"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
COP30: povos e comunidades tradicionais exigem voz nas decisões sobre o Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará
FEPIPA, Malungu e CNS apontam desafios e oportunidades diante da construção do Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará para garantia de direitos de povos indígenas, quilombolas e populações extrativistas
A Federação dos Povos Indígenas do Pará (FEPIPA), a Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará - MALUNGU e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) apresentaram suas perspectivas sobre os possíveis resultados, aprendizados e próximos passos do Sistema Jurisdicional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd+) Jurisdicional em elaboração no estado do Pará e que visa regular o mercado de crédito de carbono.
Durante o debate, realizado pelo Instituto Socioambiental e a Fundação Rainforest da Noruega, na Zona Azul da COP30, as lideranças ressaltaram a importância da consulta livre, prévia e informada aos povos que terão seus territórios afetados pela iniciativa.
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Da esquerda para a direita: Juliana Maia (ISA), José Brilhante (CNS), Concita Sompré (FEPIPA) e Aurelio Borges (Malungu)|Thalyta Martins/ISA
Para Concita Sompré, co-fundadora da (FEPIPA) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), o processo é uma novidade para muita gente. REDD+ é a sigla para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, Manejo Sustentável de Florestas e Conservação e Aumento dos Estoques de Carbono Florestal, e é desde a informação mais básica até os detalhes mais complexos em projetos desse tipo que precisam circular em todas as instâncias. Consultar as comunidades, explicar os processos e ouví-las sobre os impactos para o território é indispensável para o sucesso do programa.
"Desafios nós sempre vamos ter, mas cada parente, cada etnia tem pensamento diferente. Parecemos todos iguais, mas cada cultura tem sua forma de entender o processo e isso tem que ser respeitado", explicou Concita, defendendo a importância de considerar o contexto social onde estão inseridas as comunidades.
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Mesa, que aconteceu no pavilhão do ISA com a Rainforest, teve tradução simultânea|Thalyta Martins/ISA
Juliana Maia, analista de políticas climáticas do ISA, aponta que a participação dos povos indígenas, quilombolas e extrativistas nos processos de tomada de decisões é fundamental para que se alcancem os resultados esperados.
“Se o Estado do Pará está se propondo a realizar um processo de escuta a povos indígenas, comunidades quilombolas e extrativistas é muito em razão do pleito das lideranças que estão aqui”, ressaltou.
Segundo Maia, há algum tempo não havia sinalização neste sentido, em que pese a Convenção nº 169 da OIT estabeleça a obrigação de o estado realizar a Consulta Prévia, Livre e Informada. A mobilização dos povos e da sociedade civil é central neste cenário, considerando os desafios e a necessidade de informar e assegurar transparência em relação às implicações e pontos de atenção do SJREDD+.
Participaram da mesa também José Ivanildo Gama Brilhante, tesoureiro do CNS, e Aurelio Borges, coordenador da Malungu.
José Brilhante ressaltou que o modo de vida dos povos e comunidades tradicionais valoriza a natureza e garante a vida das pessoas dentro e fora do território. Portanto, uma política que reconheça quem protege e não quem desmata é muito bem vinda.
Aurelio Borges falou sobre a importância da proximidade entre todas as partes interessadas. Ele trouxe também o desafio, como liderança, de dialogar com a população, visto que, para dele, este é um projeto que tem potencial para dar certo, se bem feito.
“O REDD+ em si é muito complexo e a gente não sabe muito bem como funciona esse mercado primário e jurisdicional. Por isso, precisamos estar dentro do processo entendendo e levando questões que, para nós, são pertinentes”, ressaltou Aurélio.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Livro ‘Florescendo nas Brechas’ tem lançamento no espaço Floresta do Centro, em São Paulo
Nova publicação do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade reforça protagonismo de povos e comunidades na preservação de rios e florestas; evento é dia 27/11, às 19h
No dia 27 de novembro, às 19h, o espaço Floresta no Centro, em São Paulo, recebe o lançamento do livro “Florescendo nas brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade”, nova publicação do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio).
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Capa do livro Florescendo nas brechas|Divulgação
A obra apresenta em 11 capítulos um panorama das economias da sociobiodiversidade em diferentes regiões do país e reforça o protagonismo de povos e comunidades tradicionais como resposta à crise ambiental.
O livro destaca a importância de olhar para os saberes e práticas que garantem a preservação de rios, florestas e do planeta, mostrando como essas comunidades mantêm viva a floresta e constroem alternativas econômicas sustentáveis. Entre os exemplos estão alimentação escolar, manejo do babaçu no Maranhão e Pirarucu na Amazônia e questões técnicas no acesso a crédito.
O evento de lançamento convida o público a conhecer de perto essas experiências, com a presença de Angelise Pimenta (consultora do ISA), Marcelo Martins (ISA), Karin Juruna (Professor da Escola Kamadu), Areaki Juruna (Artesã), Luisa Tui (ISA), Lara Ramos (World-Transforming Technologies (WTT)), Henrique Roncada (WRI Brasil) e Márcio Menezes (Catrapoa). A mediação fica por conta de Rafael Barbieri (WRI Brasil).
Quem participar poderá se aproximar dos conhecimentos que nascem nos territórios tradicionais e entender como as economias da sociobiodiversidade florescem “nas brechas” do modelo dominante, apontando outros futuros possíveis.
Lançamento do livro “Florescendo nas brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade”
Local: Espaço Floresta no Centro – Loja 28, 2º andar da Galeria Metrópole, Av São Luis 187, São Paulo (SP).
Horário: a partir das 19h
Entrada gratuita, sujeito a lotação
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Iniciativa quilombola, Casa de Sementes Jucão recebe prêmio internacional de arquitetura
Edificação no Quilombo Nhunguara (SP) foi escolhida por combinar beleza e função ecológica, atender às necessidades locais e dar poder às pessoas de transformar realidades
Construída em estrutura de taipa de pilão, construção da Casa de Sementes Jucão valoriza conhecimento tradicional quilombola|Alain Briatte Mantchev
A premiação, além de reconhecer o valor social e ecológico da construção de 42m2 localizada no Quilombo Nhunguara, em Iporanga (SP), valoriza o conhecimento tradicional dos antepassados dos coletores e abre caminhos para novos projetos.
De acordo com a comissão avaliadora do Ammodo Architecture Award 2025, a escolha da Casa de Sementes do Jucão se deu pela forma inovadora que o projeto combina beleza e função ecológica, ao mesmo tempo em que atende às necessidades locais com potencial de transformação e amplia o poder de transformação social, transformando-se, portanto, em algo extraordinário.
Conheça a Casa de Sementes Jucão!
O espaço é seguro e saudável para sementes, e contribui para a manutenção e regeneração da floresta brasileira no futuro. O reconhecimento exalta um exemplo de como uma estrutura pode ser ao mesmo tempo bela, simples e ainda com potencial de ajudar a resolver um problema global.
Estruturada em taipa de pilão com cascalho do Rio Ribeira de Iguape, podendo armazenar toneladas de sementes coletadas da Mata Atlântica, a casa de sementes foi inaugurada em 15 de dezembro de 2021.
O espaço foi batizado como Casa de Sementes Jucão em homenagem a José Rodrigues de Almeida, liderança do Quilombo Nhunguara, um batalhador pelas roças tradicionais e sempre à frente na luta pelo reconhecimento do seu território, falecido em novembro de 2021.
Giovanna Bernardes, do Instituto Socioambiental (ISA) e responsável técnica da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, conta que o prêmio, de 10 mil euros, será revertido para melhorias na construção.
“Essas melhorias fortalecerão o papel da Casa de Sementes, potencializando seu efeito multiplicador em diversas atividades. A Casa de Sementes tornou-se um espaço acolhedor e um elo vital nos esforços contínuos da rede para restauração ecológica e engajamento comunitário”, informa.
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira é um projeto apoiado pelo ISA e faz parte do Redário, mobilizando cerca de 60 coletoras e coletores dos quilombos André Lopes, Maria Rosa, Nhunguara, São Pedro e Bombas.
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Maria Tereza Vieira, é quilombola, agricultora, viveirista e coletora de sementes, uma das fundadoras da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira|Cláudio Tavares/ISA
De acordo com Maria Teresa Vieira, secretária da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, a beleza e funcionalidade da Casa de Sementes faz a diferença na região, além de atrair visitantes há algum tempo.
“Esse prêmio vai nos ajudar, principalmente para nossa casa da semente, que é um local onde a gente está começando a receber o turismo também, para o pessoal que está vindo para visitar. Então, a gente tem que ter alguns reparos”, explicou. “O mais importante de tudo é ser reconhecido, sabendo que tem gente lá fora, tem pessoas que pensa positivo a nosso respeito, seja brasileiro ou estrangeiro, mas que também luta pela mesma causa de ver um planeta mais saudável, um planeta com mais verde. Por esse motivo eu agradeço esse prêmio em nome da rede toda e de todos coletores”, conclui.
Conhecimento tradicional
Alain Briatte Mantchev, arquiteto responsável pelo projeto, acredita que a aplicação da técnica tradicional dos quilombos foi o que proporcionou o resultado premiado.
“Ela já é própria dos quilombos, né? Todos os fogões de taipa que a gente vê tradicionalmente, é a mesma técnica das paredes ali. Então, na verdade, a gente se inspirou nessa técnica quilombola para construir a casa de sementes. E aí acho que cabe uma frase muito significativa para o projeto: guardar as sementes na terra para na terra a gente semear. E acho que tudo isso faz muito sentido”, afirma
Mantchev explica que o Prêmio Ammodo de Arquitetura celebra a arquitetura ecológica e social, a partir da seleção de projetos escolhidos por especialistas de vários continentes. O projeto Casa de Sementes do Jucão foi indicado pela arquiteta chilena, Amanda Riviera.
O evento de premiação aconteceu em cerimônia virtual em 13 de novembro de 2025.
O prêmio
A Ammodo Architecture promove e apoia a arquitetura social e ecologicamente responsável em todo o mundo. O Prêmio Ammodo de Arquitetura para escala local incentiva projetos com orientação social e ecológica. Na edição 2025, 26 projetos foram selecionados - 12 na categoria escala local, 12 na categoria engajamento social e dois na categoria arquitetura social.
A Ammodo é uma fundação holandesa que estimula o desenvolvimento da arte, da ciência e da arquitetura.
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Sistemas Agrícolas Tradicionais reforçam urgência de pacto transnacional pela Amazônia de pé
Saberes e práticas ancestrais sustentam a biodiversidade, garantem soberania alimentar e conectam territórios e povos além dos limites dos países amazônicos
Jose Ignacio G. Gomes Corte
- Analista em desenvolvimento e pesquisa socioambiental do ISA
Os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) são conjuntos organizados de saberes e práticas ancestrais que orientam o manejo das paisagens e o uso dos recursos naturais por diferentes povos em seus territórios. Baseados em profundos conhecimentos ecológicos e botânicos, esses sistemas garantem a reprodução social e cultural dos grupos e sustentam as paisagens de diversidade que caracterizam a Amazônia.
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Simoni Yanomami, da comunidade Kori Yauopë, descasca cana-de-açúcar da roça|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Os SATs constituem verdadeiras estratégias de gestão territorial, sustentadas por amplas redes de trocas e interdependências entre humanos e não humanos. Neles, as cosmologias indígenas são centrais: moldam as relações com os territórios e orientam o uso e a domesticação dos recursos. Mandioca, cacau, pupunha, amendoim e inúmeras variedades de pimentas são frutos desses sistemas, que asseguram soberania e segurança alimentar, além de reforçar a reprodução da biodiversidade.
Para a preservação e manutenção dos SATs, é preciso garantir o direito ao território e o reconhecimento das formas de vida dos povos tradicionais. A vitalidade dos SAT é central para a conectividade sociocultural e ecossistêmica do bioma amazônico. Os SAT são uma das peças que articula essa conectividade, a partir de uma ampla rede de interconexões e relações de interdependência entre humanos, não humanos, plantas, animais e recursos naturais.
Dessa forma, a continuidade das contribuições prestadas pela Amazônia às condições de possibilidade da vida na Terra depende da conectividade sociocultural e ecossistêmica que está pautada pela vitalidade dos SAT nos diferentes territórios e contextos.
Entretanto, o avanço de atividades predatórias tem comprometido essa integridade. Pesquisas indicam que a Amazônia se aproxima de um ponto de não retorno, com fragmentação crescente e a formação de “ilhas” de ecossistemas, o que gera perda de conectividade ecológica e social.
Os desafios contemporâneos vêm mostrando a necessidade de uma articulação transfronteiriça que dê conta de ações de proteção ambiental e de modos de vida que garantam o equilíbrio e a preservação da conectividade sociocultural e ecossistêmica. Muitos dos povos que habitam a Amazônia precedem à formação dos estados-nacionais latino-americanos, sendo que as fronteiras entre países não levam em consideração os modos de habitar e usar o território desses povos. Sem uma perspectiva regional que permita observar essas situações que vão além dos limites geográficos entre países, não há possibilidade de garantir a conectividade da Amazônia.
É nesse contexto que a COP30, realizada em Belém, ganha força como um espaço estratégico para evidenciar que a proteção dos SATs – e, com eles, da conectividade amazônica – exige pactos transnacionais e compromissos políticos alinhados à realidade dos povos que constroem e mantêm esses sistemas há milênios.
A Aliança Norte Amazônica (ANA), iniciativa sul-americana de organizações socioambientais da qual o Instituto Socioambiental (ISA) faz parte, surge como uma estratégia fundamental para produzir evidências e promover ações com visão regional e transnacional. A partir da experiência local e territorial junto dos povos indígenas e tradicionais com os quais cada organização trabalha, o esforço é criar entendimentos conjuntos e estruturar ações com uma visão regional e transnacional, atuando num contexto que é regional e transnacional, nas suas relações e interconexões.
Desde o início do ano, ANA vem desenvolvendo uma perspectiva regional sobre os Sistemas Alimentares Indígenas Amazônicos (SAIA), buscando diagnosticar e qualificar sua situação em relação aos direitos territoriais, instrumentos de autodeterminação, políticas de fomento e transformações recentes. O objetivo é reconhecer as contribuições desses sistemas para a resiliência e adaptação às mudanças climáticas, além de reforçar os direitos originários dos povos que os mantêm.
Num cenário global marcado pelo negacionismo climático e por soluções centradas em interesses econômicos, instituições como a FAO desempenham papel crucial ao promover acordos e estratégias baseadas em conhecimento e justiça socioambiental. A participação da ANA na terceira edição do Centro Global sobre Sistemas Alimentares dos Povos Indígenas da FAO, em outubro, levou uma visão amazônica construída a partir de experiências locais e nacionais, reforçando a importância dos SATs para a proteção da floresta e dos povos que a habitam.
A hora demanda acordos e estratégias transnacionais que reconheçam as contribuições e os direitos dos povos indígenas e tradicionais diante do avanço da crise ambiental e climática. Proteger e valorizar seus sistemas alimentares é afirmar a importância dos múltiplos repertórios e modos de vida que sustentam a própria humanidade. A conectividade amazônica é o alicerce dessa visão e os Sistemas Agrícolas Tradicionais, um de seus elos vitais, guardados e praticados há milênios pelos povos que mantêm a floresta de pé.
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Seminário internacional debate como as normas sanitárias afetam a alimentação
Pesquisadores, indígenas, quilombolas e produtores se encontram no Rio e em Brasília para discutir modelos industriais e tradicionais
Você já parou para pensar sobre como as normas sanitárias afetam o que você come? E de que forma os modelos de produção em massa, como o agronegócio, estão ligados à produção de doenças, enquanto os sistemas alimentares tradicionais — promovidos pelos indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares — apontam caminhos para uma vida mais saudável?
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Chibé de açaí, chibé de buriti e chibé de água e farinha na comunidade Canadá, próxima ao rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro (AM)|Carol Quintanilha/ISA
Em seguida, nos dias 28 e 29, esses temas serão debatidos também em Brasília, durante o pré-Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrascão.
Os eventos têm o apoio do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e são uma oportunidade única para o público entender as tensões entre a alimentação industrializada e os saberes de quem vive da terra e em territórios tradicionais.
“Estamos reunindo pesquisas e promovendo uma troca de informações e diálogo para refutar a percepção de que a fonte de contaminação vem do modelo tradicional. Há evidências que mostram que as maiores contaminações são, na verdade, fruto do sistema alimentar convencional”, diz a engenheira de alimentos do Instituto Socioambiental (ISA), Bianca Tozato, representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
No Rio de Janeiro e em Brasília, um dos destaques da programação é a reunião de saberes múltiplos, com a presença de cientistas internacionais, nacionais, indígenas, quilombolas e produtores.
A abertura do seminário, na quarta-feira, terá o encontro do biólogo evolucionista Rob Wallace (EUA) com o pesquisador indígena André Baniwa, consultor na área de Medicinas Indígenas do Ministério da Saúde, e com a antropóloga Ana Paula Perrota, professora da UFRRJ.
Na mesa seguinte, o produtor de queijo Canastra Luciano Carvalho vai debater com a pesquisadora Élise Demeulenaere, que tem como foco a antropologia do meio ambiente, e com a pesquisadora Rosângela (Bibi) Cintrão, pós-doutoranda no Instituto de Nutrição da UERJ e pesquisadora o Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (CERESAN).
Na quinta-feira, Fran Paula, da Coordenação Nacional Comunidades Rurais Quilombolas-CONAQ e da Aliança Cientifica Antirracista, pesquisadora em racismo e sistemas alimentares, estará em conversa com Kregg Hetherington (Canadá), com pesquisasobre a expansão da soja e seus impactos.
Em seguida, a engenheira de alimentos Bianca Tozato, do Instituto Socioambiental (ISA), conversa com Will LaFleur (Finlândia), que tem pesquisas em práticas de fermentação e etnografia sensorial.
Contato para a imprensa:
Sabrina Brito/ÓSocioBio - (61) 98439 2831
Ana Amélia Hamdan/ISA - (31) 99806 2958
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Lançado na COP30, livro coloca territórios periféricos no centro do debate do racismo ambiental no Brasil
‘Periferias no Combate ao Racismo Ambiental: Tecnologias de Sobrevivência e Luta pelo Bem Viver’ é uma realização do PerifaConnection, do bairro Jurunas, periferia de Belém (PA)
Sou uma mulher negra, nascida no interior de Rondônia e criada nas periferias de Porto Velho (RO). Foram muitos os endereços até minha família se estabelecer numa casa própria, construída em um terreno de “invasão”. Começo este texto em primeira pessoa, marcando meu território, assim como fazem os autores do livro Periferias no Combate ao Racismo Ambiental: Tecnologias de Sobrevivência e Luta pelo Bem Viver, que compartilham histórias capazes de criar conexões entre realidades tão distantes geograficamente, mas tão próximas em seus modos de vida e nos desmontes que as atravessam.
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Alguns dos autores e organizadores do livro durante evento de lançamento em Belém|PerifaConection
“Periferias no Combate ao Racismo Ambiental: Tecnologias de Sobrevivência e Luta pelo Bem Viver” é uma obra de distribuição gratuita. Para mais informações, entre em contato pelos canais do PerifaConection na internet clicando aqui.
“O racismo ambiental é um conceito territorial, de quem está vivendo a terra com marcadores sociais e de territorialidade”, diz trecho do texto que abre a obra. Lançado pelo PerifaConnection no dia 16 de novembro, no bairro Jurunas, periferia de Belém (PA), em meio à COP30, o livro reúne textos de jovens negros, periféricos e de territórios tradicionais que discutem o tema a partir da perspectiva de quem sente esse fenômeno na pele muito antes de ele se tornar conceito.
São relatos que revelam estratégias de adaptação, soluções construídas ao longo de gerações e gerações para garantir a sobrevivência de quem vive distante dos centros e dos privilégios do acesso a direitos básicos, como água potável, saneamento e até o simples banho de rio em águas não contaminadas ou acesso a um parque arborizado no bairro em que vivem.
Entre os autores, está Zica Pires, do território quilombola Santa Rosa dos Pretos, no Maranhão. Para ela, integrar a publicação ao lado de “outros irmãos, com outras belezas possíveis e viventes” é importante e também muito necessário, sobretudo porque pouco se sabe ainda sobre a realidade e perspectiva de afro-originários e quilombolas no Brasil.
Ela reforça que esses povos mantêm saberes antigos, construídos a partir da relação profunda com a natureza. “Nós não somos os atrasados. Pelo contrário: nos envolvemos tanto com a natureza que sabemos o princípio da vida”, afirma.
Participar da obra é também reafirmar um modo de existir que antecede e ultrapassa o pensamento ocidental de que outros modos de vida que fogem ao capitalismo exploratório são possíveis.
“Nós, pretos, existimos num lugar de entendimento de mundo comum, mas não é um mundo narrado a partir da utopia caucasiana que eles dizem ser uma utopia inalcançável. É mentira, porque esse mundo é real e nós o fazemos desde tantos séculos e lá ainda habitamos. Então, eu penso que, antes de qualquer coisa, é também fazer com que os outros vejam em si e em nós, os que lá na mata estão, que nós sabemos como é o futuro”.
Periferias no centro do debate
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Oficina de arte para crianças foi seguida de exposição, organizada pelo CicloFavela|Vanessa Fernandes/ISA
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Na COP das Baixadas, pinturas que nos fazem renovar a esperança no futuro|Vanessa Fernandes/ISA
O evento ocorreu paralelamente aos dois lados da Rua Quintino Bocaiúva, dividida por um canal-que-ja-foi-um-rio, e integra a “Yellow Zone”, espaços descentralizados criados pela COP das Baixadas para descentralizar o debate climático e promover atividades culturais e debates sobre as soluções e impactos vividos pelas periferias junto às comunidades periféricas de Belém.
De um lado, o espaço multicultural Gueto Hub, onde ocorria a recepção com tacacá e vatapá quentinhos, e uma oficina de arte para crianças logo na entrada, organizada pelo CicloFavela, mostra itinerante de artes integradas.
Do outro lado, uma tenda com palco, microfone e cadeiras, margeados por mesas com doces e comidas sendo vendidas por moradores. A travessia entre os dois espaços logo foi facilitada pela conclusão de uma ponte feita pelos moradores ali na hora. Mais do que um lançamento, foi um encontro construído com a comunidade, marcado pela confluência de coletivos locais e de diferentes regiões do país, assim como é o livro.
Vindo de onde eu vim, não havia como não me conectar com aquele espaço – tão parecido com os que me constituíram – nem com as histórias compartilhadas no palco do evento e nos capítulos da obra.
As ideias e os conhecimentos produzidos pelas juventudes periféricas, urbanas e rurais, formam uma potência que não pode ser ignorada pelas decisões tomadas a portas fechadas em salas climatizadas. No livro, estão reunidos pensamentos de 18 autores de 11 territórios diferentes.
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Na batalha de MCs, realizada durante a festa de lançamento, teve espaço para várias gerações|Vanessa Fernandes/ISA
Essa potência se expressa na fala de Zica Pires, que vê no livro e na confluência dos territórios um gesto de afirmação coletiva diante de estruturas de exclusão. “Nós temos reforçado a nossa trincheira. Quando nós, quilombolas, indígenas e afro-originários, entendemos que é uma trincheira de vida contra uma ideologia de morte, entendemos o nosso lugar comum. Nós defendemos a vida”, afirma.
Oralidade como essência
A ideia da publicação, explica Thuane Nascimento, diretora-executiva do PerifaConnection e organizadora da publicação, ao lado da jovem ativista Karina Penha,co-fundadora do Amazônia de Pé, nasceu da percepção de que, embora a juventude periférica estivesse cada vez mais presente em mesas de debate, convidada para falar, gravar entrevistas e produzir conteúdo na internet, ainda não era reconhecida como produtora de conhecimento, apenas como quem repassa informações.
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Thuane e Karina Penha, organizadoras do livro, durante abertura do evento de lançamento|Vanessa Fernandes/ISA
Thuane destaca que há uma diferença profunda entre informação e conhecimento. “A gente está nas periferias e também consegue compartilhar os saberes ancestrais que aprendemos com nossos mais velhos e mais velhas”, conta.
Um dos maiores desafios do processo foi encontrar tempo para parar e escrever. “A juventude está no corre. A gente tem muito o que falar, mas no dia a dia é difícil sentar e registrar tudo”, diz.
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Livro "Periferias no Combate ao Racismo Ambiental: Tecnologias de Sobrevivência e Luta pelo Bem Viver" no lançamento|PerifaConection
Mesmo quando jovens periféricos conseguem acessar espaços acadêmicos, acrescenta, ainda enfrentam processos de deslegitimação do conhecimento que produzem. Por isso, a equipe buscou um formato que respeitasse a oralidade, lugar onde, segundo ela, “a gente se garante”.
A solução surgiu na proposta da Editora Periferias: realizar entrevistas, transcrevê-las e transformá-las em textos corridos sobre os quais os autores pudessem trabalhar. “Encontrar alguém que garantisse essa estrutura escrita foi extremamente importante para que o livro existisse e pudesse ser entregue aqui na COP30”.
Thuane lembra que o método também foi inspirado em experiências anteriores, como o livro Mestres das Periferias, da própria Editora Periferias, que reúne nomes como Conceição Evaristo, Nêgo Bispo e Ailton Krenak. Essa referência, ela explica, somada ao aprendizado com pessoas mais velhas e ao apoio do Instituto Ibirapitanga, fortaleceu o processo editorial.
A diretora-executiva do PerifaConnection destaca que o livro chega ao público justamente no formato que a academia e a branquitude costumam exigir (estruturado, escrito e referenciado) mas sem abrir mão da essência periférica que o originou.
“Agora está disponível para quem quiser, acessível e democrático, para que todo mundo tenha acesso aos nossos conhecimentos, a fim de construir outro mundo no enfrentamento à crise climática”, afirma.
Lançar a obra durante a COP30 também tem um sentido político. Thuane vê no movimento da COP das Baixadas e na proposta das Yellow Zones um esforço de aproximar debates globais da população periférica, circulando conhecimento e cultura em territórios historicamente excluídos.
“É histórico trazer essa proposta e construir espaços para que as pessoas participem cada vez mais de momentos cívicos que considerem nossa cidadania, e para que a COP não seja um evento de exclusão”. Ao lado da Cúpula dos Povos, afirma Thuane, esse movimento tem sido muito bem-sucedido em democratizar a participação e afirmar o lugar das periferias no debate climático.
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Comunicadores indígenas da Rede Wayuri iniciam cobertura da COP30 em Belém
Durante a conferência, a equipe atuará em grupos de revezamento: uma redação base permanecerá em Manaus e São Gabriel da Cachoeira, sede da Rede Wayuri e da Rádio Online Wayuri
Os comunicadores indígenas da Rede Wayuri já estão em Belém (PA) para dar início à cobertura da COP30, que começa nesta segunda-feira (10). Vindos de diferentes regiões do Rio Negro, eles se preparam para acompanhar de perto os debates sobre justiça climática, financiamento climático, territórios indígenas e soluções baseadas na natureza que estarão em pauta durante a conferência.
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Grupo de comunicadores e AIMAs participaram de oficina preparatória de cobertura climática durante quatro dias em Manaus|Alexandre Produtor Audiovisual
A ação foi dividida em duas etapas complementares: a primeira, de formação e planejamento, foi realizada em Manaus, entre os dias 5 e 8 de novembro; e a segunda, em andamento, é a prática de cobertura climática durante a própria COP30.
O encontro prévio reuniu quatro comunicadores indígenas do Rio Negro, uma comunicadora da Rede de Comunicadores Xingu+ e três Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), em uma imersão sobre os objetivos das Conferências do Clima, os principais temas da política climática global e a agenda do movimento indígena no evento.
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Grupo também elaborou um mapeamento prévio das agendas oficiais e paralelas da COP30|Vanessa Fernandes/ISA
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A agenda incluiu um treinamento de mídia como parte da preparação para a cobertura. Na imagem, Oscarina da Silva e Yaa Yudjá|Alexandre Produtor Audiovisual
Durante a oficina, os participantes também refletiram sobre o que é notícia na perspectiva da comunicação comunitária, valorizando narrativas que partem das realidades e prioridades de cada território.
A programação incluiu ainda um treinamento de mídia, voltado tanto para comunicadores quanto para os AIMAs, com práticas de técnicas de entrevista, expressão diante das câmeras e estratégias de comunicação sobre o trabalho de pesquisa, manejo ambiental e comunicação. O objetivo foi fortalecer a segurança e a clareza dos participantes ao falar com a imprensa, durante a produção de conteúdo para as redes sociais e também nas transmissões ao vivo.
Como parte da preparação, o grupo também elaborou um mapeamento prévio das agendas oficiais e paralelas da COP30, que ocorrerão em diferentes espaços da cidade – como a Zona Azul, a Zona Verde, a Cúpula dos Povos, o Museu Goeldi e a Aldeia COP. Esse planejamento servirá de base para a cobertura coletiva.
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Práticas de técnicas de entrevista e expressão diante das câmeras fizeram parte da dinâmica|Alexandre Produtor Audiovisual
Durante a conferência, a equipe atuará em grupos de revezamento: uma redação base permanecerá em Manaus e São Gabriel da Cachoeira, sede da Rede Wayuri e da Rádio Online Wayuri, enquanto os repórteres correspondentes em Belém farão o envio de informações, imagens e relatos diretamente dos espaços da COP.
Para José Paulo Sampaio Castro, do povo Piratapuia e comunicador da Rede Wayuri, participar da cobertura é uma oportunidade de dar visibilidade às vozes indígenas da Amazônia:
“Minha expectativa para essa COP30 é grande, porque é um momento decisivo e, principalmente, um momento em que a conferência está sendo realizada aqui no Brasil, em Belém do Pará. Neste ano, viemos com uma delegação grande para representar e também ser ouvidos, para que os nossos governantes e grandes líderes possam tomar decisões em prol de todos os povos. Estamos aqui para levar essa comunicação até o território e garantir que todos também tenham a vez de participar”.
A cobertura será realizada também em parceria com a Rádio Nacional dos Povos, que fará entradas ao vivo diárias, tanto de Belém quanto dos territórios indígenas do Rio Negro. A coordenadora da iniciativa, Letícia Leite, destaca o papel da colaboração entre diferentes coletivos de comunicação:
“Durante a cobertura, fortalecemos as parcerias entre coletivos de comunicação indígena e quilombola que atuam em diferentes regiões do país, conectando vozes em tempo real. A transmissão ao vivo a partir do estúdio reúne comunicadores que ocupam os principais espaços do evento. Essa articulação entre coletivos consolida uma rede colaborativa que valoriza a autonomia das produções locais, o intercâmbio de saberes e a construção conjunta de narrativas sobre o clima, os territórios e os direitos dos povos.”
Segundo Cláudia Ferraz, do povo Wanano e coordenadora da Rede Wayuri, essa articulação é essencial para aproximar quem está nos territórios das discussões globais sobre o clima. “É importante poder levar informações diretamente para os nossos parentes que ficam no território, para que possam também acompanhar este evento, que é muito importante para os povos indígenas”, completa.
Ao todo, participam dez comunicadores e AIMAs da cobertura colaborativa da COP em Belém:
Aldison Lobo (povo Mirititapuia); José Paulo de Castro (povo Piratapuia); Imaculada Moreira (povo Tukano); Joelson Felix (povo Galibi Marworno); Yaa Yudjá (povo Juruna/Yudjá); Ray Baniwa (povo Baniwa); Juliana Albuquerque (povo Baré); Genilton da Silva Apolinário (povo Baniwa); Oscarina da Silva Caldas (povo Desana); Roberval Sambrano Pedrosa (povo Tukano).
Equipe em Manaus e São Gabriel da Cachoeira: Gedilson Alexandre da Silva (povo Baniwa); Cláudia Ferraz (povo Wanano); Júlia Albuquerque (povo Piratapuia); Nayra Cardoso (povo Baniwa); Welison Costa (povo Baré).
A iniciativa integra o projeto MÍDIA-Brasil: Vozes Indígenas pela Justiça Climática, Sociedades Resilientes e uma Transformação Socioecológica com Justiça de Gênero, executado pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Rede Wayuri e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio financeiro do Instituto para Democracia e Mídia (Idem) e da Cooperação Alemã (BMZ).
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Povos indígenas e comunidades tradicionais apresentam soluções para o clima na COP 30
Evento paralelo na Zona Azul destaca experiências de adaptação climática desenvolvidas nos territórios
Tema crucial na 30ª Conferência do Clima em Belém (PA), a adaptação climática feita por povos indígenas e comunidades tradicionais será debatida na mesa “Soluções Territoriais para o Clima”, que acontecerá no dia 12 de novembro, às 15h, na Sala 9 da Zona Azul. O evento é uma iniciativa da Rede de Cooperação Amazônica (RCA), do Instituto Socioambiental (ISA) e da Operação Amazônia Nativa (OPAN).
O evento tem como objetivo conectar as soluções locais e resilientes com a discussão global, influenciando diretamente as negociações internacionais sobre o futuro da adaptação. “Em um contexto em que a adaptação emerge como tema central, é fundamental reconhecer e integrar os conhecimentos e as ações desses grupos, que estão mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas”, destaca Andreia Fanzeres, coordenadora do Programa de Direitos Indígenas da OPAN.
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Da esquerda para direita, Luene Karipuna, Katia Penha, Davi Kopenawa, Ewesh Yawalapiti Waurá e Cleide Terena|Arquivo pessoal
A mesa contará com lideranças indígenas e quilombolas de diferentes territórios e gerações. Davi Kopenawa, da Hutukara Associação Yanomami (AM e RR); Cleide Terena, da Associação Thutalinãnsu, das Mulheres Indígenas da Terra Indígena Tirecatinga (MT); Luene Karipuna, da Associação Mulheres Indígenas em Mutirão (AP); Katia Penha, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (ES); e Ewesh Yawalapiti Waurá, da Rede Xingu+ (MT).
Conectando soluções locais à agenda global
O encontro tem como foco apresentar não apenas as práticas indígenas e de comunidades tradicionais para a adaptação nos territórios, mas suas estratégias para o desenvolvimento dos instrumentos de gestão vinculados ao desafio climático, que já é uma realidade em suas vidas, como secas extremas, inundações e insegurança alimentar.
Ao mesmo tempo, a mesa pretende conectar as experiências com o debate internacional sobre o Objetivo Global de Adaptação (GGA), que será um dos eixos centrais de decisão da COP 30. A proposta é mostrar que as soluções desenvolvidas nas comunidades não apenas respondem aos impactos locais, mas também contribuem diretamente para metas globais de adaptação e resiliência.
“Esperamos qualificar o debate sobre adaptação climática, apoiar a caracterização do contexto de mudanças climáticas globais, a partir dos territórios amazônicos, conectar as diversas entidades engajadas no evento com as discussões e atores e atrizes globais e influenciar nas negociações da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês", ressalta Ciro Brito, analista de políticas climáticas do ISA.
A escuta é essencial para assegurar que o marco global de adaptação reflita as necessidades e as contribuições específicas dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Os territórios impactados pelas mudanças do clima são também um território de soluções. Os povos da floresta são protagonistas e formuladores de soluções para a crise climática global.
Serviço
Mesa "Soluções Territoriais para o Clima" na COP30 Data: 12/11 Horário: 15h Local: Blue Zone - Sala 9
Painelistas: Davi Kopenawa - Hutukara Associação Yanomami Cleide Terena - Associação Thutalinãnsu, das Mulheres Indígenas da Terra Indígena Tirecatinga Luene Karipuna - Associação Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM) Katia Penha - Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) Ewesh Yawalapiti Waurá - Rede Xingu+
No dia 25/10, a Praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo, próxima à sede do Instituto Socioambiental (ISA), recebeu a intervenção “muvuca de sementes”. Os participantes puderam vivenciar a técnica inspirada nos conhecimentos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que está ajudando a reduzir os impactos da crise climática.
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Intervenção no coração da capital paulista mostrou como a técnica está ajudando a reduzir impactos da crise climática|Paulo Plá/Redário/ISA
A atividade integrou o 5º Festival Mário de Andrade, que aconteceu entre os dias 24 e 26 de outubro, como parte das comemorações dos 100 anos de fundação da biblioteca.
O objetivo da intervenção foi mostrar a quem passou pela praça como acontece o processo de restauração que utiliza uma mistura de sementes nativas coletadas por redes de sementes de todo o país e que não utiliza outra irrigação a não ser a da chuva.
Ipê, urucum, jatobá, boleira, amendoim-bravo e tantas outras espécies foram vistas e sentidas por quem passou pela praça. As pessoas puderam também distribuí-las sobre a lona azul e misturá-las.
Fazer e ser a muvuca de sementes
Ao final, adultos e crianças levaram uma “poção de muvuca” para casa e vão poder observar como a mágica da sucessão ecológica acontece.
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A muvuca de sementes aconteceu em celebração ao centenário da Biblioteca Mário de Andrade|Claudio Tavares/ISA
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O processo de restauração utiliza uma mistura de sementes nativas coletadas por redes de sementes de todo o país|Claudio Tavares/ISA
Mas teve quem revelou ter outros planos para a “muvuca” que estava levando. A professora Selma Martins, da CEI Vereador Homero Domingues da Silva, por exemplo, disse que vai compartilhar com seus alunos,
“Achei muito interessante e quero fazer muvuca na escola. Assim, as crianças vão aprender desde cedo como a sementes é importante para a preservação dos ecossistemas, da flora, da fauna e da biodiversidade”, afirmou.
Para Rodrigo Massi, diretor da Biblioteca Mário de Andrade e secretário-adjunto de Cultura e Economia Criativa, a intervenção é uma prova da conexão entre arte e meio ambiente.
“Durante o V Festival Mário de Andrade, a Muvuca de Sementes mostrou na prática o que a Biblioteca acredita há cem anos: que aprender é um ato coletivo. A atividade reuniu saberes tradicionais e técnicas de restauração ambiental, mostrando como cultura e natureza podem se fortalecer juntas”, finalizou.
Muvuca Mistura de sementes de diversos ciclos de vida que são lançadas ao solo de uma só vez, de forma manual ou mecanizada, para desencadear o processo de sucessão ecológica.
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Redário é destaque em simpósio internacional sobre restauração ecológica
Iniciativa brasileira de redes comunitárias de sementes nativas esteve na SER2025, em Denver (EUA), e reforçou o protagonismo das comunidades na restauração ecológica
A experiência brasileira com redes comunitárias de sementes nativas ganhou destaque internacional durante a 11ª Conferência Mundial de Restauração Ecológica (SER2025), realizada entre 30 de setembro e 4 de outubro de 2025, em Denver, Estados Unidos. A analista Danielle Celentano, do Instituto Socioambiental (ISA), representou o Redário com a apresentação “The Redário Initiative: Community-Based Native Seeds for Restoration in Brazil (Iniciativa Redário: Sementes Nativas Comunitárias para a Restauração no Brasil)”.
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Danielle Celentano, analista sênior de Restauração Ecológica do Redário, apresentou a iniciativa em conferência internacional|Lia Domingues/ARSX
A palestra integrou o simpósio “Delivering seed-based restoration at scale – Global approaches to scaling the supply of high-quality native seed (Restauração em larga escala com base em sementes – Abordagens globais para ampliar o fornecimento de sementes nativas de alta qualidade)”, que reuniu especialistas de diversos países para discutir estratégias que ampliem o fornecimento de sementes nativas de alta qualidade para a restauração ecológica em larga escala. A apresentação teve ótima repercussão, com sala cheia e muitos participantes de outros países interessados em incentivar e replicar a iniciativa, que foi reconhecida como uma referência inspiradora.
O Redário reúne 27 redes comunitárias de coletores de sementes de quase todos os biomas brasileiros, fortalecendo a cadeia da restauração ecológica e valorizando o papel das comunidades locais. O trabalho apresentou os principais desafios do setor — como o desequilíbrio entre oferta e demanda e a falta de políticas públicas adequadas — e apontou soluções como mecanismos financeiros de apoio, incentivos fiscais, Pagamentos por Serviços Ambientais e contribuições filantrópicas.
Em 2024, o Redário comercializou 14 toneladas de sementes de 163 espécies, beneficiando 1.277 coletores, dos quais 64% são mulheres, e contribuindo para a restauração de cerca de 1.500 hectares em diferentes regiões do país. Consolidado como um modelo escalável, o Redário demonstra o potencial das comunidades locais para gerar impactos ambientais e sociais positivos e duradouros na cadeia da restauração ecológica. Como afirmam os autores do estudo. “Escalar a restauração exige reconhecer o valor das pessoas e dos territórios que guardam as sementes do futuro.”