Com direitos garantidos sobre seus territórios e com suas culturas valorizadas, povos indígenas e comunidades tradicionais buscam o reconhecimento do Estado, da sociedade e do mercado sobre a economia que praticam há séculos, em alguns casos milênios, baseada em técnicas produtivas ancestrais e no cuidado com as florestas.
Com essa economia da floresta - chamada também de Economia da Sociobiodiversidade, ou Economia do Cuidado - as comunidades priorizam a segurança alimentar, garantem o bem-viver e ainda produzem mais biodiversidade, o que beneficia todo o planeta. Contudo, o desenvolvimento a qualquer custo promovido pelo Estado prima por modelos econômicos altamente subsidiados, poluidores, predatórios e atividades ilegais que ameaçam, matam e destroem.
Em resposta a esse enorme e histórico desequilíbrio de forças, o ISA busca fortalecer o protagonismo das comunidades parceiras ao fomentar atividades produtivas, iniciativas de turismo de base comunitária e ações de restauração florestal nas bacias dos rios Negro, no Amazonas e Roraima, Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Ribeira do Iguape, em São Paulo.
Ao mesmo tempo, o ISA também busca sensibilizar o setor privado, os governos e o mercado consumidor para a necessidade de promoção de políticas públicas e relações comerciais justas e transparentes que valorizem as contribuições socioambientais dos povos e comunidades e respeitem seus modos de vida, territórios e culturas.
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Feira de produtos quilombolas volta para politizar paladares contra o racismo alimentar nas periferias de SP
Primeira edição de 2023 da Quilombo&Quebrada vai levar alimentos tradicionais dos quilombos do Vale do Ribeira (SP) a preços acessíveis em Cidade Tiradentes, zona leste da cidade
Osvaldo dos Santos, agricultor do Quilombo Porto Velho, entrega rapaduras e taiadas para Priscila Novaes, do Kitanda das Minas, em 2022|Roberto Almeida / ISA
O abismo entre a produção do alimento e a refeição no prato pode ser gigante, mas a solução está mais próxima do que se imagina: ela é ancestral e deve ser fortalecida enquanto política pública. Esse é o cerne da iniciativa Quilombo&Quebrada, que promove a articulação entre o movimento negro urbano e quilombola para criar pontes entre o alimento cultivado nos quilombos do Vale do Ribeira para soberania alimentar das periferias de São Paulo.
Na encruzilhada entre Quilombo&Quebrada, a insegurança alimentar não tem vez. Por isso, em 2023 o ciclo de feiras irá acontecer quinzenalmente entre Jardim Lapena, em São Miguel Paulista, e em Cidade Tiradentes, ambos na zona leste da cidade de São Paulo.
A primeira edição da feira de 2023 acontece sábado, dia 20/05 no Centro Cultural Arte em Construção, do coletivo Pombas Urbanas, em Cidade Tiradentes.
Em 2022 foram realizadas 10 feiras, que alcançaram aproximadamente 6 mil pessoas. Para Priscila Novaes, uma das idealizadores do Quilombo&Quebrada e é chef proprietária do Kitanda das Minas, o resultado da iniciativa colabora com o fomento de saúde e bem-viver da comunidade negra.
“Quando esses alimentos quilombolas orgânicos chegam pras periferias de São Paulo, promovem a saúde e bem-estar a partir do momento que aquelas famílias conseguem ter acesso a esse alimento sem veneno e realmente acessível.”
Priscila explica que os alimentos não são acessíveis para as periferias, ainda mais os orgânicos, por isso a importância dessa iniciativa.
“Hoje, os alimentos estão muito encarecidos e, por incrível que pareça, os comércios locais são aqueles que têm os altos preços. O Quilombo&Quebrada faz essa junção entre as famílias agricultoras quilombolas com a gente, - comunidade negra urbana - e nós nos sentimos privilegiadas por estar ali consumindo e comercializando aquele alimento cheio da sabedoria ancestral. E, sabemos: isso não deveria ser um privilégio mas um direito”, explica Priscila.
A iniciativa nasceu no período de enfrentamento à pandemia de COVID-19, pela necessidade de suprir a dependência de vendas fomentadas via políticas públicas fragilizadas no governo Bolsonaro, em que contratos foram rompidos, ocasionando falta de locais para escoar a produção quilombola do Vale do Ribeira.
Em confluência, as Mulheres de Orì, consultoria de inovação ligada ao empreendimento de impacto social Kitanda das Minas, estabeleceu uma parceria com a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), para comercializar os produtos alimentícios das comunidades quilombolas. A cooperativa recebe apoio técnico do Instituto Socioambiental (ISA) para organizar e escoar sua produção.
Desde 2018, o Sistema Agrícola Quilombola é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio imaterial brasileiro. A produção de alimento quilombola faz parte de um conjunto de saberes e técnicas que compõem esse sistema. Nesse sentido, além da comercialização contribuir para o fortalecimento da manutenção das florestas, das técnicas sustentáveis, agroecológicas responsáveis pelo manejo dos remanescentes da Mata Atlântica no Vale do Ribeira, também salvaguarda do patrimônio imaterial por meio da geração de renda.
Alimento para a resistência negra
A conexão que propõe o Quilombo&Quebrada contribui com o combate a desigualdades alimentares ligadas pelo racismo estrutural, que existem tanto nos quilombos quanto nas periferias urbanas. Mas o combate precisa ser efetivado também como política pública, como explica Adriana Rodrigues, assessora para sociobiodiversidade do ISA.
“A valorização das manifestações e saberes quilombolas é uma ação determinante para as identidades que constituem o país, além de prática importante para a preservação de manifestações ligadas aos povos e comunidades tradicionais”, enfatiza.
Serviço:
Feira Quilombo&Quebrada de 2023 acontecerá no 20/05 na Cidade Tiradentes (SP)
Local: Centro Cultural Arte em Construção (Pombas Urbanas)
Avenida dos Metalúrgicos 2100 - Cohab Cidade Tiradentes
Horário: 9h às 15h
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Rede de produtores indígenas expande laços e experiências com a economia da floresta no Rio Negro
Encontro em São Gabriel da Cachoeira (AM) com representantes de oito estados da Amazônia Brasileira fortaleceu negócios da sociobiodiversidade
Uma rede de produtores indígenas do Rio Negro (AM) vai, pouco a pouco, tornando-se visível e fortalecida.
Na abertura do I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, que aconteceu em São Gabriel da Cachoeira (AM) entre os dias 10 e 14 de outubro, indígenas reunidos em um círculo usaram um novelo para representar o momento. Enquanto o fio se desenrolava, cada um se apresentava e falava sobre sua produção, mostrando a diversidade de povos e produções da região.
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Dinâmica no início do encontro na Casa do Saber, em São Gabriel da Cachoeira (AM), formou uma rede entre os povos do Rio Negro e suas produções|Ana Amélia Hamdan/ISA
Durante a dinâmica, os trançados de tucum das mulheres Baré e Piratapuya foram se ligando à cestaria Yanomami, confeccionada com cipó e fungo përisi. A cerâmica Tukano se uniu à Baniwa, sem deixar de lado os produtos da roça e os utensílios ancestrais usados nessas atividades, como as peneiras e abanos. O trançado dos aturás (cestos) Hupda encontrou sementes e colares trazidos por outros povos.
No início do encontro, a rede envolveu boa parte dos 23 povos que vive na região do Rio Negro e no dia seguinte se expandiu, contando também com aproximadamente 20 produtores indígenas de oito estados da Amazônia Brasileira, por meio de Intercâmbio de Cadeias de Valor da Rede de Cooperação Amazônica (RCA), composta por 14 associações indígenas e indigenistas.
O I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro e o Intercâmbio de Cadeia de Valor da RCA foram promovidos na Maloca – Casa do Saber da Foirn pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e a própria RCA.
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Feira foi realizada durante o I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Diretor-presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, falou da riqueza da economia da floresta e do fortalecimento das cadeias de valor do Rio Negro, que geram renda preservando a floresta. Segundo ele, a estrutura do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da Foirn vem se fortalecendo mesmo diante das pressões políticas que propõem modelos não sustentáveis dentro de Terras Indígenas.
Uma das principais pautas do encontro de produtores foi a assinatura do termo de pactuação política e acordo de cogestão da Wariró – Casa dos Produtores Indígenas do Rio Negro, que fica em São Gabriel da Cachoeira e comercializa os produtos da região.
O documento é um instrumento de consolidação de gestão de negócios de excelência, participativa, transparente, envolvendo os povos representados, funcionários, diretores da Foirn e a assessoria do ISA.
Para garantir a legitimidade dos processos, representantes das cinco coordenadorias da Foirn - Nadzoeri, Diawii, Caibrm, Caiarnx e Coidi (ver abaixo o significado das siglas) participaram do encontro, analisaram e aprovaram o acordo de cogestão em assembleia.
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Encontro é importante para o fortalecimento de laços com as bases, diz Luciane Lima, da Foirn|Ana Amélia Hamdan/ISA
Para a coordenadora do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da Foirn, Luciane Lima, do povo Tariano, esse processo garante a transparência das decisões e aproxima os artesãos da Casa Wariró.
“O encontro de artesãos é muito importante para o fortalecimento dos laços com as bases. É importante ressaltar o papel das associações de base na economia da floresta”, disse.
Assessora em gestão de negócios indígenas do ISA, a economista Ana Letícia Pastore Trindade contou que a Wariró está em um processo de expansão, com geração de renda para os povos indígenas e sustentabilidade.
“Crescer é um desafio enorme, pois envolve respeito à floresta. A Wariró traz a proposta de comercializar com sustentabilidade financeira e ambiental. Não é possível aumentar a oferta com a degradação do equilíbrio ambiental. Então, a produção é ligada também às pesquisas interculturais, ao cuidado com a matéria-prima”, explicou.
Um dos indicadores desse crescimento é o aumento de 78% do número de artesãos que vendem produtos para a Wariró, passando de 60 no primeiro semestre de 2021 para 107 no mesmo período de 2022.
Entre 2021 e 2022, a Wariró fez compras no valor de quase R$ 260 mil. Os produtos mais vendidos foram a cestaria Yanomami, a cestaria de arumã do povo Baniwa, a cerâmica Tukano e a cerâmica Baniwa.
Os produtos indígenas são vendidos principalmente no Amazonas e também em São Paulo, Rio de Janeiro e no exterior.
Também foram apresentadas no encontro as experiências da Casa de Frutas, em Santa Isabel do Rio Negro, e de apoio ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). As ações, desenvolvidas em conjunto por Foirn e ISA, fortalecem a economia da floresta e, ao mesmo tempo, protegem o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), registrado como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O encontro contou com a participação do assessor técnico do Projeto Cadeias de Valor do ISA em São Gabriel da Cachoeira, João Gabriel Raphaelli. Iniciativas desenvolvidas pelo ISA em Roraima foram compartilhadas pela engenheira de produção Amanda Latosinski, que trabalha com os povos Yanomami, Ye’kwana e Wapichana, e pela assessora técnica Stephany Caroline Rodrigues, que assessora o povo Wai Wai.
Supervisor comercial do ISA em São Paulo, Sérgio Marques falou sobre a experiência da loja do ISA, inaugurada na Galeria Metrópole, e que vende produtos da sociobiodiversidade de territórios onde a organização atua. Segundo ele, mais da metade dos produtos comercializados no espaço vem do Rio Negro. “A loja é um difusor de parcerias dentro do ISA”, destacou.
Cultura
Coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA, Aloisio Cabalzar falou sobre a importância e a riqueza cultural da economia da floresta, inclusive como forma de proteger a cultura dos povos do Rio Negro.
O líder indígena André Baniwa também compartilhou seus saberes no encontro de produtores, analisando que os índices mostrados pela Casa Wariró indicam que o fortalecimento dos negócios anda junto com a cultura. “As peças mais originais, como a cestaria Yanomami ou os aturás do povo Hupda, estão atraindo maior interesse. São peças que contam uma história”, detalhou.
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Produtos que contam história estão atraindo maior interesse dos consumidores, analisa André Baniwa|Ana Amélia Hamdan/ISA
Uma dessas histórias é contada pela artesã Verônica Ramos Pena, do povo Hupda, que mora na comunidade de Vila Fátima, no Rio Uaupés, e confecciona o tradicional aturá de seu povo. “A gente pega o cipó lá no mato. É muito perigoso entrar no mato, enfrentar cobra, aranha. E, para apanhar o cipó, a gente tem que dormir na floresta por causa da distância. Depois, queima o cipó lá na floresta mesmo e queima a mão”, relatou. Em seguida, a matéria-prima é levada para a comunidade, onde vai ser entrelaçada para se transformar em cestaria.
Vice-presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), Lídia Santos da Silva conta que, para dar início ao trabalho de confecção da cestaria Yanomami, é preciso paciência. Primeiro, para procurar o cipó. E também para achar uma boa quantidade de përisi, fungo utilizado na cestaria.
“Algumas vezes levamos os homens para tirar o cipó grande, que é o ambé. Depois voltamos para a comunidade para fazer o artesanato”, contou.
Vivendo em Iauaretê, no Uaupés, Dona Jacinta Araújo Alves, povo Desana, e seu marido Benjamim Antônio Montalvo Cardoso, Piratapuya, ajudaram a criar o Clube dos Casais para produção de artesanato e repasse de saberes aos mais jovens.
Todo domingo, o grupo – formado por cerca de 20 casais – se reúne para trabalhar e compartilhar conhecimentos.
Os homens trabalham com o arumã, fazendo tipitis, cumatás, abanos, peneiras e urutus. As mulheres trabalham com o tucum, porta-jóias, colares, brinco, novelos e bolsas.
Intercâmbio
Além das experiências do Rio Negro, os participantes do encontro de produtores puderam conhecer iniciativas de outros Estados da Amazônia Brasileira por meio de intercâmbio sobre cadeias de valores promovido pela RCA.
“A experiência entre diferentes territórios e realidades promove cooperação, aprendizado e construção conjunta”, afirmou Luis Donisete Benzi Grupioni, secretário executivo da RCA.
“Estamos dando os primeiros passos conhecendo as ações do Rio Negro, que tem experiência em cadeias produtivas diversificadas, com erros, acertos e desafios”, disse.
Assessora técnica da Secretaria Executiva da RCA, Patrícia de Almeida Zuppi destacou a importância do encontro entre os povos indígenas. “O intercâmbio no território é muito potente, pois a experiência compartilhada sai da linha narrativa e vai para a mão na massa.”
Uma das experiências desenvolvidas no Rio Negro é o turismo de pesca esportiva de base comunitária desenvolvido no Rio Marié. Integrantes da Foirn e da RCA foram até a comunidade de Tapuruquara Mirim, que beneficia 14 comunidades indígenas.
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Povo Tuyuka fez apresentação de dança tradicional durante o encontro de produtores em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Ianukula Kaiabi Suiá, presidente da Associação Terra Indígena Xingu (Atix), em Mato Grosso, considerou a troca de experiências inspiradora. Ele ressaltou que os povos indígenas vêm passando por um momento de pressão política, o que pode dificultar a estruturação de cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
Vindo do Oiapoque, no Amapá, Diemisom Sfair dos Santos, do povo Karipuna, mostrou a experiência do Empório Uasei, que quer dizer “açaí”. A iniciativa foi construída com o apoio do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepe). “A venda de açaí pelos indígenas era desordenada, com muitos atravessadores. Agora compramos o açaí e revendemos in natura ou batido no Empório Uasei, garantindo uma relação mais justa com os indígenas”, explicou.
Diemisom dos Santos trouxe a experiência da comercialização do açaí e levou para Oiapoque o exemplo de gestão da Wariró. Assim, as trocas entre os povos dos Estados da Amazônia mostram que as redes para fortalecimento dos negócios da sociobiodiversidade vão se expandindo.
* Organizações da Foirn
Nadzoeri (Organização Baniwa e Koripako), Diawii (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié, Uaupés e Afluentes), Caibrm (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), Caiarnx (Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié); e Coidi (Coordenadoria das Associações Indígenas de Iauaretê).
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1º Encontro Nacional de Castanheiras e Castanheiros reúne extrativistas da Amazônia em Manaus
Comércio justo, políticas de apoio ao extrativismo, ameaças aos territórios e castanhais e atuação em rede estarão na pauta de debates do encontro
* Por Adriano Maneo, IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil)
Mais de 80 extrativistas de todos os estados produtores de castanha-da-amazônia estarão reunidos para o 1º Encontro Nacional de Castanheiras e Castanheiros. O evento, que acontece em Manaus de 23 a 25 de agosto, é promovido pelo Coletivo da Castanha e pelo Observatório Castanha-da-Amazônia (OCA) em parceria com uma série de organizações da sociedade civil, movimento social e organizações de base comunitária produtoras de castanha-da-amazônia.
Serão três dias de trocas de experiências, conversas, debates, oficinas, apresentações culturais e reuniões para alinhar a atuação do Coletivo. Entre os convidados, representantes do Coletivo da Castanha e organizações comunitárias, OCA, CNS, COIAB, CIR, CPT e ÓSócioBio.
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Coletivo da castanha e OCA
O Coletivo da Castanha é uma rede com mais de 100 extrativistas de mais de 50 organizações comunitárias que trabalham com castanha-da-amazônia, cobrindo todos os sete estados produtores. O coletivo realiza o monitoramento participativo de preços das safras de castanha desde 2017 e irá reunir presencialmente os participantes pela primeira vez desde sua fundação.
O Coletivo é coordenado pelo Observatório Castanha-da-Amazônia, o OCA, uma rede de organizações que tem como missão produzir conhecimento e inteligência, além de mobilizar os diversos atores da cadeia de valor para consolidar um mercado justo, que valorize os povos, populações e comunidades envolvidas ao mesmo tempo em que promove a conservação da floresta. Saiba mais sobre o OCA aqui.
Ambas iniciativas buscam cobrir, debater e buscar soluções para gargalos históricos da cadeia da castanha, como:
- Falta de incentivo estatal à atividade
- Falta de informações qualificadas sobre o mercado e sobre o produto
- Produção pulverizada e de difícil acesso
- Insegurança fundiária nas áreas de coleta
- Grande presença de intermediários e atravessadores
- Dificuldades de infraestrutura logística
- Baixo acesso a insumos e serviços
- Falta de padronização do produto
- Demanda instável e alta oscilação de preços
- Baixo conhecimento da sociedade sobre os aspectos culturais e socioambientais da castanha
Fatos sobre a castanha e a cadeia de valor
- Movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano, no Brasil
- Mais de 33 mil toneladas produzidas em 2020
- Produção proveniente essencialmente do extrativismo em áreas protegidas
- Produção não acontece sem a floresta em pé
- Envolve mais de 60 mil pessoas de povos e comunidades tradicionais
- Envolve ao menos 127 organizações comunitárias
- Envolve aproximadamente 60 empresas de beneficiamento e comercialização
A castanha, o extrativismos e a cadeia de valor
A castanha-da-amazônia, do-pará ou do-brasil, é fundamental para a conservação da Amazônia. Com produção proveniente quase exclusivamente do extrativismo, a castanha e o castanheiro compartilham extensos pedaços de terra na floresta e, para realizar a coleta, são necessárias grandes áreas de floresta conservada, onde se encontram os castanhais.
A castanheira tem no extrativista um aliado. Ao mesmo tempo em que ele coleta e dispersa as sementes, realiza também um trabalho de vigilância e gestão territorial, percorrendo grandes distâncias e protegendo seu território contra a grilagem de terras, desmatamento, queimadas e outras ameaças.
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Jovens Wai Wai despejam ouriços cheios de castanhas. Atividade é feita tradicionalmente em família 📷 Rogério Assis/ISA
A relação castanheira-extrativista faz parte das culturas de inúmeros povos e comunidades tradicionais da Amazônia há milênios. Indígenas, quilombolas e ribeirinhos são os principais responsáveis pela coleta desse fruto que é parte das tradições e modos de vida dessas populações.
Além dessas valiosas características, a castanha é um dos principais produtos do extrativismo brasileiro, com enorme potencial de geração de renda. A castanha movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano só no país, mas de toda essa riqueza gerada, a menor parte fica com os extrativistas.
Estima-se que a cadeia de valor da castanha-da-amazônia envolva mais de 60 mil pessoas de povos e comunidades tradicionais, ao menos 127 organizações comunitárias (sendo 98 associações e 29 cooperativas) e aproximadamente 60 empresas de beneficiamento e comercialização.
E é para buscar caminhos de valorização do trabalho do extrativista coletor de castanha e enfrentar as muitas questões que exigem transformação na cadeia de valor e no apoio ao extrativismo na Amazônia que o Coletivo da Castanha promove o 1º Encontro Nacional de Castanheiras e Castanheiros.
Esta ação do Observatório Castanha-da-Amazônia (OCA) tem apoio do projeto Bioeconomia e Cadeias de Valor, desenvolvido no âmbito da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável, por meio da parceria entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH, com apoio do Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha; da Aliança pelo Clima e Uso da Terra (CLUA); e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – USAID.
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Com a força da castanha, povo Wai Wai cuida da floresta e do nosso futuro. Clique aqui e conheça essa história
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Com a força da castanha, povo Wai Wai cuida da floresta e do nosso futuro
Em 10 anos, indígenas coletaram e comercializaram mais de 1,3 mil toneladas de castanha em Roraima e no Pará
Evilene Paixão
- Jornalista da Hutukara Associação Yanomami
Tradição da castanha segue viva entre os Wai Wai. Ao centro, Tarcizio Yakima Wai Wai, tuxaua (cacique) da comunidade Anauá, e sua família|Fernanda Ligabue/ISA
Com o corpo franzino, no auge dos seus 90 anos, deitado no aconchego da sua rede e com os pés no chão batido da maloca, está Yakuta Wai Wai, conhecido também por seu Pedro, ancião da comunidade indígena Xaary, sul de Roraima. Entre suas memórias, está presente seus tempos de jovem coletor de castanha.
“Uns quebravam 20 sacos, outros cinco sacos, assim por diante. É assim que os povos começaram a trabalhar com castanha, nós não vendíamos para os karaiwa [não indígenas], era só nossa comida, era bom”, recorda Yakuta.
A memória viva que atravessa Pedro reverbera até hoje na realidade dos Wai Wai, povo conhecido pelo manejo tradicional da castanha. Mas, ao contrário dos tempos antigos, hoje os Wai Wai passaram a desenvolver a coleta da castanha também para a comercialização, impulsionando a economia local e nacional.
Em Roraima, no período chuvoso, as famílias Wai Wai se reúnem e passam semanas na mata coletando castanha. Além de ser fonte de alimento, passou a ser a principal fonte de renda. O período de safra da castanha pode ir de abril até agosto. A atividade tem prosperado: entre 2011 a 2022, o povo Wai Wai coletou e comercializou mais de 1,3 mil toneladas de castanha, segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Instituto Socioambiental (ISA).
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Jovens Wai Wai despejam ouriços cheios de castanhas. Atividade é feita tradicionalmente em família|Rogério Assis/ISA
A comercialização está movimentando uma economia do cuidado com as florestas que beneficia diretamente a economia local, como explica o vice-presidente da APIW, Anarcindo Onésimo Wai Wai. “Este trabalho está indo bem. Fazemos todo o processo de trazer da floresta, lavamos e secamos. Quando está tudo no jeito, levamos para vender diretamente para as empresas e tudo é revertido para as comunidades com compras de novos equipamentos e sustento das famílias.”
Antigamente, os Wai Wai contavam somente com atravessadores para vender a castanha para fora do Estado. Contudo, com o fortalecimento das associações indígenas Wai Wai, junto com o apoio de infraestrutura e logística oferecido pelo Instituto Socioambiental (ISA), a tendência é que mais parcerias sejam tecidas para impulsionar o manejo tradicional da castanha e a comercialização justa do produto.
“A gestão da produção da castanha era feita de forma pulverizada. Com as parcerias, as associações Wai Wai estão se capacitando no manejo para atender ao mercado nacional. Nosso foco é contribuir para a autonomia desses povos”, explica Felipe Reis, assessor técnico do ISA.
Da floresta à mesa
Da comunidade Xaary, se percorrem 80 km de estrada, atravessando um igarapé, e uma hora de caminhada mata adentro, para encontrar as gigantes castanheiras, carregadas de ouriços que caem no meio da mata, deixando rastros na floresta.
Desde os 15 anos, Valdeci Wai Wai, presidente da Associação dos Povos Indígenas Wai Wai do Xaary (APIWX), coleta castanhas. Hoje, ele reúne toda a família na atividade. Eles levam os equipamentos necessários para o trabalho: botas, facão, camisas de manga comprida, bonés e sacos de fibra. No caminho, vão abrindo a mata com facão. O ponto exato para a coleta é definido pela quantidade de ouriços espalhados pelo chão.
Os ouriços passam a ser coletados e amontoados no meio da floresta. Em seguida, sentados em círculo, os homens quebram e as mulheres separam as castanhas dos ouriços, ensacando-as. O trabalho coletivo continua com a jornada de retorno. Com sacos de castanhas de cerca de 50 kg nas costas, homens e mulheres caminham pela floresta a passos rápidos.
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Depois da coleta, sentados em círculos, os homens quebram os ouriços e as mulheres coletam as castanhas|Rogério Assis/ISA
“Realizamos uma reunião com a presença de todos: homens, mulheres e até as crianças. Definimos a data em conjunto e todos os pais de família, filhos, filhas vão até a base do castanhal. Os rapazes quebram o ouriço e as meninas também ajudam”, conta Valdeci.
Galpões
As associações Wai Wai investiram, com o apoio de parceiros, na construção de galpões para otimizar o armazenamento da castanha. De 2019 a 2022, foram construídos 11 galpões para armazenamento da castanha nos territórios.
No galpão podem ser armazenadas de 100 a 500 hectolitros (sacos com 100 litros ou 50kg) de castanha, dependendo do tamanho da comunidade e sua respectiva produção. É ali mesmo que as famílias se reúnem mais uma vez para a limpeza, secagem, separação e ensacamento, desta vez para a comercialização.
“Essa produção é a principal fonte de renda para nossas famílias. Com o recurso gerado, compramos motores de popa, voadeiras, motos. É assim que vivemos aqui”, afirma Ota Wai Wai, da comunidade Anauá.
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"É assim que vivemos aqui". Ota Wai Wai corta castanhas no galpão da comunidade Anauá, na Terra Indígena Wai Wai|Rogério Assis/ISA
O galpão da comunidade Anauá está sob a responsabilidade da Associação Indígena Wai Wai da Amazônia (AIWA), instituída em 2018. O presidente, Reginaldo de Souza Wai Wai, conta que a construção do galpão de castanha é uma grande conquista e auxilia no processo de beneficiamento do produto.
“É uma casa maior de abastecimento da castanha, é muito bom ter essa estrutura dentro da nossa comunidade, muito bem trabalhada. Este galpão é para atender a todos os povos Wai Wai”, diz.
Além de apoiar no processo de armazenamento da castanha, os galpões auxiliam na proteção e gestão territorial. “Os galpões estão localizados em regiões costumeiramente invadidas por não-indígenas, localizadas, em sua maioria, nos limites dos territórios, perto de vicinais. Essa localização auxilia também na melhor ocupação e monitoramento territorial”, detalha Felipe Reis, do ISA.
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Mapa apontados os galpões de castanha nas Terras Indígenas Wai Wai
Polo da castanha
O município de Caroebe, no sul de Roraima, está sobreposto à Terra Indígena Trombetas Mapuera, onde vive parte do povo Wai Wai.
São oito comunidades, aproximadamente 110 famílias, que se encontram às margens do Rio Jatapu e Jatapuzinho, região também rica em castanhais.
Nas margens do Jatapu foi construído mais um galpão para o armazenamento das castanhas. As lideranças da região estão organizando o espaço para ser o Polo Regional da Terra Indígena Trombetas Mapuera.
A localização facilita a comercialização do produto, que viaja de Roraima em caminhões até chegar a Manaus (AM). De lá, segue de barco até Belém (PA). Na capital paraense, as castanhas passam pelo processo de beneficiamento e industrialização e dali partem para indústrias alimentícias em vários estados, principalmente São Paulo.
O principal comprador é uma das maiores empresas de pães do Brasil, a Wickbold.
Neste ano, os Wai Wai prometem uma safra de 400 toneladas. “Aqui é para nós trabalharmos, armazenar a castanha. Daqui que vai sair a nossa produção para a cidade grande, é para isso que temos esse galpão dos Wai Wai”, explica a liderança Jaime Pereira Wai Wai, atual responsável pelo galpão Polo Regional.
Arte nos Galpões
Na comunidade Anauá, com cerca de 60 famílias, o galpão de castanha recebeu uma pintura do artista amazonense Raíz Campos, grafiteiro e muralista que já realizou diversos trabalhos com Povos Indígenas na região amazônica.
A inspiração foi o "tîtko yewnari", desenho do artesanato Wai Wai que representa uma parte do fruto da castanha.
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Jaime Wai Wai, liderança da comunidade Kwarikwara, e o grafiteiro Raiz Campos no galpão do Polo Regional|Rogério Assis/ISA
Na parte interna do galpão, Raiz grafitou o momento da coleta da castanha e a caminhada feita pelos indígenas dentro da floresta com o saco de castanha nas costas, baseado em fotos de Rogério Assis, fotógrafo paraense e colaborador do ISA.
“Eles estão muito felizes porque até então, tinham só um galpão, e agora eles têm um galpão indígena. Cada grafismo que a gente pinta eles acham ainda mais bonito, estou muito horando”, conta Raíz.
Mulheres, ancestralidade e futuro da castanha
As mulheres estão presentes em todos os momentos e têm papéis importantes na coleta da castanha. Uma delas é a Rudineia Noro Wai Wai. Desde criança, ela acompanha o pai no trabalho. “Nós, mulheres indígenas Wai Wai, compartilhamos o trabalho com os homens. Ajudamos nossos pais e ajudamos nossa família, de acordo com nossa cultura e costumes”, relata.
O papel delas é fundamental para manter o legado dos seus antepassados: a ancestralidade no manejo da castanha. Elas organizam todo o processo, desde a busca da lenha na floresta, à preparação do fogo para cozinhar e assar. Lavam, separam, descascam as castanhas para se transformarem nos mais variados pratos típicos.
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Mulheres Wai Wai apresentam pratos típicos feitos a base da castanha, comunidade Xaary, Terra Indígena Wai Wai|Rogério Assis/ISA
Dentre eles, estão o Mawkîn, uma farinha de castanha mesclada com farinha de tapioca; a paapa, o beiju feito da castanha; o kapayo repu, uma massa da castanha aquecida a lenha envolto no talo de buriti, que para os Wai Wai fica parecido com uma perna de tatu; o Xiwiri, pamonha de castanha; o mingau de banana com castanha e o kashara, peixe cozido com pimenta, comida típica dos povos indígenas de Roraima, feita com o leite da castanha.
“Nossas mães faziam para nos alimentar. Esse é o nosso costume. Nós não vamos abandonar esse costume tradicional. Nos alimentamos de acordo com a nossa cultura, até nos dias de hoje. Alimentamos nossos filhos assim e repassamos para as nossas filhas também”, afirma Ohserema Wai Wai, da comunidade Jatapuzinho.
“Queremos comercializar os nossos pratos típicos, para que mais pessoas tenham conhecimento da cultura Wai Wai, para que conheçam mais os nossos povos”, conclui, orgulhosa.
Assista ao filme "O caminho da castanha do povo indígena Wai Wai":
Esta reportagem foi realizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Associação dos Povos Indígenas Wai Wai do Xaary (APIWX), Associação dos Povos Indígenas Wai Wai (APIW) e Associação Indígena Wai Wai da Amazônia (AIWA), da rede Origens Brasil e da Funai. O apoio é da União Europeia, da Fundação Rainforest da Noruega, da Amazon Conservation Team - Brasil e da Evoltz.
Mulheres Wai Wai apresentam pratos típicos feitos a base da castanha, comunidade Xaary, Terra Indígena Wai Wai|Rogério Assis/ISA
Família Wai Wai, comunidade Jatapuzinho, Terra Indígena Trombetas Mapuera|Rogério Assis/ISA
Pedro Yakuta Wai Wai, ancião da Terra Indígena Wai Wai|Rogério Assis/ISA
Meninas Wai Wai no malocão da comunidade Jatapuzinho, Terra Indígena Trombetas Mapuera|Rogério Assis/ISA
Artesanato Wai Wai na comunidade Jatapuzinho, Terra Indígenas Trombetas Mapuera|Rogério Assis/ISA
Artesanato Wai Wai na comunidade Jatapuzinho, Terra Indígenas Trombetas Mapuera|Rogério Assis/ISA
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Semana do Extrativismo reforça laços por uma economia do cuidado com o Xingu
Empresas vão para a floresta, reconhecem o trabalho da Rede Terra do Meio e se unem a ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares da região de Altamira (PA)
Da esquerda para a direita: Joana de Jesus Souza e Marinês Lopes de Souza, da Reserva Extrativista Rio Xingu, durante VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
A oitava edição da Semana do Extrativismo, evento anual que celebra o trabalho de indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares da região de Altamira (PA), reforçou laços entre empresas e comunidades e mostrou mais uma vez que o futuro depende de uma economia do cuidado com o Xingu.
Realizada em meados de julho no polo Gabiroto, na Reserva Extrativista Rio Xingu, o encontro reuniu de forma presencial, depois de três anos afastados pela pandemia da Covid-19, mais de 100 representantes da rede. Lá, eles discutiram os caminhos para o território e negociaram contratos com 13 empresas de forma ética e transparente (saiba mais abaixo).
O encontro foi marcado pela criação e formalização de uma nova associação, chamada Rede Terra do Meio, que será a representante legal dos grupos organizados em cantinas, paióis e miniusinas e das associações dos povos e comunidades tradicionais que fazem parte deste arranjo territorial.
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Juma Xipaya durante evento da VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio (Semex)|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
Uma nova diretoria também foi eleita para o mandato de 2022 a 2025, e terá como presidenta Juma Xipaya, da associação Pyjahyry Xipaya, e como vice-presidente Assis Porto, da Associação de Moradores da Reserva Extrativista Rio Iriri (Amoreri).
A Rede Terra do Meio trabalha com alimentos das roças, castanhas, farinhas, sementes, óleos e borracha natural com rastreabilidade, o que conecta cada um dos produtos aos seus territórios de origem, que por sua vez contribuem para a regulação climática, saúde e bem-estar em todo o planeta.
O desejo das comunidades é que esses produtos possam chegar a uma parcela cada vez maior da população. “Os produtos orgânicos, os produtos naturais, precisam estar acessíveis para as pessoas, não somente quem é de classe alta, quem é rico, quem tem dinheiro”, afirmou Juma Xipaya.
“Isso tem que estar na mesa de todo o cidadão, dentro da favela, dentro da comunidade, dentro das escolas”, continuou.
Os primeiros passos nesse sentido já foram dados. A Rede Terra do Meio acessa editais do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), do Ministério da Educação, e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
“A gente vive da floresta, mora na floresta, todos os produtos que a gente trabalha vem da floresta. Se não fosse a floresta, nós não existiríamos", reforçou Marinês Lopes de Sousa, ribeirinha, cantineira, gestora de miniusina da comunidade Baliza, na RESEX Rio Xingu.
Sousa, por exemplo, processa farinha e óleo do coco babaçu, que são entregues tanto para a merenda escolar por meio do PNAE quanto para instituições parceiras, que distribuem os produtos a famílias vulneráveis em Altamira por meio do PAA.
A previsão é que, neste ano, três toneladas da farinha do coco babaçu sejam entregues para a merenda escolar. Essa conexão começou há mais de cinco anos, com esforços de entrada do produto nas compras municipais, e na sensibilização de nutricionistas e merendeiras da região.
Parte importante da Semana do Extrativismo é o compromisso assumido por representantes de empresas com as comunidades em reuniões para discussão de preço e transparência. Diante do avanço do garimpo ilegal, da grilagem e do roubo de madeira no Corredor Xingu (saiba mais), são acordos que mantêm a esperança das comunidades por dias melhores.
“O madeireiro, a gente sabe que eles não veem como nós. Para eles, o que dá dinheiro é derrubar a floresta. Para a gente, não”, disse Melânia da Silva Gonçalves, da Associação dos Extrativistas do Rio Iriri-Maribel (Aerim). “A gente tem um ganho maior com ela lá, ela viva, ela em pé que vai dar retorno para essas populações", afirmou.
Empresas participantes do encontro firmaram novos compromissos com aumento do preço praticado sobre os produtos, e outras definiram volumes que serão adquiridos das comunidades.
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Fabíola Moreira Silva, assessora do ISA, na VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio (Semex)|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
Um dos objetivos das negociações é criar condições para que as comunidades tenham garantia da compra de seus produtos, o que estimula o monitoramento dos territórios e a transmissão do conhecimento tradicional para a juventude, que enxerga na floresta seu sustento e seu futuro.
Para concretizar esse movimento, foram discutidos mecanismos de reconhecimento e retribuição às comunidades pelo cuidado com as florestas e os serviços socioambientais associados a esse cuidado.
A relação entre a Rede Terra do Meio e as empresas é fortalecida pela iniciativa Origens Brasil®, que promove o comércio ético, transparência e rastreabilidade. Atualmente, os produtos da Rede Terra do Meio são comercializados por meio de uma marca própria, a Vem do Xingu.
A Rede Terra do Meio, articulada por ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares da região de Altamira (PA), tem a função de mobilizar e coordenar ações relativas à gestão, promoção e valorização do manejo tradicional praticado há milênios pelas populações no território.
Esse manejo é praticado por 27 grupos organizados (cantinas, paióis, miniusinas), que representam 13 associações comunitárias no âmbito da rede. Esses grupos estão distribuídos ao longo de 8,5 milhões de hectares, e a produção resultante de seu manejo tem contribuído e pode contribuir mais para alimentar as cidades do entorno, e se conectar com empresas que já entenderam o valor socioambiental do trabalho das comunidades.
Além de castanhas, óleos e farinhas que compõem uma cesta de produtos diversificada e com grande capacidade produtiva, as pessoas e organizações que compõem a Rede Terra do Meio são provedoras de uma série de serviços socioambientais e detentoras de conhecimentos que geraram e podem gerar inovações sociais e tecnológicas.
As relações estabelecidas entre parceiros (públicos e privados) e comunidades buscam operar em uma lógica de contratos diferenciados, que reconhecem os modos de vida e os valores associados ao manejo tradicional do território, e buscam promover esses valores em acordos definidos de forma transparente.
Maria Benedita, da miniusina de Baliza (RESEX Rio Xingu), durante a VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio (Semex), que aconteceu na Reserva Extrativista Rio Xingu, em Altamira, Pará|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
Pedepa Arara, (esposa do Momuru Arara) da aldeia Arumbi, TI Arara, durante a VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio (Semex), que aconteceu na Reserva Extrativista Rio Xingu, em Altamira, Pará|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
Rosângela Silva durante a VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio (Semex), que aconteceu na Reserva Extrativista Rio Xingu, em Altamira, Pará|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
Marines Lopes Souza, ribeirinha da Resex Rio Xingu, durante VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio (Semex), que aconteceu na Reserva Extrativista Rio Xingu, em Altamira, Pará|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
Ngrenhkarati Xikrin, da Terra Indígena Trincheira Bacajá, conselheira da Rede Terra do Meio|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
Ney Xipaya, cantineiro e cacique da aldeia Xipaya, durante a VIII Semana do Extrativismo da Terra do Meio (Semex)|Mitã Xipaya/Rede Xingu+
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Filme 'Do Quilombo pra Favela' mostra caminho para combater a fome no Brasil
Minidocumentário conecta raízes negras e detalha como uma cooperativa quilombola distribuiu 330 toneladas de alimentos para 42 mil pessoas durante a pandemia da Covid-19
Fartura na pandemia: minidoc mostra como quilombolas do Vale do Ribeira (SP), como Rosana de Almeida, alimentaram comunidades vulneráveis |Manoela Meyer/ISA
Em março de 2020, a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) sentiu o baque da pandemia da Covid-19. De forma unilateral, seus contratos para entrega de alimentos para a merenda escolar com as prefeituras de São Paulo, Santos, Santo André e Cajati foram suspensos.
Era o início de um período de insegurança e angústia. Sem renda e com a maior crise sanitária do século 21 batendo às suas portas, a cooperativa via ameaçado o sonho de crescimento e valorização da cultura alimentar quilombola.
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Cartaz do minidocumentário Do Quilombo pra Favela, ilustrado por Amanda Nainá e Deco Ribeiro
O minidocumentário Do Quilombo pra Favela - Alimento para a resistência negra(Brasil, 2022, 22 min.)mostra como, em um período de dois anos, a Cooperquivale recuperou suas forças e conectou suas raízes negras a uma favela da zona oeste de São Paulo através do alimento e da solidariedade.
Com o apoio de parceiros, a cooperativa quilombola elaborou um plano emergencial de captação de recursos para pagar seus custos, remunerar as agricultoras e agricultores e distribuir os alimentos que, sem escoamento, seriam perdidos em suas roças tradicionais.
Resultado: dois anos depois, a equipe conseguiu levar 330 toneladas de 56 variedades de alimentos para 11 municípios do Estado de São Paulo. A biodiversidade chegou à mesa em frutas, legumes e verduras cultivados com técnicas ancestrais, que mantêm a Mata Atlântica em pé e cada vez mais resistente.
Ao todo, 42 mil pessoas receberam cestas de alimentos orgânicos e agroecológicos, que simbolizam um jeito de viver e produzir parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, reconhecido em 2018 patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Sem apoio do Estado, os recursos financeiros vieram de organizações da sociedade civil, empresas e organizações internacionais. A cooperativa movimentou R$ 1,5 milhão no período.
A distribuição dos produtos foi feita em parcerias com ONGs, bancos de alimentos e associações de moradores de favelas na capital paulista.
O filme acompanha o trabalho da cooperativa desde os primeiros momentos da crise sanitária até as trocas de experiências entre quilombo e favela, que resultaram em um amistoso de futebol com toda a potência das mulheres negras, agricultoras, quilombolas e atletas com futuro brilhante pela frente.
O Estado das coisas
Em abril de 2022, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, atendeu pedido elaborado pela Coordenação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e determinou ao governo federal que amplie à agricultura familiar quilombola o acesso às políticas públicas relacionadas à segurança alimentar e nutricional, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
No entanto, a má-gestão sobre a pandemia da Covid-19 e o desmantelamento de políticas públicas alimentares levaram o Brasil ao maior retrocesso em 30 anos.
Estudo publicado em junho pela Rede Brasileira de Pesquisa em Segurança Alimentar e Nutricional mostra que 33 milhões de pessoas vivem em situação de fome no Brasil. E ainda: que 65% dos domicílios com pessoas de referência preta estão com algum grau de insegurança alimentar. Um aumento de 8% em relação a 2020.
O mesmo estudo mostra que a agricultura familiar e as comunidades tradicionais deixaram de receber recursos do PAA e do PNAE, fundamentais para que possam produzir alimentos para combater a fome.
O plano emergencial da Cooperquivale retratado no filme deveria ser visto como modelo no período pós-pandemia, porque gera renda para quilombolas que podem produzir, fortalece a agricultura familiar e alimenta quem tem fome.
Assista ao minidoc:
Sinopse:
No Vale do Ribeira, sudeste de São Paulo, uma cooperativa de agricultoras e agricultores quilombolas uniu esforços para minimizar o impacto da pandemia da Covid-19. Por geração de renda e segurança alimentar, eles elaboraram um plano emergencial para distribuir a comunidades vulneráveis alimentos orgânicos produzidos em suas roças tradicionais, que mantêm a Mata Atlântica em pé. Assim, quilombo e favela, que pareciam distantes, tornaram-se parceiros de lutas semelhantes.
Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Manoela Meyer e Roberto Almeida
Produção: Roberto Almeida e Adriana Rodrigues
Reportagem: Adriana Rodrigues, Andressa Cabral Botelho e Roberto Almeida
Produção Local: Raquel Pasinato, Frederico Viegas, Mauricio Biesek, Fabiana Fagundes, Juliano Nascimento e Andressa Cabral Botelho
Fotografia: Manoela Meyer
Montagem: Manoela Meyer
Trilha Sonora: Make you mine (Acoustic) - Mina; Oxumare (Instrumental version) - Maitlna; Idesof Spring - Michael Shynes; Facus - AwaDu; The River of Hope - Emmanuel Jacob; Enjoy the Game - Borrtex; Macune (Instrumental version) - Maitlna; Good to be Alive - John Coggins; Yemaya (Instrumental version) - Maitlna.
Soundesign e Mix Stereo: Otávio Carvalho e Manoela Meyer
Cor e Efeitos: Manoela Meyer
Realização: Instituto Socioambiental (ISA), Associações Quilombolas, Cooperquivale
Apoio: União Europeia, Cisco, Good Energies
Parcerias: Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Instituto Linha D’Água, Associação dos Moradores da Enseada da Baleia, Instituto Brasil a Gosto, Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (Eaacone), Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de Iporanga, Prefeitura de Cananéia, Prefeitura de Jandira, Prefeitura de Embu das Artes, ONG Bloco do Beco, Associação de Moradores do Jardim São Remo, Associação de Moradores da Vila Brasilândia, Grupo Conexão Petar, Associação Mulheres Unidas por uma Vida Melhor (Amuvim), Projeto Meninas em Campo e Colégio Santa Cruz.
Sobre a Cooperquivale
Fundada em 2012, a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), com sede em Eldorado (SP), comercializa a produção excedente dos territórios quilombolas de forma justa e solidária. Hoje, a cooperativa congrega 19 comunidades quilombolas dos municípios de Jacupiranga, Eldorado, Iporanga e Itaóca, no Vale do Ribeira. São, ao todo, cerca de 240 cooperados.
A cooperativa tem como principal estratégia a comercialização de mais de 78 alimentos da sua agrobiodiversidade para os programas de compras institucionais, como Programa de Aquisição de Alimentos na modalidade de Doação Simultânea (PAA-DS) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Encontro de saberes e resistências: João da Mota, do Quilombo Nhunguara, abraça Cícera, uma das lideranças que fundou a comunidade São Remo|Rodrigo Kees/ISA
Equipe feminina de futebol do Quilombo São Pedro após treino para amistoso contra time de São Paulo|JFDiorio/ISA
Luis Marcos dos Santos Silva, mais conhecido como Lula Santos (de camiseta preta), líder da São Remo, cumprimenta quilombolas do quilombo Nhunguara, Vale do Ribeira (SP)|JFDiorio/ISA
Grace Kelly Mendes, à esquerda, moradora da São Remo, e Zeni Florinda dos Santos, do Quilombo Ivaporunduva, durante distribuição de alimentos|Rodrigo Kees/ISA
Representantes dos moradores da São Remo visitam a horta de Zeni Florinda dos Santos , agricultora quilombola de Ivaporunduva|JFDiorio/ISA
Distribuição de alimentos da Cooperquivale na comunidade de São Remo, na zona oeste de São Paulo|Rodrigo Kees/ISA
Distribuição de comida orgânica, produzida pelos quilombolas do Vale do Ribeira (SP), para famílias da São Remo|Manoela Meyer/ISA
Treino da equipe feminina de futebol do Quilombo São Pedro, preparativo para jogo amistoso|JFDiorio/ISA
Adan Pereira, do Quilombo Sapatu, colhe bananas em sua roça destinadas à distribuição de alimentos orgânicos|Manoela Meyer/ISA
Osvaldo dos Santos, do Quilombo Porto Velho, prepara farinha de mandioca para a distribuição de comida orgânica|Manoela Meyer/ISA
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'From Quilombo to Favela' documentary shows path to fighting hunger in Brazil
Minidocumentary connects black roots and details how a quilombola cooperative distributed 330 tons of food to 42,000 people during the Covid-19 pandemic
Abundance during the pandemic: minidoc shows how quilombolas from Vale do Ribeira fed poor communities of São Paulo
In March 2020, the Quilombola Farmers' Cooperative of the Ribeira Valley (COOPERQUIVALE) felt the brunt of the Covid-19 pandemic. Unilaterally, its contracts to deliver food for school meals with the city halls of São Paulo, Santos, Santo André, and Cajati were suspended.
It was the beginning of a cycle of uncertainty and anguish. With no income and the biggest health crisis of the 21st century knocking at its doors, the cooperative saw its dream of growth and recognition of quilombola food culture threatened.
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Poster for the mini-documentary From Quilombo to Favela, illustrated by Amanda Nainá and Deco Ribeiro
The minidocumentary "Do Quilombo pra Favela - Alimento para a resistência negra" ["From the Quilombo to the Favela - Food for Black Resistance"] (Brazil, 2022, 22 min.) shows how, in a two-year period, COOPERQUIVALE was able to recover and connect its black roots to a favela in the west zone of São Paulo through food and solidarity.
With support from partners, the quilombola cooperative produced an emergency fundraising plan to cover its costs, pay the farmers, and distribute the food that would have been lost in their traditional fields without an outlet.
The result: two years later, the team has managed to supply 330 tons of 56 varieties of food to 11 municipalities in the state of São Paulo. Biodiversity has reached the table in fruits, vegetables, and greens grown with ancestral techniques, which keep the Atlantic Forest standing and increasingly resistant.
In all, 42,000 people received organic and agroecological food baskets, which symbolize a way of living and producing that is part of the Quilombola Traditional Agricultural System, recognized in 2018 as an intangible cultural heritage of Brazil by the Institute of National Historical and Artistic Heritage (IPHAN).
With no support from the state, financial resources came from civil society organizations, companies, and international organizations. The cooperative raised R$1.5 million in the period.
The distribution of the produce was undertaken in partnerships with NGOs, food banks, and Favela residents' associations in the capital city of São Paulo. Among them, the Residents' Association of Jardim São Remo, in the west zone of São Paulo, and the Meninas em Campo project, which promotes women's soccer among young women from the city' s outskirts.
The film follows the work of the cooperative from the first moments of the health crisis to the exchange of experiences between quilombo and favela, which resulted in a soccer match with the full power of black women, farmers, quilombolas, and athletes with a bright future ahead.
The State of Things
In April 2022, the Minister of the Federal Supreme Court (STF) Edson Fachin granted a request made by the Coordination of Rural Black Quilombola Communities (CONAQ) and ordered the federal government to expand access to public policies related to food and nutritional security to quilombola family farmers, including the National School Meals Program (PNAE) and the Food Acquisition Program (PAA).
However, mismanagement of the Covid-19 pandemic and the dismantling of public food policies have led Brazil to its biggest setback in 30 years. A study published in June by the Brazilian Research Network on Food Security and Nutrition shows that 33 million people in Brazil are living in a state of hunger.
And further: 65% of households with people with black reference are experiencing some degree of food insecurity. This is an 8% increase in relation to 2020.
The same study shows that family farming and traditional communities have stopped receiving funding from the PAA and PNAE programs, which are essential for them to produce food to fight hunger.
COOPERQUIVALE's emergency plan portrayed in the film should be seen as a model in the post-pandemic period as it generates income for quilombolas who are able to produce, strengthens family farming, and feeds the hungry.
Watch the mini-doc:
Synopsis:
In the Ribeira Valley, in southeastern São Paulo, a cooperative of quilombola farmers joined forces to minimize the impact of the Covid-19 pandemic. For income generation and food security, they devised an emergency plan for distributing food to vulnerable communities which is organically produced on their traditional farms, which in turn keep the Atlantic Forest standing. Thus quilombo and favela, which seemed distant, became partners in similar struggles.
Credits:
Directed and Scripted by: Manoela Meyer and Roberto Almeida Produced by: Roberto Almeida and Adriana Rodrigues Reportage: Adriana Rodrigues, Andressa Cabral Botelho and Roberto Almeida Local Production: Raquel Pasinato, Frederico Viegas, Mauricio Biesek, Fabiana Fagundes, Juliano Nascimento and Andressa Cabral Botelho Photography: Manoela Meyer Editing: Manoela Meyer
Soundtrack: Make you mine (Acoustic) - Mina; Oxumare (Instrumental version) - Maitlna; Idesof Spring - Michael Shynes; Facus - AwaDu; The River of Hope - Emmanuel Jacob; Enjoy the Game - Borrtex; Macune (Instrumental version) - Maitlna; Good to be Alive - John Coggins; Yemaya (Instrumental version) - Maitlna. Sound Design and Stereo Mix: Otávio Carvalho and Manoela Meyer Color and Effects: Manoela Meyer Organized by: Instituto Socioambiental (ISA), Quilombola Associations, COOPERQUIVALE Support: European Union, Cisco, Good Energies Partnerships: Linha D'Água Institute, Enseada da Baleia Residents' Association, Brasil a Gosto Institute, Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (EAACONE), Eldorado City Hall, Iporanga City Hall, Cananéia City Hall, Jandira City Hall, Embu das Artes City Hall, NGO Bloco do Beco, Jardim São Remo Residents' Association, Vila Brasilândia Residents' Association, Grupo Conexão Petar, Associação Mulheres Unidas por uma Vida Melhor (AMUVIM), Projeto Meninas em Campo and Colégio Santa Cruz
About COOPERQUIVALE
Founded in 2012, the Quilombola Farmers' Cooperative of the Ribeira Valley (COOPERQUIVALE), based in Eldorado (SP), markets the surplus production of the quilombola territories in a fair and solidary way.
Today, the cooperative is made up of 19 quilombola communities in the municipalities of Jacupiranga, Eldorado, Iporanga, and Itaóca, in Vale do Ribeira. In all, the cooperative has about 240 members.
The cooperative's main strategy is to commercialize more than 78 foods from its agro-biodiversity for institutional purchasing programs, such as the Food Acquisition Program in the Simultaneous Donation modality (PAA-DS) and the National School Meals Program (PNAE).
Translation: Philip Somervell
Meeting of knowledge and resistance: João da Mota, from Quilombo Nhunguara, embraces Cícera, one of the leaders who founded the São Remo community|Rodrigo Kees/ISA
Quilombo São Pedro women's soccer team after training for a friendly against São Paulo team | JFDiorio/ISA
Luis Marcos dos Santos Silva, better known as Lula Santos (in black shirt), leader of São Remo favela, greets quilombolas of the quilombo Nhunguara, Vale do Ribeira (SP)|JFDiorio/ISA
Grace Kelly Mendes, left, resident of São Remo, and Zeni Florinda dos Santos, from Quilombo Ivaporunduva, during food distribution|Rodrigo Kees/ISA
Representatives of São Remo residents visit the vegetable garden of Zeni Florinda dos Santos, a quilombola farmer from Ivaporunduva|JFDiorio/ISA
Cooperquivale's food distribution in the community of São Remo, in the west of São Paulo|Rodrigo Kees/ISA
Distribution of organic food, produced by the quilombolas of Vale do Ribeira (SP), to families in São Remo|Manoela Meyer/ISA
Quilombo São Pedro women's soccer team training, preparation for friendly match | JFDiorio/ISA
Adan Pereira, from Quilombo Sapatu, harvests bananas in his garden for the distribution of organic food|Manoela Meyer/ISA
Osvaldo dos Santos, from Quilombo Porto Velho, prepares cassava flour for the distribution of organic food|Manoela Meyer/ISA
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‘Del Quilombo a la Favela’ muestra una vía para el combate al hambre en Brasil
Mini documental conecta las raíces negras y cuenta cómo una cooperativa quilombola destinó 330 toneladas de alimentos para 42 mil personas durante la pandemia por Covid-19
Minidocumental muestra cómo quilombolas del Vale do Ribeira, como Rosana de Almeida, alimentaron comunidades vulnerables | Manoela Meyer/ISA
En marzo de 2020, la Cooperativa de los Agricultores Quilombolas del “Vale do Ribeira” (Cooperquivale) sintió la repercusión de la pandemia por Covid-19. De forma unilateral, los contratos, referentes a la entrega de alimentos para la merienda escolar, con las municipalidades de São Paulo, Santos, Santo André y Cajati fueron suspendidos.
Era el inicio de un ciclo de inseguridad y angustia. Sin renta y con la mayor crisis sanitaria del siglo 21 golpeando a sus puertas, la cooperativa veía que estaba siendo amenazado el sueño de crecimiento y valorización de la cultura alimentaria quilombola.
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Afiche del minidocumental Del Quilombo a la Favela, ilustrado por Amanda Nainá y Deco Ribeiro
El mini documental “Del Quilombo a la Favela - Alimento para la resistencia negra” (Brasil, 2022, 22 min.) muestra cómo, en un período de dos años, la Cooperquivale recuperó sus fuerzas y conectó sus raíces negras a una favela de la zona oeste de São Paulo a través de los alimentos y la solidaridad.
Con el apoyo de colaboradores, la cooperativa quilombola elaboró un plan de emergencia para la captación de recursos, con el fin de pagar sus costos, remunerar a las agricultoras y agricultores y distribuir los alimentos que, sin destino, serían perdidos en sus territorios tradicionales.
Resultado: dos años después, el equipo consiguió llevar 330 toneladas de 56 variedades de alimentos para 11 municipios del Estado de São Paulo. La biodiversidad llegó a la mesa en frutas, leguminosas y verduras cultivados con técnicas ancestrales, que mantienen a la Mata Atlántica en pie y cada vez más resistente.
En total, 42 mil personas recibieron cajas de alimentos orgánicos y agroecológicos, que simbolizan una forma de vivir y producir del Sistema Tradicional Quilombola, reconocido en 2018 como patrimonio cultural inmaterial de Brasil por el Instituto del Patrimonio Histórico y Artístico Nacional (Iphan).
Sin apoyo del Estado, los recursos financieros llegaron de organizaciones de la sociedad civil, empresas y organizaciones internacionales. La cooperativa movió R$1,5 millones en este periodo.
La distribución de los productos fue realizada en cooperación con ONGs, bancos de alimentos y asociaciones de vecinos de las favelas de la capital paulista. Entre ellas, la Asociación de Vecinos del Jardín “São Remo”, en la zona oeste de São Paulo, y el proyecto “Meninas en Campo”, para el fomento al fútbol femenino entre las jóvenes de la periferia.
El vídeo documental acompaña el trabajo de la cooperativa desde los primeros momentos de la crisis sanitaria hasta los intercambios de experiencias entre el quilombo y la favela, que resultaron en un amistoso partido de fútbol con toda la potencia de las mujeres negras, agricultoras, quilombolas y atletas con un futuro brillante por delante.
El Estado de las cosas
En abril de 2022, el ministro del Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, atendió al pedido elaborado por la Coordinación de las Comunidades Negras Rurales Quilombolas (Conaq) y determinó que el gobierno federal extienda para la agricultura familiar quilombola el acceso a las políticas públicas relacionadas a la seguridad alimentaria y nutricional, como el Programa Nacional de Alimentación Escolar (PNAE) y el Programa de Adquisición de Alimentos (PAA).
Sin embargo, la mala gestión en relación a la pandemia por Covid-19 y el desmantelamiento de políticas públicas alimentarias llevaron a Brasil al mayor retroceso en 30 años. Un estudio publicado en junio por la Red Brasileña de Investigación en Seguridad Alimentaria y Nutricional muestra que 33 millones de personas viven en situación de hambre en Brasil.
Y aún: 65% de los domicilios con personas de referencia negra están con algún grado de inseguridad alimentaria. Un aumento de 8% en relación a 2020.
El mismo estudio muestra que la agricultura familiar y las comunidades tradicionales dejaron de recibir recursos del PAA y del PNAE, fundamentales para que puedan producir alimentos que combaten el hambre.
El plan de emergencia de la Cooperquivale retratado en el video documental debería ser visto como un modelo en el periodo de pos pandemia, porque genera renta para los quilombolas, quienes pueden producir, fortaleciendo la agricultura familiar y alimentando a quien tiene hambre.
Vea al minidocumental:
Sinopsis:
En el “Vale do Ribeira”, sudeste de São Paulo, una cooperativa de agricultoras y agricultores quilombolas juntó fuerzas para disminuir el impacto de la pandemia por Covid-19. Para generar renta y seguridad alimentaria, ellos elaboraron un plan de emergencia con el fin de distribuir entre las comunidades vulnerables alimentos orgánicos, producidos en sus territorios tradicionales, que mantienen a la Mata Atlántica en pie. Así, quilombo y favela, que parecían distantes, se convierten en compañeros de luchas semejantes.
Ficha técnica:
Dirección y Guion: Manoela Meyer y Roberto Almeida Producción: Roberto Almeida y Adriana Rodrigues Reportaje: Adriana Rodrigues, Andressa Cabral Botelho y Roberto Almeida Producción Local: Raquel Pasinato, Frederico Viegas, Mauricio Biesek, Fabiana Fagundes, Juliano Nascimento y Andressa Cabral Botelho Fotografía: Manoela Meyer Montaje: Manoela Meyer Música: Make you mine (Acoustic) - Mina; Oxumare (Instrumental version) - Maitlna; Idesof Spring - Michael Shynes; Facus - AwaDu; The River of Hope - Emmanuel Jacob; Enjoy the Game - Borrtex; Macune (Instrumental version) - Maitlna; Good to be Alive - John Coggins; Yemaya (Instrumental version) - Maitlna. Diseño de Sonido y Mix Estéreo: Otávio Carvalho y Manoela Meyer Color y Efectos: Manoela Meyer Realización: Instituto Socioambiental (ISA), Asociaciones Quilombolas, Cooperquivale Apoyo: Unión Europea, Cisco, Good Energies
Colaboradores: Instituto Linha D’Água, Asociación de Vecinos de la Enseada da Baleia, Instituto Brasil a Gosto, Equipo de Articulación y Asesoría a las Comunidades Negras del Vale do Ribeira (Eaacone), Municipalidad de Eldorado, Municipalidad de Iporanga, Municipalidad de Cananéia, Municipalidad de Jandira, Municipalidad de Embu das Artes, ONG Bloco do Beco, Asociación de Vecinos del Jardín São Remo, Asociación de Vecinos de la Vila Brasilândia, Grupo Conexión Petar, Asociación de Mujeres Unidas por una Vida Mejor (Amuvim), Proyecto Meninas en Campo y Colegio Santa Cruz.
Sobre la Cooperquivale
Fundada en 2012, la Cooperativa de los Agricultores Quilombolas del “Vale do Ribeira” (Cooperquivale), con sede en Eldorado (SP), comercializa la producción del excedente de los territorios quilombolas de forma justa y solidaria.
Hoy, la cooperativa reúne 19 comunidades quilombolas de los municipios de Jacupiranga, Eldorado, Iporanga e Itaóca, en el “Vale do Ribeira”. Son, en total, alrededor de 240 cooperados.
La cooperativa tiene como principal estrategia comercializar sus más de 78 alimentos de su agrobiodiversidad a través de los programas de compras institucionales, como Programa de Adquisición de Alimentos en la modalidad de Donación Simultánea (PAA-DS) y Programa Nacional de Alimentación Escolar (PNAE).
Traducción: Javiera Abalos
Encuentro de saberes y resistencias: João da Mota, de Quilombo Nhunguara, abraza a Cícera, una de las líderes fundadoras de la comunidad de São Remo|Rodrigo Kees/ISA
El equipo de fútbol femenino del Quilombo São Pedro después del entrenamiento de preparación para un partido amistoso|JFDiorio/ISA
Luis Marcos dos Santos Silva, más conocido como Lula Santos (de camisa negra), líder de São Remo, saluda a quilombolas del quilombo Nhunguara, Vale do Ribeira (SP)|JFDiorio/ISA
Grace Kelly Mendes, izquierda, residente de São Remo, y Zeni Florinda dos Santos, del Quilombo Ivaporunduva, durante la distribución de alimentos|Rodrigo Kees/ISA
Representantes de los habitantes de São Remo visitan la huerta de Zeni Florinda dos Santos, agricultora quilombola del Quilombo Ivaporunduva|JFDiorio/ISA
Distribución de alimentos de Cooperquivale en la comunidad de São Remo, en el oeste de São Paulo|Rodrigo Kees/ISA
Distribución de alimentos orgánicos, producidos por los quilombolas de Vale do Ribeira (SP), a familias de São Remo|Manoela Meyer/ISA
Entrenamiento del equipo de fútbol femenino de Quilombo São Pedro, preparación para el partido amistoso|JFDiorio/ISA
Adán Pereira, de Quilombo Sapatu, cosecha banano en su huerta para la distribución de alimentos orgánicos|Manoela Meyer/ISA
Osvaldo dos Santos, del Quilombo Porto Velho, prepara harina de yuca para la distribución de alimentos orgánicos|Manoela Meyer/ISA
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Comunicador indígena, Tukumã Pataxó publica série sobre cerâmicas do Rio Negro; assista
Vídeos apresentam também a Pimenta Baniwa, a culinária rionegrina e os saberes que são patrimônio cultural do Brasil
Tukumã, que estuda gastronomia, com cerâmicas Tukano e Baniwa|Pedro Hassan/ISA
Os livros de bolso Cerâmica Baniwa e Cerâmica Tukano, lançados pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), inspiraram o comunicador indígena Tukumã Pataxó (saiba mais sobre ele abaixo) a produzir uma série de vídeos sobre a arte rionegrina da cerâmica tradicional.
As cerâmicas Tukano e Baniwa sempre tiveram uma inserção na vida ritual nas comunidades indígenas do Rio Negro. A produção das peças, no entanto, foi levada ao limite do desaparecimento e, por isso, as publicações retomam saberes que estavam restritos a poucas artesãs.
Com bom humor e curiosidades, ele mostrou os saberes por trás das peças que fazem parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A ação com Tukumã Pataxó foi realizada pelo ISA, Casa Wariró e Foirn em parceria com a Tucum Brasil e rede Origens Brasil®, e contou com o apoio da Nia Tero, União Europeia e da Fundação Rainforest da Noruega.
Quem é Tukumã Pataxó?
Nascido na aldeia de Coroa Vermelha, extremo sul da Bahia, Tukumã Pataxó desde pequeno aprendeu sobre as questões ligadas ao ativismo de seu povo, entre elas a luta pela demarcação de terras.
"Desde cedo vivenciamos isso diariamente e entendemos por que precisamos ter o nosso local e por que ele é tão sagrado pra gente", conta o jovem de 22 anos, que hoje cursa gastronomia na Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Apesar da influência das lideranças indígenas de família, foi na escola que o seu ativismo realmente tomou forma.
"Na aldeia, eu estudei em um colégio trilíngue, que ensina o português, o inglês e a nossa língua nativa, o Patxohã", diz. "Essa experiência e a vivência dentro da comunidade me ajudaram muito na militância e na construção do ser indígena."
Para ele, a escola foi um espaço importante para aprender a preservar sua cultura, sua língua, seus esportes e suas tradições.
O que é o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro?
O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, conjunto de práticas e saberes milenares dos povos do Rio Negro, agricultores por excelência, foi reconhecido em 2010 anos como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Estão catalogadas, ao todo, mais de 300 variedades de plantas cultivadas pelos 23 povos indígenas que vivem na região há milênios, além de 32 espécies de peixes comestíveis.
Fazem parte do sistema as técnicas de manejo dos espaços de cultivo (roça e quintais); do sistema alimentar; dos utensílios de processamento e armazenamento como a cerâmica e a cestaria; e, por fim, da conformação de redes sociais de troca de sementes e plantas que se estende de Manaus, no Amazonas, a Mitu, na Amazônia Colombiana.
O cultivo da mandioca brava, por meio da técnica de queima, plantio e manejo de capoeiras (conhecido como coivara), é a base desse sistema, compartilhado pelos povos indígenas da região.
Cogumelo comestível Kotopo amo(Polyporus tricholoma Mont.) coletado pelos Sanöma (subgrupo dos Yanomami) da região de Awaris| Foto: Moreno Saraiva-ISA
Durante os momentos mais difíceis da pandemia da Covid-19, um grupo de 10 cozinheiras e cozinheiros de nove diferentes Estados brasileiros encararam o desafio de transformar os cogumelos coletados por indígenas Yanomami em criações especiais.
O resultado é Umami - receitas para o dia a dia com Cogumelo Yanomami, um livro com 14 receitas que combinam o ingrediente à cultura alimentar das cinco regiões do país. Organizado pelo chef roraimense Beto Bellini e com prefácio de Alex Atala, co-fundador do Instituto ATÁ, a obra recebeu o apoio da Hutukara Associação Yanomami e do Instituto Socioambiental (ISA) e está disponível para download gratuito.
“A grande maioria dos brasileiros não faz ideia da quantidade milenar de conhecimento, história e cultura que as comunidades indígenas têm para nos ensinar e muito menos os sabores e aromas incríveis que estão escondidos pelos rincões da Amazônia”, afirma Bellini, que defende uma identidade indígena para a gastronomia de Roraima.
"Esta é uma das atitudes mais lindas que eu vi acontecer nos últimos anos na gastronomia brasileira”, escreve Atala no prefácio de Umami.
O momento é crítico para o povo Yanomami, que viu em 2021 avanço de 46% na invasão garimpeira, segundo o recém-lançado relatório Yanomami sob ataque, da Hutukara Associação Yanomami. Iniciativas como a do Cogumelo Yanomami mostram que uma outra economia é possível para o território.
Os 10 chefs participantes do livro fizeram pratos com o Cogumelo Yanomami em sua versão em pó, que concentra 15 espécies de cogumelos encontrados nas florestas de montanha de Awaris, porção noroeste da Terra Indígena Yanomami, em Roraima.
As receitas mostram a versatilidade do produto, adaptado a preparos com origens indígenas, japoneses, italianas, árabes, bem como sugestões salgadas ou doces. Umami, termo que dá nome ao livro, tem origem japonesa, significa “gosto delicioso” e faz referência ao quinto sabor do paladar humano - presente nos cogumelos.
Participam do livro profissionais das cinco regiões brasileiras: Débora Shornik, do Amazonas; Danillo Amaral, Bahia; Clóvis Lima, Ceará; Alcyr Viana, Goiás; Júnior Ayoub, Maranhão; Esther Weyl, Pará; Claudio Jr, Paraná; Jorge Cardoso, Roraima; Kalu Brasil, Roraima; e Angelita Gonzaga, São Paulo.
Da pesquisa ao prato
A iniciativa de estudar os cogumelos coletados pelos Yanomami começou em 2015, quando se iniciou uma pesquisa intercultural, realizada por indígenas em parceria com cientistas não-indígenas, e que resultou no livro Ana amopö: Cogumelos Yanomami, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Gastronomia em 2017.
O Cogumelo Yanomami é uma amostra do resultado desta pesquisa: são cogumelos nativos da Amazônia coletados e comercializados pelos Sanöma, subgrupo do povo Yanomami. As 15 espécies são o símbolo de um futuro possível, que promove o protagonismo dos povos indígenas e fomenta uma economia que gera vida e cuida das florestas.
“Nós Yanomami temos um grande conhecimento sobre a floresta. Nós somos os verdadeiros conhecedores da floresta. Nós queremos demonstrar para os não-indígenas e fazer respeitar o nosso conhecimento. Nós queremos fazê-los escutar. Assim os não-indígenas aprenderão, ganharão sabedoria”, escreve o xamã Davi Kopenawa no prefácio de Ana Amopö: Cogumelos.
Para adquirir o Cogumelo Yanomami, escreva para a Hutukara Associação Yanomami: cogumeloyanomami@gmail.com. *Produto com pedido mínimo de 48 pacotes, sujeito à sazonalidade e com disponibilidade restrita.
O Cogumelo Yanomami é uma iniciativa da Hutukara Associação Yanomami, que faz parte da rede Origens Brasil®, idealizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). A rede Origens Brasil® conecta empresas e comunidades com garantia de origem, transparência, rastreabilidade da cadeia produtiva e promovendo o comércio ético.
As ações de coleta, processamento e comércio ético do Cogumelo Yanomami buscam dar visibilidade à luta do povo Yanomami em relação ao garimpo ilegal, e mostrar que o conhecimento tradicional do povo Yanomami em relação à floresta tem um valor inestimável para a humanidade.
Imagem
Cogumelo Yanomami em suas versões inteiro e em pó | Victoria Franco-ISA
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