intercâmbios, entre eles os realizados com apoio da organização RSF.
Até ano passado, a Rede Wayuri contava com cinco bolsistas atuando a partir de São Gabriel da Cachoeira e com cerca de 50 voluntários. A partir deste ano, a rede ampliará o número de bolsistas atuando no território indígena e em área urbana, se aproximando cada vez do seu trabalho colaborativo com os voluntários.
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Restauração faz crescer floresta onde antes era pasto e soja
Equipe do ISA planta mais de 350 hectares de florestas no Mato Grosso em 2022 e cria ilhas de verde em território desmatado pelo agronegócio
“Desmatar é fácil, o difícil é fazer a floresta crescer de novo”, diz Artemizia Moita. A bióloga se define como predestinada - devido ao nome vegetal, por assim dizer. No fim de novembro, ela conduziu a equipe do Instituto Socioambiental (ISA) e parceiros pelo mundo da restauração florestal na Fazenda Santa Cândida, da Agropecuária Fazenda Brasil, em Barra do Garças (MT). Moita já restaurou centenas de hectares de florestas em fazendas por todo o Mato Grosso dominadas pela soja e outras monoculturas, além da agropecuária.
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Equipe do ISA e parceiros fazem restauração florestal manual na Fazenda Santa Cândida, Barra do Garças (MT) |Manoela Meyer/ISA
Plantar florestas vai ser uma das tarefas essenciais para o Brasil cumprir suas metas de reduzir 50% das emissões até 2030 e zerá-las até 2050, segundo compromisso estabelecido na Conferência do Clima da ONU em 2021 (COP-26). Em seu discurso de posse, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou a restauração florestal como uma alternativa econômica sustentável e potente. “O Brasil tem a meta de recuperar 12 milhões de hectares de áreas degradadas, com potencial de gerar 260 mil empregos”, disse ela.
Fazer uma floresta crescer onde antes havia pasto ou monocultura, porém, não é uma tarefa simples, ao contrário do que possa sugerir o senso comum. São várias técnicas possíveis e cada uma delas exige um aprimoramento minucioso. Moita trabalha com isso há 23 anos e, depois de testar muitas delas, se decidiu pela semeadura direta, ou a muvuca de sementes, técnica que o ISA ajudou a aprimorar, executar e para a qual fornece assistência técnica para plantios da região do Xingu e Araguaia, no Mato Grosso.
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"Desmatar é fácil, difícil é fazer a floresta crescer de novo", diz Artemízia Moita |Manoela Meyer/ISA
Estamos em um dos celeiros da Fazenda Santa Cândida e Moita sobe numa boleia presa na traseira de um trator. A carga: mais de dois mil quilos de sementes florestais e adubação verde de 87 espécies diferentes. Estão com ela três trabalhadores da fazenda designados para a missão. Orientados por ela, todos começam a abrir os sacos e despejar o conteúdo sobre o chão da carroceria. “Eu recomendo que todos tirem as botas e fiquem de meia, senão entra semente por todo o lado”, ela lembra.
As sementes aladas, como os ipês e carobas, só devem ser despejadas pouco antes do plantio para que não saiam voando pelo caminho. Depois de jogar todo o conteúdo dos sacos, Moita pega uma pá e começa a misturar as sementes, seguida por seus assistentes, que usam as mãos.
As várias espécies tem que estar todas bem misturadas. Cada uma delas tem uma função diferente, e um momento certo para despontar. Primeiro, são as sementes da adubação verde: o feijão de porco, a crotalaria, o feijão-guandu. Dessas sementes, vão crescer arbustos baixos, que fazem sombra na área. É a melhor maneira de matar a braquiária, uma espécie de capim, e outras gramíneas, bem como de nitrogenar o solo naturalmente, abrindo espaço para as espécies pioneiras - como mamoninha, carvoreiro e lobeira.
Depois de seis anos, as pioneiras vão dar lugar para as primeiras espécies nativas, ou espécies-clímax, como o jatobá, os ipês ou a copaíba, que formam a floresta consolidada.
Por isso, a quantidade de sementes de cada espécie envolve um cálculo apurado, que foi sendo aprimorado nos últimos anos. A quantidade de sementes totais, adubação verde e nativas, por exemplo, foi diminuindo ao longo dos anos, de 150 kg para 70 kg de sementes por hectare.
“O misturado tá bom quando aparece o feijão, o branquinho”, Moita orienta. Quando a mistura fica boa, todos se sentam sobre a grossa camada de sementes. O trator onde está presa a boleia começa a andar em direção à área do plantio.
Moita trabalha no setor de sustentabilidade do grupo Agropecuária Fazenda Brasil (AFB). Quando uma nova fazenda é comprada, ela e sua equipe identificam áreas que, por causa da legislação ou porque não são produtivas, podem ser restauradas e tornar-se floresta outra vez. “Comprou, resolve o problema ambiental que tem nela”, afirma. Um dos casos mais comuns é a recuperação de nascentes. Um solo degradado, sem floresta, pode acabar com uma nascente. Quando você planta uma floresta, aos poucos, essa nascente vai voltando a minar água e cumprir sua função ecológica.
O Instituto Socioambiental (ISA) fornece assessoria para mais 30 plantios no Mato Grosso, Pará e São Paulo, entre fazendas, assentamentos, terras indígenas e unidades de conservação. Ao todo, já foram 4 mil hectares convertidos em floresta. Desde 2006, quando esse trabalho começou, foram muitos aprendizados. Cada proprietário rural tem o seu tempo para compreender a restauração ecológica e seus benefícios, que vão além do cumprimento da legislação ambiental. Quanto mais engajados os atores da restauração, melhores são os resultados alcançados.
“O que é uma floresta madura? Difícil falarmos o tempo exato que podemos considerá-la madura, se é com com 10 anos, 100 anos, 1000 anos. É importante que ela se estabeleça e comece a cumprir a parte ecológica dela”, explica Guilherme Pompiano, da equipe de restauração florestal do ISA. Na própria Fazenda Santa Cândida, depois de um ano, já começou a aparecer onça, capivara, jacaré e tamanduá. É a floresta começar a voltar que os animais voltam junto.
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Trator carrega sementes florestais para restauração em Barra das Garças, MT |Manoela Meyer/ISA
O trator arrastando a carreta de sementes chega à área do plantio. São 32 hectares que antes serviam como área de pastagem. O solo foi preparado com várias gradagens, para inibir o crescimento do pasto por um mês. É o tempo da adubação verde despontar e impedir que as gramíneas voltem a invadir. O grupo se dividiu em dois: uma parte da expedição vai fazer o plantio a pé, a outra no trator.
Os que vão trabalhar a pé se posicionam em uma linha, com sacolinhas cheias de sementes. A cada passo, distribuem um punhado de sementes variadas, simulando uma plantadeira. O grupo de Moita segue para o outro lado na boleia. Dois de cada lado e um nos fundos, saem jogando punhados de sementes no solo enquanto o trator vai andando de um lado para o outro. A ideia é distribuir toda essa carga de sementes ao longo de 32 hectares, cuidando para nenhuma área ter muito mais sementes que a outra.
Ao fim do dia de trabalho, as sementes foram espalhadas. Agora, é deixar a natureza agir: o plantio é sempre feito em época de chuvas (outubro-dezembro), para garantir o estabelecimento da futura floresta. Moita acompanhará o crescimento e o desenvolvimento daquela área mas, na maior parte das vezes, a natureza faz seu trabalho sozinha. “Na minha carreira, eu já fiz muito plantio com muda. Mas hoje abandonei completamente a muda e só trabalho com a semeadura direta, com a muvuca. Para plantio em escala, é o melhor custo-benefício”, diz.
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Florestas de quatro (esq.) e doze (dir.) anos na Fazenda Santa Cândida, em Barra das Garças (MT) 📷Manoela Meyer/ISA
Depois do plantio, Moita nos mostra áreas em diferentes estágios de desenvolvimento. A partir de um ano, a adubação verde já está bem consolidada. Entre os arbustos, já é possível ver espécies pioneiras e até pequenas mudas de nativas que ficaram centenas de anos no local. Na área que tem cerca de quatro anos, as pioneiras já estão crescendo. Ainda tem capim, mas o crescimento das pioneiras logo fará sombra o suficiente para acabar com ele. Em casos mais graves, que o capim é muito resistente, Moita solta alguns bois na área - nessa fase, pode ser uma técnica para acabar com o capim.
A partir dos 6 anos, o solo já se consolida como o de uma floresta: sem capim, coberto de folhas e material orgânico. Entre as pioneiras, as nativas secundárias e clímax já estão crescendo, como o pé de buriti da foto abaixo. Moita nos conduz então para uma floresta consolidada: as pioneiras estão morrendo com o crescimento das nativas, e as espécies-clímax já estão em equilíbrio, resgatando paisagens naturais dessa região de transição entre o Cerrado e a Amazônia. O fluxo natural de dispersão de sementes e enriquecimento florestal já acontece, assim como serviços ambientais ligados à floresta, como evaporação/transpiração, enriquecimento do solo e habitat para espécies nativas.
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Pé de buriti na Fazenda Santa Cândida; espécies-clímax como ela já estão crescendo após seis anos da restauração |Manoela Meyer/ISA
De onde vem tanta semente?
Plantios como o de Moita e tantos outros que acontecem no Mato Grosso só são possíveis graças à Associação Rede de Sementes do Xingu. A Rede forneceu as mais de 2 toneladas de sementes utilizadas no plantio da Fazenda Santa Cândida e faz o mesmo para todos os outros plantios apoiados pelo ISA. Uma coisa não funciona sem a outra. Para ter floresta, é indispensável o trabalho dos mais de 600 coletores de sementes em todo o Mato Grosso que, ao longo dos 16 anos da rede, já coletaram 325 toneladas de sementes.
A coleta de sementes, além de ser a base para milhares de hectares de florestas, é uma alternativa de renda para dezenas de famílias urbanas e rurais. É o caso de Vera Alves da Silva Oliveira, 52 anos. Depois de muitos anos trabalhando como empregada doméstica, Vera mudou de profissão e, com os ganhos obtidos no trabalho com a coleta e venda das sementes, conseguiu ter uma casa própria, um carro e uma moto.
Sua filha, Milene Alves, 24, seguiu seus passos como coletora. E, com o interesse despertado pela Rede, decidiu estudar biologia na graduação e no mestrado. Assista aqui ao vídeo sobre a comemoração dos 15 anos da Rede de Sementes do Xingu:
“Cada um tem seu ritmo, seu jeito de colher semente”, afirma Bruna Dayanna, diretora da Rede. O coletor Vanderlei Augusto, por exemplo, sobe na árvore, coloca uma lona no chão e balança os galhos. Assim, dezenas de sementes de carvoeiro caem ali, proporcionando grandes quantidades dessa espécie. E enquanto alguns, como a Vera Oliveira, preferem beneficiar a semente retirando-as do envoltório com uma roçadeira manual, as Yarang, grupo de coletoras indígenas do povo Ikpeng, preferem beneficiar uma a uma com uma tesoura.
Outro ponto interessante é o sentido que cada um dá para a Rede. As Yarang, por exemplo, entendem que o trabalho de coleta de sementes é uma ponte para restaurar as florestas do entorno e, por isso, exigem que suas sementes sejam utilizadas apenas para restauração florestal, e não em outros fins, como artesanato ou pesquisa. As sementes coletadas pela ARSX já recuperaram 8 mil hectares em plantios com parceiros - 27 milhões de árvores.
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Equipe do ISA e parceiros fazem muvuca de sementes durante expedição na Fazenda Santa Cândida (MT) |Manoela Meyer/ISA
A sede da ARSX fica no centro de Nova Xavantina. Ali, além da parte administrativa e das salas onde trabalha a equipe fixa, tem também a Casa de Semente. Como essa, existem outras 10 Casas de Sementes espalhadas pelo Estado. Nelas, passam cerca de 30 toneladas de sementes por ano.
Hoje, a demanda de semente é previamente contratada, ou seja: os coletores só coletam espécies e quantidade de sementes que tem fim certo. Isso permite uma maior sustentabilidade da Rede.
Em trator, equipe espalha sementes na área a ser reflorestada 📷Manoela Meyer/ISA
Equipe do ISA e parceiros participam de expedição na Fazenda Santa Cândida 📷Manoela Meyer/ISA
Floresta de reflorestamento margeia vicinal em Fazenda Santa Cândida 📷Manoela Meyer/ISA
Muvuca de sementes para restauração na Fazenda Santa Cândida 📷Manoela Meyer/ISA
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Nuances: respostas inteligentes para perguntas inquietantes
Com lançamento em São Paulo, novo livro da escritora e bióloga Nurit Bensusan provoca reflexões sobre a crise climática, a Amazônia, os povos indígenas e os limites da tecnologia
Nuances, novo livro de Nurit Bensusan, é publicado pela Editora Mil Folhas|Divulgação
A gente precisa desmatar a Amazônia para desenvolver o país? O Brasil tem terra demais pra pouco índio? A tecnologia pode resolver todos os problemas ambientais?
Nuances, novo livro da bióloga, engenheira florestal, educadora e especialista em biodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA) Nurit Bensusan, tem perguntas inquietantes, mas propõe respostas ponderadas.
A autora provoca reflexões de forma fácil e engenhosa utilizando informações, infográficos, mapas e dados.
Para além de uma resposta simplificada, o leitor é convidado a pensar as questões socioambientais do nosso tempo sob diversas perspectivas, confrontando-as com os dados apresentados e formando suas opiniões.
“Ter acesso a dados confiáveis e informações pode ajudar as pessoas a entender melhor o que está em jogo quando debatemos esses temas, sem respostas prontas”, afirma a autora.
“É um livro que mostra o valor da pergunta e que ensina que é ela o começo de tudo, inclusive das possibilidades de imaginar futuros diferentes”, diz Maria Luiza Gastal, professora aposentada do Instituto de Biociências da Universidade de Brasília e avaliadora do Programa Nacional do Livro Didático.
O evento contará com uma roda de conversa entre Nurit Bensusan, Aloisio Cabalzar, antropólogo, editor da revista Aru e coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA e Dagoberto Azevedo, indígena do povo Tukano, antropólogo, assessor e analista de pesquisa e desenvolvimento socioambiental do ISA.
O livro é publicado pela Editora Mil Folhas com co-edição do ISA, e pode ser adquirido no site da editora por R$ 40,00.
Sobre a autora
“Sou uma ex-humana, diante dos descalabros da nossa espécie desisti da humanidade, mas continuo bióloga. Enquanto isso, reflito sobre paisagens e culturas, formas de estar no mundo e as inspirações da natureza. Além disso, escrevo livros, faço jogos e aposto minha vida em usar a imaginação como alavanca pra suspender o céu”.
Ficha técnica
Título: Nuances
Autora: Nurit Bensusan
Ilustrações: Caio Ayres & Francisco Bronze
Páginas: 40
1a Edição - 2022
Mil Folhas Três Joaninhas
Uma grande reunião de pessoas com as mais diferentes culturas, classes sociais, tons de pele, idiomas, religiões e gêneros, unidas em um momento de profundas trocas sobre algo que todas compartilham: a vontade de restaurar a sociobiodiversidade do planeta.
Essa reunião de emoções voltadas a um sentido comunal é o que marca o tom dos Encontrões que a Rede de Sementes do Xingu realiza desde que foi fundada, em 2007. Não foi diferente neste 17º Encontrão, que ocorreu entre os dias 8 e 10 de setembro no Polo Pavuru e na aldeia Moygu, Território Indígena do Xingu (TIX), Mato Grosso. Assista:
Dessa vez, o Encontrão celebrou os 15 anos de história da Rede, que vem crescendo com autonomia, tanto nos planos individuais e coletivos dos Grupos Coletores e das equipes, quanto nos processos que estruturam a Rede. Sua maneira de funcionar serve de inspiração para que comunidades ao redor do Brasil também organizem suas próprias redes de sementes voltadas para o reflorestamento, a produção de sistemas agroflorestais e o fortalecimento de espécies vegetais nativas e crioulas.
Durante dois dias, cerca de 210 pessoas celebraram as realizações dessa que é a maior rede de coleta de sementes do Brasil. O Encontrão começou com a apresentação de todos os convidados – um grupo formado por 46 pessoas, entre parceiros e apoiadores, que viajaram longas distâncias para chegar ali – e depoimentos de coletores e pessoas diretamente envolvidas no trabalho de transformação da Rede ao longo de sua história.
O trabalho de semear florestas resiste em meio a grandes desafios
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Coletor Ermínio Oliveira, de Nova Xavantina, explica o beneficiamento de sementes durante o 17º Encontro da Rede de Sementes do Xingu |Erik Vesch/Cama Leão/ISA
A sessão de depoimentos foi aberta com as anfitriãs Magaró e Makawa Ikpeng, que contaram a história do grupo coletor que lideram – o Movimento das Mulheres Yarang, composto por cerca de 90 mulheres que moram, em sua maioria, nas aldeias Moygu e Arayo, vizinhas ao Polo Pavuru (TIX). Juntas, elas já coletaram ao longo de 13 anos pouco mais de cinco toneladas de sementes nativas para o reflorestamento do Cerrado e da Amazônia brasileiros.
“Hoje estamos seguindo firme nesse trabalho, que começou aqui e está se espalhando por todas as partes de Mato Grosso. É bom ver que todo mundo está preocupado com a preservação da natureza, especialmente da água que é a fonte da vida”, disse Makawa.
Água foi uma das preocupações de quem esteve presente no Encontrão. Durante o evento, uma fumaça densa, resultado de queimadas na região, tomou conta da atmosfera, tornando o clima seco e reduzindo ainda mais o nível de água do rio Xingu, principal via de abastecimento da vida no território indígena e no seu entorno. “Quando você queima os matos, você queima as espécies. Vamos segurar as nossas florestas porque não podemos queimar as nossas sementes. A gente não pode abandonar nosso trabalho aqui no Xingu”, disse Akari Waurá, que além de cacique do povo Wauja e coletor da Rede de Sementes do Xingu, também integra uma equipe de brigadistas no Território Indígena.
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Parceiros chegam de barco pelo Rio Xingu. Durante o Encontro, uma das maiores preocupações foi a água, cada vez mais escassa na região |Erik Vesch/Cama Leão/ISA
A resistência dessas comunidades tradicionais vem de longa data. Aos 73 anos, o coletor Placides Pereira Lima, que vive no assentamento da agricultura familiar Manah, no nordeste de Mato Grosso, mandou um recado consciente de que as transformações climáticas são resultado de ações baseadas na ideia de lucro ilimitado: “O importante é plantar. Nós estamos plantando vida, plantando saúde. Nessa corrida do trabalho da Rede, nosso trabalho é de boa vontade e nós estamos em guerra. Enquanto estamos coletando, plantando, outros vêm atrás arrancando. No nosso assentamento, a minha propriedade está cercada de soja. Isso precisa ter um limite. Não significa parar toda a soja, mas a soja tem de respeitar os assentamentos, ela está expulsando os pequenos. Quando eu alugo meu pedacinho de chão, serão cinco anos que eu não vou colher nem uma batata. Às vezes, a pessoa está iludida e fica só esperando receber o dinheiro. Porém, com esse dinheiro, ela está comprando a fome. Porque os pequenos produtores de alimento estão sendo expulsos de suas propriedades para ir para as favelas da cidade”.
Um Encontro repleto de abraços, sorrisos, esperança, cantorias e danças
Mesmo com tantos desafios e ameaças ao trabalho de reflorestar e garantir a vida com diversidade e abundância de água e alimento, o Encontrão também foi um momento de festejar toda a trajetória da Rede de Sementes do Xingu, que começou como uma iniciativa implementada pelo Instituto Socioambiental em 2007, e hoje é uma associação sem fins lucrativos com presença de coletores de sementes nas bacias dos rios Xingu, Araguaia e Teles Pires – uma área de atuação maior do que a do estado do Rio Grande do Sul.
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Jovens fazem apresentação cultural durante o 17º Encontrão da Rede de Sementes do Xingu |Erik Vesch/Cama Leão/ISA
“A gente ficou muito tempo sem poder se encontrar por causa da pandemia, e esse momento foi de celebrar, de encontrar pessoas que fazem essa Rede acontecer. Foi muito especial comemorar os 15 anos da Rede de Sementes do Xingu dentro do território que leva o seu nome, porque foi ali que tudo começou. Os povos do Xingu fizeram o primeiro chamado, ao observar a mudança no território indígena com o avanço do agronegócio. Eles pediram ajuda para restaurar e a Rede nasceu a partir disso”, relembra Bruna Ferreira, diretora-executiva da Rede.
Para celebrar esses 15 anos de restauração da vida, os povos indígenas Ikpeng, Wauja e Xavante apresentaram cantos e danças de festa tradicionais de cada cultura. Também teve uma saída para coletar sementes com as coletoras do Movimento das Mulheres Yarang, seguida pelas estações – exposições sobre os diferentes trabalhos realizados pela Rede e seus parceiros.
Nas estações, os coletores e convidados puderam conhecer as inovações mais recentes no beneficiamento de algumas sementes, desenvolvidas pelos próprios coletores, os trabalhos do grupo de jovens, o modo de funcionamento das Casas de Sementes, as publicações que orientam os coletores a realizar o trabalho (como o Livro do Coletor), detalhes sobre o Fundo Rotativo Solidário, e também puderam assistir ao filme em realidade virtual “Fazedores de Floresta”, sobre a Rede de Sementes do Xingu, lançado em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) – o maior parceiro da Rede de Sementes do Xingu – em 2021.
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Dança tradicional do povo Ikpeng celebra os 15 anos da Rede de Sementes do Xingu na aldeia Moygu |Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Na noite de 10 de setembro, o Encontrão de 15 anos foi encerrado com três bolos, parabéns, um concurso de forró e uma noite de muito lambadão, que só terminou com o desligamento do gerador. A dupla vencedora dessa edição especial de 15 anos do tradicional concurso de forró foi Rymoata e Siry Kayabi, que são casados e moram na aldeia Samaúma, no Território Indígena do Xingu.
Estiveram presentes na festa – e também na Assembleia Geral da Associação, realizada no dia 8 de setembro – participantes dos grupos coletores indígenas Movimento das Mulheres Yarang, Matipu, Yudjá, Kaiabi, Warawara e Kuyuwi (do povo indígena Wauja), Ripá, Paraíso e Pi'õ Romnhama Ubumrõi'wa (do povo indígena Xavante), além dos Grupos coletores de assentamentos da agricultura familiar Bordolândia, Macife, Fartura, Manah e Ceiba, e também os grupos das cidades de Nova Xavantina e Santa Cruz do Xingu.
“Até acontecer o Encontrão eu não sabia o quanto é importante participar da Rede de Sementes do Xingu. Estou me sentindo muito orgulhosa de fazer parte disso tudo. Agora não fico mais em casa não, toda vez que surgir uma oportunidade de encontro eu estou indo! Foi muito bom, estou sem palavras para expressar o tanto que foi maravilhoso", diz Lourença Costa, coletora no assentamento Manah.
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Concurso de forró embalou os presentes no encerramento do 17º Encontrão |Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Assembleia Geral aprova a alteração de endereço da sede da Rede
A principal definição da Assembleia foi sobre a mudança de endereço da sede da Rede de Sementes do Xingu para a cidade de Nova Xavantina (MT). Desde a retomada de atividades presenciais seguras após a pandemia, as operações do escritório da Rede estão concentradas na cidade. Antes disso, o escritório ficava em Canarana (MT), nas dependências do Instituto Socioambiental (ISA).
Entre as razões para a mudança, expostas durante a Assembleia, estão a logística facilitada, a presença de um grupo de coletores consolidado, e a parceria com a Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat), em que a Rede ajuda a manter o laboratório de análise de sementes.
Além dos coletores, também estiveram presentes no Encontrão as equipes de trabalho da Rede de Sementes de Xingu e representantes das instituições parceiras ISA, Operação Amazônia Nativa (Opan), Instituto Bacuri, Gusmão & Labrunie, Senselab, WWF Brasil, Black Jaguar, Instituto Sociedade, População e Natureza (Ispn), Rede de Sementes do Cerrado, Associação Cerrado de Pé, Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre), Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Redes de Sementes do Vale do Ribeira e do Vale do Paraíba, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra do Mato Grosso (MST-MT), Escola Família Agrícola Jaguaribana Zé Maria do Tomé, Polo Socioambiental Sesc Pantanal e Instituto Talanoa.
Uma associação não-governamental sem fins lucrativos, estruturada por povos indígenas, agricultores familiares e comunidades urbanas localizadas em territórios da Amazônia e do Cerrado no estado de Mato Grosso, Centro-Oeste do Brasil. São mais de 600 coletores de sementes unidos por dois objetivos em comum: a restauração florestal por meio da coleta e comercialização de sementes de diferentes espécies, e a valorização da autonomia dos povos e culturas tradicionais que fazem parte da Rede de Sementes do Xingu — a maior e mais inspiradora rede de coleta de sementes nativas do Brasil.
Saiba mais assistindo ao filme "Fazedores de Floresta", produzido em parceria com o Instituto Socioambiental:
Coletoras Yarang selecionam sementes de amescla 📷 Ludmilla Balduino/ARSX
Em Assembleia Geral, foi decidida a mudança da Rede para Nova Xavantina (MT) 📷 Ludmilla Balduíno/ARSX
Claudia Araújo (esq.), Wanku Ikpeng e Bruna Ferreira cantam parabéns à Rede de Sementes do Xingu 📷 Ludmilla Balduíno/ARSX
Criança assiste ao filme em realidade virtual "Fazedores de Floresta" durante o Encontrão 📷 Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Muvuca de sementes durante o 17º Encontrão da Rede de Sementes do Xingu 📷 Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Coletores e parceiros celebram os 15 anos da Rede de Sementes do Xingu 📷 Erik Vesch/Cama Leão/ISA
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Florestas do futuro dependem de monitoramento efetivo e imediato, mostra livro
Publicação da Aliança pela Restauração na Amazônia, disponível para download, apresenta caminhos para avaliar resultados e comparar metas de projetos
A Aliança pela Restauração na Amazônia fará nesta terça-feira (29/11) o pré-lançamento da publicação “Recomendações para o Monitoramento da Restauração na Amazônia”, durante a IV Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE 2022) em Vitória (ES).
O lançamento será no dia 9 de dezembro em Webinário público no Youtube da Aliança.
A publicação apresenta recomendações técnicas e indicadores para o monitoramento dos serviços ecossistêmicos e biodiversidade, recomendações para Programas de Regularização Ambiental (PRAs) estaduais (saiba mais abaixo) e algumas reflexões para o monitoramento da dimensão socioeconômica da restauração.
Publicação apresenta recomendações e indicadores para a restauração de ecossistemas, agenda vital para a humanidade | Reprodução
A restauração de ecossistemas é uma solução para enfrentar as mudanças do clima e a perda da biodiversidade. A restauração também é uma agenda de desenvolvimento humano com impacto positivo em todos os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs).
Por se tratar de uma agenda vital para a humanidade, a ONU declarou o período de 2021 e 2030 como a Década da Restauração de Ecossistemas.
O ano de 2023 promete ser “o ano da implementação” das diversas metas climáticas e ambientais, e será marcado no Brasil pela transição para um novo governo que em seu discurso e plano tem dado atenção especial ao tema, buscando reposicionar o Brasil como um dos expoentes ao combate à crise climática e perda de biodiversidade global.
A publicação se destina a todos os atores da restauração, inclusive investidores, financiadores, executores, pesquisadores, gestores públicos, encarregados de manejar, relatar e avaliar o cumprimento de metas de projetos de restauração.
Benefícios e desafios
A restauração gera benefícios ecológicos e socioeconômicos tangíveis. Também é uma exigência legal em áreas públicas e áreas privadas. A Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN, Lei nº 12.651/2012), chamada de “Novo” Código Florestal, trouxe mecanismos para promover a regularização ambiental de imóveis rurais com passivos de floresta – o Programa de Regularização Ambiental (PRA).
Depois de 10 anos da aprovação desta lei, sua implementação continua baixa. Embora todos os estados Amazônicos tenham regulamentado o PRA, apenas três regulamentaram indicadores para monitorar o processo de restauração.
Enquanto isso, o desmatamento de florestas conservadas e secundárias continua subindo. De fato, os últimos quatro anos foram trágicos para a agenda da conservação e restauração no país.
A Aliança, em conjunto com outros coletivos, assinaram carta conjunta com propostas para a retomada da agenda de restauração no país. Para a Aliança, a efetividade da restauração, seja na escala da regularização ambiental da propriedade rural ou de programas e compromissos globais, precisa de uma forma pactuada de quantificar e qualificar periodicamente os resultados ecológicos e socioeconômicos da restauração, através do monitoramento.
“O fortalecimento das iniciativas de restauração, conectando esforços globais e locais de combate à crise climática, desigualdade social e perda de biodiversidade, é um importante objetivo estratégico da Aliança pela Restauração na Amazônia”, afirma Danielle Celentano, consultora.
“Esperamos que essa publicação possa orientar a adoção de protocolos de monitoramento, com indicadores e métodos de amostragem padronizados, que permitam avaliar o impacto da restauração e comparar resultados entre projetos, a fim de identificar aprimoramentos das políticas e programas, mesmo que em diferentes contextos ecológicos e socioeconômicos”, ressalta Eduardo Malta, do Instituto Socioambiental (ISA).
A publicação é uma realização da Aliança pela Restauração da Amazônia com consultoria do ISA e apoio da Conservação Internacional (CI-Brasil), WRI Brasil, TNC Brasil e Imazon. O apoio à impressão é do Fundo Amazônia.
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Experiências com restauro florestal têm fomentado uma cadeia produtiva que gera renda para comunidades locais e a mudança de paradigmas | Ricardo Abad/ISA
Sobre a Aliança pela Restauração na Amazônia
Na Amazônia, a restauração pode contribuir para um novo paradigma de desenvolvimento socioambiental, valorizando a floresta em pé com protagonismo dos povos e comunidades locais. Acreditando nisso, foi criada a Aliança pela Restauração na Amazônia em 2017, com a missão articular múltiplos atores para promover a restauração na região como uma estratégia integrada à conservação e com benefícios socioeconômicos compartilhados.
Sobre a IV Conferência Brasileira de Restauração Ecológica
Com sua próxima edição programada para ocorrer entre os dias 28 de novembro e 02 de dezembro de 2022, a IV Conferência Brasileira de Restauração Ecológica deverá retomar seu formato presencial na cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, tendo como tema a Restauração Multifuncional e Mudanças Climáticas.
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Belo Monte: Depois de peixes sumirem, indígenas e ribeirinhos elaboram proposta para garantir a vida no Xingu
Após anos de monitoramento, pesquisadores independentes estabelecem vazão necessária para reprodução de peixes e aguardam posicionamento do Ibama em mais um capítulo de guerra judicial
Indígenas e ribeirinhos apresentaram ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) uma proposta para que a Usina Hidrelétrica de Belo Monte libere água suficiente para a manutenção da vida na região. O órgão ainda não se manifestou, mas deve fazê-lo a qualquer momento.
Chamada de Hidrograma Piracema, a proposta apresentada é a primeira que considera critérios ecológicos para definir as quantidades de água liberadas de acordo com cada período do ano e respeita as áreas de reprodução dos peixes e tracajás, as piracemas.
“Quem sabe quando a água precisa chegar? Quem sabe quanta água precisa chegar? Juruna sabem, tracajás sabem, pacus sabem, curimatás sabem, ribeirinhos sabem”, afirma a pesquisadora local Sara Rodrigues Lima, em parecer do Monitoramento Ambiental Territorial Independente da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX). “Essas existências sabem e já está na hora de serem ouvidas”. Acesse aqui.
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"Donos" do Rio Xingu, indígenas e ribeirinhos da Volta Grande lutam por mais água para garantir a vida na região |Zé Gabriel/Greenpeace
A quantidade de água que Belo Monte libera para o trecho do rio abaixo do barramento, a Volta Grande do Xingu, é motivo de polêmica e disputa judicial.
A Norte Energia, concessionária que opera Belo Monte, havia apresentado duas propostas para a vazão de água, os chamados “hidrograma A” e “hidrograma B”, que liberavam pouquíssima água para a região, em um cálculo cujos critérios nunca foram esclarecidos.
Segundo o Ministério Público Federal e o Ibama, nenhuma das duas opções garantia condições mínimas para a manutenção da vida na Volta Grande do Xingu, o que fez com que a Justiça Federal de Altamira, atendendo ao MPF, obrigasse a Norte Energia a liberar água num “hidrograma provisório”, mais parecido com as vazões naturais do rio antes do barramento.
Enquanto isso, a Norte Energia deveria apresentar uma proposta que respeitasse patamares mínimos de existência de vida no rio Xingu - o que nunca foi feito por parte da empresa, que tampouco demonstrou qual a lógica ambiental dos hidrogramas “A” e “B”. No ano passado, atendendo a um pedido da Norte Energia, o Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF1) suspendeu a decisão que implantava o hidrograma provisório do Ibama.
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Dinâmicas de enchente e vazante na Volta Grande do Xingu quando aplicados o Hidrograma Piracema e os hidrogramas "A", "B" e provisório |MPF
Oito anos de estudo
O hidrograma sugerido pelas comunidades locais é fundamentado no monitoramento minucioso das piracemas e dos impactos causados pela alteração no fluxo da água. Esse monitoramento independente é feito desde 2014 por pesquisadores indígenas e não indígenas, e foi uma saída para se contrapor ao monitoramento pouco preciso que a Norte Energia faz da região.
O Hidrograma Piracema estabelece não só números para a vazão de água, mas o período do ano que cada vazão é necessária. Outro ponto importante é que ele estabelece que as alterações do fluxo do rio devem ser graduais, tanto na cheia quanto na vazante, tentando aproximar o pulso artificial do pulso natural do rio. Nos hidrogramas A e B propostos pela Norte Energia, as variações são abruptas e sem qualquer conexão com os tempos da natureza.
Apesar de considerar critérios ecológicos, o Hidrograma Piracema é uma proposta de consenso. Os povos da região tiveram que abrir mão de algumas espécies de peixes, tracajás e de vegetação nativa, já que a quantidade de água liberada ainda será bem menor do que o fluxo natural do rio.
Historicamente, a vazão do rio começa a reduzir em maio, quando inicia a seca, e chega a um mínimo em setembro. A partir de outubro, quando volta a chover, o rio começa a subir de novo. Tanto o processo de cheia quanto de seca são graduais: a água vai reduzindo ou aumentando mês a mês. Com a instalação da hidrelétrica, esse ritmo natural e sutil foi substituído por um fluxo mecânico.
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Média das vazões históricas e níveis de água propostos pelo Hidrograma Piracema e pelos Hidrogramas "A", "B" e provisório |MPF
Da noite para o dia, grandes quantidades de água eram barradas ou liberadas, de acordo com as necessidades da hidrelétrica. Muitos peixes e tracajás morreram. Os Juruna também relatam que encontravam muitos peixes com ovas secas em sua barriga. Isso porque essa inundação e redução instantâneas criavam uma situação de estresse para os peixes e eles simplesmente não conseguiam desovar. As fêmeas morriam com as ovas secas, num cenário de catástrofe ambiental.
“É como uma mulher que tem dentro dela um bebê morto. Conseguem perceber a importância das piracemas?”, questiona Josiel Juruna, coordenador do Monitoramento Independente. Em junho de 2022, pesquisadores locais encontraram curimatás que perderam a época da desova, realizada normalmente entre os meses de janeiro e fevereiro, porque o volume de água liberado não garantia segurança para as fêmeas e suas ovas.
No mês de dezembro, quando a enchente é chave para que as fêmeas se sintam confortáveis para entrar na piracema e iniciar a desova, os volumes liberados pela Norte Energia (uma média de 967 m3/s) foram três vezes menores ao proposto pelo Hidrograma Piracema e quatro vezes menores que a média histórica do rio Xingu, antes da construção e operação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Níveis tão baixos impossibilitam a manutenção da vida na região.
No Hidrograma Piracema, o fluxo de água começa a aumentar sutilmente a partir de outubro, tendo um aumento mais substancial em novembro e uma elevação gradual até abril, quando começa a baixar. Isso permite a inundação de várias piracemas no período de reprodução de algumas espécies. Outras serão sacrificadas, e suas áreas de reprodução não serão alagadas, causando sua extinção. Neste mapa, é possível aumentar e reduzir a vazão e entender qual o alagamento que isso gera.
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Curimatá com ovas secas na barriga, devido à vazão insuficiente para que a fêmea se sinta confortável para entrar na piracema e desovar |Cristiane Carneiro
A vazão de vazante (quando a água começa a baixar) precisa ocorrer de forma gradual para garantir o desenvolvimento dos filhotes de peixes dentro dos igapós e lagos. O peixe recém-nascido precisa de cerca de três meses para se desenvolver em águas calmas, e precisa, da mesma forma, do fluxo da água baixando para conseguir aproveitar a correnteza gerada por essa mudança e se deslocar novamente da piracema para o leito do rio.
Além disso, o nível de alagamento de pelo menos parte do igapós deve ser atingido durante o período de frutificação de suas árvores. Dessa forma, os frutos caem nas águas alagadas e servem de alimento para as espécies aquáticas. Nos últimos anos, esses frutos estão caindo no seco e os peixes e tracajás estão morrendo sem alimento.
“A Norte Energia continua a defender os hidrogramas A e B, ignorando um parecer do Ibama que mostra que esses fluxos são impraticáveis. Do outro lado, tem uma alternativa fundamentada em critérios ecológicos transparentes. O órgão vai ter que escolher por algum deles, ou por um terceiro, mas independente da decisão, vai ter que motivar tecnicamente sua decisão”, afirma Biviany Rojas, pesquisadora do Instituto Socioambiental (ISA).
“Se não mudarmos o rumo das coisas, a Volta Grande vai ser um grande cemitério de gente e de peixe”, conclui a pesquisadora Sara Rodrigues Lima.
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Yanomami e Ye'kwana aprendem cinema contando suas histórias
Oficina na casa do xamã Davi Kopenawa, na Terra Indígena Yanomami, ensinou técnicas de roteiro, filmagem e edição
Comunicadores da floresta: Davi Kopenawa recebe em sua comunidade aprendizes da Terra Indígena Yanomami para oficina|Fabrício Araújo/ISA
Treze comunicadores de quatro comunidades da Terra Indígena Yanomami se reuniram na casa do xamã Davi Kopenawa, na comunidade Watorikɨ, Terra Indígena Yanomami, para aprender a fazer cinema. Uma oficina – ministrada por cineastas, indígenas e antropólogos – ensinou ao longo de 15 dias os participantes a contar as histórias da floresta.
Os comunicadores, com idades entre 13 e 38 anos, aprenderam a manusear equipamentos, técnicas, elaboração de roteiro e storyboard, além de movimentação de câmeras e edição de imagens.
Todas as manhãs, o grupo acordava ao redor das 6h, seguia para o banho no rio e café da manhã. Pouco antes das 08h30, horário de início das atividades, os alunos se reuniam na sala de aula construída com troncos de árvores e com vista para a Serra dos Ventos (ou Watorikɨ, em Yanomami).
O clima mesclava o entusiasmo dos comunicadores com a neblina que apareceu todas as manhãs em razão das chuvas na região do Demini. No primeiro dia, os jovens contaram o que costumam assistir: partidas de futebol, reportagens, filmes e documentários sobre povos indígenas.
No segundo e terceiro dias, os professores apresentaram técnicas de filmagem e incentivaram os comunicadores a pôr as mãos na massa. Eles gravaram nas trilhas da floresta, no rio em que tomam banho, no xapono (local em que vivem e dormem os Yanomami) e até no Posto de Saúde Indígena.
Depois de uma pausa para o almoço e descanso, todos se reuniam na sala de aula por volta das 14h30 para exibir as filmagens e pontuar o que precisava ser aperfeiçoado. Nestes momentos, as crianças e os mais velhos também aproximavam com curiosidade para observar o desempenho dos alunos.
Colocando sonhos em prática
A antropóloga Marília Senlle coordenou o processo a pedido da Hutukara Associação Yanomami, que desenvolve a formação de comunicadores da maior Terra Indígena do país. Para Senlle, a oficina prepara os indígenas para pôr sonhos em prática e ainda pode ser uma ferramenta para preservar os conhecimentos Yanomami.
“Produzir material audiovisual é uma possibilidade deles estarem falando por si mesmos. Também, é uma oportunidade para conversar com os mais velhos, aprender os conhecimentos e difundir entre eles”, explicou.
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Da esquerda para a direita: Edmar Yanomami, Otílio Yanomami, Juruna Yanomami e Pedro Portella durante oficina de cinema|Fabrício Araújo/ISA
Esta é a quarta oficina de comunicação desenvolvida pela Hutukara na Terra Indígena Yanomami, e o cinema foi escolhido como foco a pedido dos próprios indígenas. As duas primeiras ocorreram em 2018 e 2019 com ensino de fotografia e produção de boletins de áudio em Boa Vista, na sede da Hutukara.
No ano seguinte, houve uma pausa em razão da pandemia de Covid-19 e o retorno da formação aconteceu em dezembro de 2021, com a elaboração de produções audiovisuais a partir de celulares.
Desta vez, os comunicadores tiveram acesso a quatro câmeras profissionais com microfones, tripés e fones de ouvido, além de manuais de edição em Yanomae (uma das língua da família Yanomami) e três computadores para edição. Como todo o processo de formação e a produção dos vídeos ocorreu na floresta, o projeto também contemplou dois kits com placas solares para manutenção dos equipamentos.
“Foi escolhido o Watorikɨ porque é a casa do Davi e também porque é uma oficina audiovisual com a intenção de produzir filmes. Assim, era muito mais interessante poder elaborar a linguagem e as dinâmicas a partir do cotidiano que eles vivem, do que estar na cidade e ter que produzir conteúdos alheios à vivência deles”, afirmou Senlle.
Durante o dia, os alunos recebiam os conteúdos, faziam exercícios práticos e produziam partes de seus curtas. De noite, depois do banho e do jantar, um projetor no Xapono passava filmes, como Macunaíma. Durante as exibições, bancos eram arrastados para perto do projetor e toda a comunidade se reunia diante do ponto que, junto com as fogueiras, iluminava o local.
Todas as atividades foram supervisionadas por Davi. Ele disse estar feliz com a evolução dos comunicadores e que deseja ver filmes que fortaleçam a cultura Yanomami e circulando nos celulares dos jovens. “Os Yanomami aprenderam a fazer filmes entre nós. A nossa luta vai poder ser documentada e mostrada para os não-indígenas para que reconheçam a nossa cultura, o nosso jeito de pensar e toda a nossa luta. Esses filmes serão como flechas para atingir corações com a nossa mensagem”, pontuou.
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Davi Kopenawa: "Nossa luta vai poder ser documentada. Filmes serão como flechas para atingir corações com nossa mensagem"|Fabrício Araújo/ISA
Técnicas e aprendizados
Da região do Demini, onde está localizada a comunidade Watorikɨ, seis comunicadores participaram da oficina: Edmar Yanomami, Aida Yanomami, Kátia Yanomami, Severo Yanomami, Lindomar Yanomami e Otílio Yanomami. Deles, somente a jovem Aida e Edmar, de 38 anos, que também é xamã, já haviam participado de outras oficinas.
“Eu gostei de aprender a filmar. Vou poder fazer vídeos e até filmes. Depois, eu quero divulgar a minha cultura com isso”, contou Edmar. Ele, com outros garotos da região, trabalhou em um curta sobre as brincadeiras das crianças Yanomami.
Já Aida e Kátia se juntaram a Darysa Yanomami, jovem de 28 anos que vive na região da Missão Catrimani. Darysa participou de todas as oficinas para comunicadores feitas pela Hutukara e integra um grupo de pesquisadores Yanomami. O trio escolheu produzir um curta sobre as tradicionais pinturas com urucum.
“Eu gostei muito de participar desta oficina. A professora Louise ensinou muito bem. Agora, vou poder tentar usar mais a câmera depois dessa oficina. Tudo isso me deixou muito feliz, eu aprendi muito”, comemorou Darysa.
A professora citada por Darysa é a cineasta Louise Botikay, de 44 anos, que trabalha como diretora de fotografia em produções convencionais e produz filmes autorais como Um Filme para Ehuana, produção feita na própria comunidade Watorikɨ em 2017.
“Essa oficina foi um sonho realizado. Eu comecei a pensar nela da última vez em que estive em Watorikɨ. Conversei com o Davi e decidimos que seria importante fazer este trabalho com os comunicadores, então escrevi o projeto junto ao Pedro”, contou Botikay.
O documentarista e antropólogo Pedro Portella, de 47 anos, foi a dupla de Louise para escrever o projeto de oficina. Ele costuma documentar povos indígenas e tem parceria de longa data com Morzaniel Irawari Yanomami, de 42 anos, que é reconhecido como o primeiro cineasta Yanomami e também participou das aulas de cinema para os comunicadores indígenas.
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Morzaniel Irawari Yanomami, considerado o primeiro cineasta Yanomami, participou da oficina para comunicadores no Demini|Fabrício Araújo/ISA
A inspiração de Morzaniel para trabalhar com o audiovisual foram jornalistas que chegavam à Terra Indígena Yanomami para entrevistar Davi. Os comunicadores explicavam que era uma forma de documentar a história, defender os direitos indígenas e apresentar os Yanomami ao mundo.
“Depois, eu tive vontade de fazer as minhas próprias imagens, para mostrar a nossa realidade de indígenas para indígenas. Ensinei um pouco sobre cinema para estes jovens Yanomami e fico muito emocionado, feliz, porque eles vão continuar fazendo esse trabalho e mandar nossa mensagem para os não-indígenas”, afirmou.
A dupla trabalhou nas duas produções mais conhecidas de Morzaniel, que são A Casa dos Espíritos e Curadores da Floresta, ambas exibidas dentro e fora do país.
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Da esquerda para a direita: Juruna Yanomami e Kennedy Yanomami durante atividade realizada na oficina de cinema no Demini|Fabrício Araújo/ISA
Assim como Morzaniel, o comunicador Juruna Maxapino Yanomami, de 30 anos, se inspira no jornalismo e sonha em um dia ser reconhecido como repórter na Terra Indígena Yanomami.
Juruna vive na região da Missão Catrimani e participou de todas as oficinas para comunicadores da Hutukara. Ele se juntou a Kennedy Yaripeiro Yanomami, que vive na região do Toototobi, para produzir um filme sobre as plantações feitas por indígenas.
“Os professores ensinam bem, eu aprendi muita coisa sobre foco e enquadramento. Eu gosto de fazer filmes e escolhi como tema o roçado para falar sobre a saúde na Terra Yanomami”, disse Juruna.
A intenção da dupla era explorar a saúde por meio da nutrição mostrando o trabalho que homens e mulheres Yanomami fazem para manter uma produção sustentável na comunidade Watorikɨ.
Para integrar os Yanomami com os Ye’kwana, que também vivem na Terra Indígena Yanomami, um trio da região de Awaris também foi ao Demini para participar da oficina. Jair Magalhães Rocha, Cleber Rui Magalhães Rodrigues e Misael Lopes foram os escolhidos.
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Jair Magalhães Rocha, um dos três comunicadores Ye'kwana da região de Awaris que participou da oficina no Demini|Fabrício Araújo/ISA
Conforme explica Maurício Ye’kwana, diretor da Hutukara, o critério de escolha dos três jovens foi apenas a vontade demonstrada por eles quando a oficina foi anunciada.
Morzaniel confirma: "perguntamos quem tinha interesse. Não usamos nenhum critério além da vontade de fazer. Esse trio se manifestou e os trouxemos à Terra Indígena Yanomami. Eles fizeram um filme sobre a experiência deles e escutaram bastante o Davi”.
Jair Magalhães Rocha, de 22 anos, contou que esta foi a sua segunda oficina e o que o motivou foi porque gosta de comunicação. Ele disse ainda que deseja se tornar jornalista ou cineasta. Assim como os outros dois Ye’kwana, esta foi a sua primeira vez em uma comunidade do povo Yanomami.
“Eu gostei dos montes, da serra e dessa comunidade, que eu só tinha visto por foto. Por isso, decidimos fazer um curta sobre a nossa experiência aqui, contando como chegamos e também uma entrevista com o Davi”, explicou.
A previsão é que todos os filmes produzidos pelos 13 comunicadores indígenas durante a oficina sejam disponibilizados em um canal da Hutukara Associação Yanomami.
De produção em produção, os Yanomami e Ye'kwana vão construindo memória de suas experiências e histórias e registrando a partir de suas perspectivas as "flechas" que contam ao mundo a realidade da Terra Indígena Yanomami.
Na floresta, comunicação e resistência caminham juntas.
A oficina contou com o apoio do Projeto Rumos Comunicadores Indígenas, financiado pelo Itaú Cultural, além do investimento da Rainforest Foundation Noruega e da União Europeia.
Da esquerda para a direita: Darisa Yanomami, Edimar Yanomami e Otílio Yanomami participam da oficina de cinema|Fabrício Araújo/ISA
Da esquerda para a direita: Severo Yanomami, Lindomar Yanomami, Otílio Yanomami, Morzaniel Yanomami e Pedro Portella gravam cenas para curta-metragem|Fabrício Araújo/ISA
Da esquerda para a direita: Marília Senlle, Maurício Ye’Kwana, Kleber Magalhães Rocha e Jair Magalhães Rocha em aula sobre técnicas de cinema|Fabrício Araújo/ISA
Da esquerda para a direita: Pedro Portella, Otílio Yanomami, Louise Botikay e Jair Magalhães Rocha, alunos e professores|Fabrício Araújo/ISA
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ISA planta florestas no Mato Grosso para combater mudanças climáticas
Mais de 180 hectares já foram plantados no Xingu em parceria com a empresa Natura para compensar emissões de carbono
Plantar florestas para combater as mudanças climáticas. Esse é o mote do projeto Carbono Nascentes do Xingu, uma iniciativa de restauração florestal do Instituto Socioambiental (ISA). O projeto, que nasceu em parceria com a empresa Natura, está compensando parte das emissões de carbono da sua produção por meio dos plantios.
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Zona reflorestada em Santa Cruz do Xingu, no Mato Grosso, pelo projeto Carbono das Nascentes do Xingu|Ricardo Abad/ISA
Entre os dias 1 e 8 de novembro, será feita uma auditoria para atestar que as áreas de floresta contratadas estão crescendo de acordo com o planejado. O processo é praxe em projetos de sequestro de carbono certificados.
A restauração acontece desde 2011 em Santa Cruz do Xingu (MT) em Áreas de Preservação Permanente, como as nascentes do Rio Xingu, e em áreas de Reserva Legal degradadas. Tratam-se de áreas nas quais os proprietários rurais são obrigados a manter a floresta em pé.
Ao todo, já foram restaurados 180,70 hectares, que sequestraram 33.418,32 toneladas de CO2. Até 2041, a expectativa é a de que 61.533t de CO2 sejam sequestradas.
“Ao olhar hoje os resultados que estamos encontrando durante os monitoramentos dessas áreas e o tanto que esse projeto apoiou no fortalecimento da Rede de Sementes do Xingu, vemos que valeu muito a pena todo o esforço feito no passado”, afirma Guilherme Pompiano, do ISA.
Quer conhecer melhor a RSX? Assista ao filme Fazedores de Floresta e acesse o site:
Essa região do Mato Grosso já foi uma grande floresta até meados do século 20. Com a expansão do agronegócio na região nas últimas décadas, grande parte das florestas foi convertida em plantações de commodities, incluindo áreas nas nascentes do Rio Xingu.
Por obrigações legais ou em busca de compensação de carbono, muitos fazendeiros procuram o ISA para restaurar as áreas degradadas. Para crescer, as árvores absorvem grandes quantidades de carbono, até mais, comparativamente, do que áreas de floresta já consolidadas.
Em um primeiro contrato, o ISA, o Instituto Centro de Vida (ICV) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) restauraram 116 hectares para compensar as emissões da empresa Natura por meio de créditos de carbono gerados.
O segundo contrato foi feito entre Natura, ISA e Associação Xingu Sustentável (AXS), formada por produtores rurais de Santa Cruz do Xingu (MT), e previa a restauração de 180,70 hectares. O terceiro projeto, no qual o ISA entrou como parceiro, ficou sob inteira responsabilidade da AXS, envolvendo a restauração de 220 hectares.
“A certificação do processo era condicionante para que o projeto acontecesse”, explica o secretário-executivo do ISA, Rodrigo Junqueira. “Tem a ver com a entrega dos créditos de carbono, mas não só, porque deve levar em conta também relações justas e igualitárias com a comunidade, além de geração de renda e os aspectos relacionados com a biodiversidade”.
O projeto em questão já foi certificado em 2016 pela Rainforest Alliance pelo padrão CCB (Clima, Comunidades e Biodiversidade).
Muvuca
O plantio de florestas nativas se dá por meio da muvuca de sementes. O método de plantio é a semeadura direta, em que as sementes de uma gama variada de espécies nativas são lançadas diretamente na terra. Essas sementes são adquiridas da Rede de Sementes do Xingu, a maior rede de sementes nativas do Brasil, que trabalha com a coleta e venda de sementes nativas da Amazônia e do Cerrado.(veja aqui).
Conheça a técnica da muvuca:
Para a muvuca, o cálculo de quantas sementes de cada espécie serão plantadas envolve uma conta complexa: cada espécie tem uma porcentagem de germinação e de sobrevivência a partir do número de sementes plantadas. É essa matemática que vai definir o número de sementes necessárias para plantar determinada área.
No projeto da Natura já foram plantadas mais de 13 toneladas de sementes nativas e de adubações verdes.
Cada espécie tem uma função no plantio: o feijão de porco, o feijão guandu, a crotalária, o fedegoso e a abóbora, por exemplo, são as primeiras a nascer, matando o capim e fixando o nitrogênio no solo, processo necessário para fertilizar a terra. Depois vêm as pioneiras: lobeira, mamoninha, carvoeiro, caju, entre outras e só então as árvores maiores como o jatobá e a copaíba, por exemplo.
Hoje, 10 anos após o plantio, já é possível ver uma floresta com diferentes estratos, onde antigamente era uma área degradada.
“A gente captura carbono porque a gente planta árvores, e não o contrário. Capturar carbono de qualquer maneira, com eucaliptus e pinus, é possível. Mas a gente promove a restauração gerando renda para as famílias que compõem a Rede de Sementes do Xingu e plantando biodiversidade, já que são 80 espécies plantadas e estabelecidas”, afirma Junqueira.
“Existe um conjunto de benefícios relacionados ao clima, à floresta e às pessoas envolvidas nessa operação”, conclui.
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