Mobilização ocorrerá em 25 de novembro, em Brasília, para dar visibilidade a luta pela garantia de direitos das mulheres negras
A Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou, nesta terça-feira (25), o Comitê de Mulheres Quilombolas para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver. O evento aconteceu em Arniqueiras (DF) e contou com a participação de mais de 60 mulheres de todos os estados onde há presença quilombola, entre elas representantes de organizações apoiadoras e parceiras da Conaq.
Também estiveram presentes as ministras dos Direitos Humanos e Cidadania, Macaé Evaristo, e das Mulheres, Cida Gonçalves, além da diretora de Políticas para Quilombolas e Ciganos do Ministério da Igualdade Racial (MIR), Paula Balduíno, e da coordenadora executiva da Associação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e representante do Comitê Nacional da Marcha das Mulheres Negras, Vinólia Andrade.
A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, ou 2ª Marcha Nacional de Mulheres Negras, ocorrerá em 25 de novembro, em Brasília, e pretende marcar a luta pela garantia de direitos das mulheres negras do Brasil. A expectativa é reunir cerca de 1 milhão de mulheres de todos os estados e regiões do país, além de participações internacionais. A última marcha aconteceu há dez anos, em 2015.
O lançamento do comitê faz parte do Planejamento do Coletivo de Mulheres da Conaq, que tem como objetivo organizar o calendário de luta das quilombolas para o período de 2025 a 2027. O colegiado pretende fortalecer a luta das mulheres quilombolas por justiça e reconhecimento pelos danos históricos sofridos por suas comunidades. Além disso, busca garantir visibilidade às demandas específicas do grupo e reforça a importância da sua participação nas questões de reparação e direitos territoriais e sociais.

Luta quilombola
A ministra Macaé endossou a presença das mulheres quilombolas na marcha, reiterou a relevância da luta quilombola pela regularização fundiária e encorajou o enfrentamento dos interesses econômicos contrários aos direitos quilombolas.
“A presença das mulheres quilombolas nessa marcha é muito efetiva, porque traz outra estética para contrapor a do capital. Pautar não só a luta contra o racismo e a violência, mas o papel das mulheres negras na produção do bem viver na nossa sociedade”, reforçou.
Evaristo falou ainda na criação de um Plano Nacional de Proteção de Mulheres Quilombolas. “Acho que essa é uma pauta para a gente construir coletivamente”.
Para a ministra das Mulheres, a proteção das quilombolas não deve incluir sua retirada dos territórios, “porque quando você tira as mulheres do território, você está fazendo o que a direita e o capitalismo querem. Você salva a vida física, mas não salva a vida política. Nós temos que construir um jeito em que possamos de fato defender essas mulheres, mas sem elas saírem de seus territórios. Precisamos fazer com que essa marcha seja um terremoto no país, que balance as estruturas, que balance o cenário político na localidade, no quilombo, no município, no estado, e que faça tremer Brasília”, enfatizou.

Gonçalves apontou que a marcha acontece em um momento de avanço mundial da direita, que se coloca ostensivamente contra os direitos, corpos, vozes e falas das mulheres. “O que está acontecendo no mundo tem consequências na nossa vida cotidiana. Nós temos um desafio que é discutir a Lei da Violência Política de Gênero, porque, para mim, as nossas defensoras quilombolas que morreram defendendo o território também sofreram violência política de gênero. E essa discussão que vocês trazem sobre o papel das defensoras dos territórios é fundamental”.
Paula Balduíno também ressaltou a importância da marcha, considerando que as mulheres negras formam a maior parte da população brasileira. “Essa marcha mostra quais são as nossas fortalezas e necessidades. Promover a igualdade racial também é promover equidade de gênero”, acrescentou.
Vinólia Andrade reiterou a importância da voz das mulheres quilombolas para ecoarem suas principais necessidades. “Quando a gente fala de reparação histórica, a gente não quer listar só o que veio da escravidão, mas a gente quer reparar o hoje. A gente precisa dizer o que é bem viver para todas nós, para a população negra não só desse país, mas do mundo. Nós mulheres negras temos essa resposta para dizer para o Brasil que nós existimos”.
Coordenadora executiva da Conaq, Laura Silva pontuou a importância da marcha para a visibilidade das pautas e das necessidades das mulheres quilombolas em outros “universos”. “A gente pede por justiça, direito e garantia de sobrevivência e sustentabilidade dentro dos nossos territórios. Garantia da gente não ter nossas mulheres tombadas e que nossas lutas não sejam pagas com nossos corpos”, reforçou.
Defensores de Direitos Humanos
A ministra Macaé Evaristo destacou ainda a importância de aprimorar o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), do ministério dos Direitos Humanos, para garantir a proteção das mulheres quilombolas e evitar que situações como a do assassinato de Mãe Bernadete se repitam. “Quando a gente pensa em violação de direitos no nosso país, infelizmente, nós estamos olhando para as mulheres negras”, lamentou.
“Por mais que o programa se efetive, em muitos casos a gente chega depois que a violência aconteceu. A gente precisa se antecipar, ter indicadores, monitoramento dos territórios. Não é possível fazer isso se não tiver uma rede que atue de maneira articulada com a perspectiva da gente se proteger mutuamente, coletivamente, inclusive para saber acionar o programa antes que a tragédia aconteça”.
Bem viver quilombola
Durante o evento, uma carta com dezesseis motivos que explicam “por que as mulheres quilombolas vão marchar?” foi lida para as autoridades e parcerias presentes. O documento foi elaborado pelo Coletivo de Mulheres da Conaq, que se dividiu em grupos de trabalho para produção e sistematização do texto. Confira:
1 - Pela regularização fundiária e titulação dos territórios quilombolas;
2 - Por reparação histórica por parte do estado brasileiro pelas dores geradas pela escravização das mulheres quilombolas;
3 - Pela concretização dos direitos constitucionalmente garantidos, como acesso à água, luz, saneamento e condições de permanência no território;
4 - Pela desburocratização do acesso ao CAF Quilombola para garantia do acesso às políticas públicas do MDA e Incra;
5 - Pela ampliação e democratização do acesso ao CAR Quilombola, garantido pelo estado brasileiro nos níveis federal, estadual e municipal;
6 - Pela aplicação, cumprimento e fortalecimento do Plano Nacional de Saúde Quilombola;
7 - Pelo reconhecimento e valorização dos saberes ancestrais;
8 - Pela soberania alimentar e a garantia da participação quilombola nos conselhos de direitos humanos a nível federal, estadual e municipal;
9 - Pela garantia da justiça climática e o combate ao racismo ambiental;
10 - Pela proteção da vida e dos direitos das quilombolas defensoras de direitos humanos;
11 - Pelo combate à violência psicológica, física, patrimonial, territorial contra as mulheres quilombolas;
12 - Pela ampliação e democratização do acesso das mulheres quilombolas às políticas públicas;
13 - Pela garantia do orçamento público para as políticas de geração de renda destinadas às atividades das mulheres quilombolas;
14 - Pela ampliação e garantia do acesso às políticas públicas de saúde e pela construção de postos e unidades de saúde em nossos territórios;
15 - Pela qualificação das mulheres e fortalecimento da educação escolar quilombola, além da construção de escolas nos territórios;
16 - Pela garantia de um espaço efetivo às mulheres quilombolas enquanto protetoras de suas próprias narrativas na Marcha das Mulheres Negras em 2025.