A Bacia do Rio Xingu é uma região entre os estados do Mato Grosso e do Pará que simboliza a diversidade socioambiental brasileira. Uma diversidade de povos, florestas e rios que nascem no Cerrado e desembocam na floresta Amazônica, no centro do território nacional.
Essa diversidade socioambiental do Xingu está em grande parte abrigada dentro de um "corredor" de áreas protegidas (terras indígenas e unidades de conservação) que representa 50% da área da Bacia do Xingu. Essas áreas protegidas e suas florestas, conectadas entre si, abrigam uma das mais ricas biodiversidades do planeta e 26 povos indígenas e populações ribeirinhas, que resistem e insistem em existir como parte do presente - e do futuro - do Brasil.
Hoje, o Xingu é palco de conflito entre estes modos de vida e um modelo econômico baseado em atividades predatórias que envolvem desmatamento, queimadas, uso intensivo de agrotóxicos, garimpo, exploração ilegal de madeireira, grilagem de terras, construção de hidrelétricas, ferrovias e estradas.
As florestas, rios e povos do Xingu são o escudo contra a devastação que avança Brasil adentro. Na bacia estão localizados os municípios e terras indígenas com as maiores taxas de desmatamento dos últimos 10 anos na Amazônia Legal. As nascentes do rio Xingu já perderam mais de 40% de sua cobertura florestal.. Apesar disso, a diversidade socioambiental e a incrível resiliência dos povos do Xingu representam uma oportunidade concreta de pactuação de um novo modelo de desenvolvimento e de relacionamento com a floresta e seus povos.
É para isso que nós do ISA trabalhamos há quase três décadas com o pé no chão, com equipes e escritórios nas cidades de Canarana (MT) e Altamira (PA), junto a nossos parceiros locais, em três linhas de trabalho: Economia da Floresta, Restauração Florestal e Proteção Territorial.
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A Bacia do Rio Xingu é uma região entre os estados do Mato Grosso e do Pará que simboliza a diversidade socioambiental brasileira. Uma diversidade de povos, florestas e rios que nascem no Cerrado e desembocam na floresta Amazônica, no centro do território nacional.
Essa diversidade socioambiental do Xingu está em grande parte abrigada dentro de um "corredor" de áreas protegidas (terras indígenas e unidades de conservação) que representa 50% da área da Bacia do Xingu. Essas áreas protegidas e suas florestas, conectadas entre si, abrigam uma das mais ricas biodiversidades do planeta e 26 povos indígenas e populações ribeirinhas, que resistem e insistem em existir como parte do presente - e do futuro - do Brasil.
Hoje, o Xingu é palco de conflito entre estes modos de vida e um modelo econômico baseado em atividades predatórias que envolvem desmatamento, queimadas, uso intensivo de agrotóxicos, garimpo, exploração ilegal de madeireira, grilagem de terras, construção de hidrelétricas, ferrovias e estradas.
As florestas, rios e povos do Xingu são o escudo contra a devastação que avança Brasil adentro. Na bacia estão localizados os municípios e terras indígenas com as maiores taxas de desmatamento dos últimos 10 anos na Amazônia Legal. As nascentes do rio Xingu já perderam mais de 40% de sua cobertura florestal.. Apesar disso, a diversidade socioambiental e a incrível resiliência dos povos do Xingu representam uma oportunidade concreta de pactuação de um novo modelo de desenvolvimento e de relacionamento com a floresta e seus povos.
É para isso que nós do ISA trabalhamos há quase três décadas com o pé no chão, com equipes e escritórios nas cidades de Canarana (MT) e Altamira (PA), junto a nossos parceiros locais, em três linhas principais de trabalho: economia da floresta, restauração florestal e proteção territorial.
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Canoada Xingu chega à sétima edição e convida turistas a remar pelos desafios da Amazônia
Liderada pelo povo Juruna/Yudjá, a Canoada Xingu é uma expedição de 110km a remo pela Volta Grande do Xingu e acontece entre os dias 22 e 27 de novembro
A Canoada Xingu é uma experiência única de imersão na Amazônia, um mergulho profundo na natureza, na cultura e na realidade socioambiental de uma das regiões mais emblemáticas e ameaçadas da Amazônia, em um ano crucial para o futuro do Brasil e do planeta.
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Canoada Xingu reforça o vínculo histórico e cultural com o rio e a identidade Juruna/Yudjá, e promove o turismo comunitário|Marcelo Soubhia/ISA
A expedição é liderada pelo povo Juruna/Yudjá, canoeiros ancestrais do Xingu, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e a Mazô Maná, com apoio do Fundo Amazônia e da Amazon Watch.
A primeira edição da Canoada aconteceu em 2014 como ato de defesa do Rio Xingu que passou a ser ameaçado pela construção e operação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Foi também um ato de resistência para chamar a atenção do mundo para os impactos de Belo Monte sobre rios, florestas e o modo de vida dos povos da Volta Grande do Xingu.
Hoje, a Canoada Xingu reforça o vínculo histórico e cultural com o rio e a identidade Juruna/Yudjá. Também mobiliza toda a comunidade em torno de uma atividade de turismo comunitário que faz frente ao desmatamento e à degradação, e que permite expressar a história de luta do povo pela vida em seu território ancestral.
A Canoada Xingu
A jornada acontece de 22 a 27 de novembro de 2025 na Volta Grande do Xingu, no Pará. A expedição parte de Altamira, município que mais emite gases do efeito estufa no Brasil, e percorre aproximadamente 110km a remo pelo Rio Xingu em direção à Terra Indígena Paquiçamba. Os viajantes remam em canoas tradicionais de madeira, conduzidos por experientes guias Juruna/Yudjá, testemunham as transformações causada por Belo Monte, conhecem as ameaças de Belo Sun, o novo projeto de mineração que pretende se instalar na região, vivenciam a biodiversidade única da Volta Grande e visitam aldeias e lugares sagrados da cultura Juruna/Yudjá, como a cachoeira do Jericoá, que é o símbolo do surgimento do mundo em sua mitologia.
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A 5ª Canoada Xingu aconteceu entre os dias 3 a 8 de setembro de 2018, percorrendo mais de 100 km da Volta Grande do rio Xingu (PA)|Marcelo Soubhia/ISA
Agenda da Canoada
● Dia 1: Chegada dos participantes e deslocamento para o Retiro Betânia, onde acontece uma reunião com os guias da Canoada, instruções sobre os protocolos de segurança e organização final de equipamentos. ● Dia 2: Início da Canoada. Saída de Altamira rumo à Praia do Tucum, onde acontece uma roda de conversa sobre os impactos de Belo Monte. Pernoite na Praia do Caju. ● Dia 3: O grupo rema até a Praia do Choro, na Terra Indígena Paquiçamba, onde irá pescar e participar de uma roda de conversa sobre o Território Juruna. ● Dia 4: Dia de atividades em terra. O grupo fará uma trilha até a Ilha do Zé Maria e depois participará de atividades de mergulho e observação de peixes, além de assistir a apresentações culturais. O pernoite, novamente, acontece na Praia do Choro. ● Dia 5: A Canoada segue para Jericoá com paradas para banho de rio e conversas. ● Dia 6: O dia começa com visita à cachoeira do Jericoá. No horário do almoço, há a opção de retornar à Altamira em uma viagem de carro que leva cerca de duas horas. Para quem ficar, há a opção de visitar a cachoeira do Camaleão e pernoitar em Jericoá. ● Dia 7: Após o café da manhã, o grupo parte para Altamira em uma viagem de carro que leva cerca de duas horas.
Observações: Pernoites são feitos em barracas nas praias ou em redes com mosquiteiros. Os participantes são responsáveis por levar seus equipamentos pessoais como, redes, mosquiteiros e barracas.
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Card/Divulgação
Sobre os Juruna/Yudjá
Os Juruna/Yudjá são o povo canoeiro da Volta Grande do Xingu que habita, desde tempos imemoriais, as ilhas e penínsulas do Baixo e Médio Xingu, um dos rios mais importantes da Amazônia Meridional. Há cerca de cem anos, em consequência dos ataques sofridos contra sua população por parte das frentes de expansão não-indígenas na região, os Juruna/Yudjá acabaram se dividindo em dois grupos. Uma parte do coletivo indígena, cerca de doze pessoas, permaneceu na Volta Grande do Xingu criando a Terra Indígena Paquiçamba e preservando o território ancestral. Outra parte, cerca de 150 pessoas, remaram para a região do Alto Rio Xingu e se estabeleceram no Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso, preservando a língua e outras tradições culturais.
Desde 2011, esses dois grupos protagonizam um processo de intercâmbio e de trocas entre parentes para reforçar sua matriz cultural e suas relações de parentesco após mais de cem anos de separação, marcados pelos impactos da colonização, do ciclo da borracha, da abertura da Transamazônica e, mais recentemente, da usina de Belo Monte. A Canoada no Xingu reforça esse vínculo histórico e cultural com o rio, paisagem viva da memória passada e presente da identidade Juruna/Yudjá. Remar junto aos Juruna/Yudjá da Volta Grande é celebrar esse vínculo de luta, resistência e a história de defesa pela vida e pelas águas do Rio Xingu.
Pacotes
O pacote individual custa R$ 9.900,00 . O valor inclui hospedagem em Altamira, deslocamentos locais, refeições durante toda a jornada, guias, canoas e remos, coletes, equipe médica de apoio e registros audiovisuais. O pacote não incluí o trajeto aéreo até Altamira, no Pará, barracas, redes, mosquiteiros e itens de uso pessoal.
Para mais informações sobre valores e reservas (WhatsApp): +55 93 99129‐2846.
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Festival do Rio destaca “O Pai e o Pajé”, documentário sobre fé e identidade do povo Kaiabi
Documentário foi selecionado para a categoria ligada à COP30 e mergulha nas visões de uma família indígena diante da presença do cristianismo no Xingu
O Festival do Rio, um dos mais importantes eventos do cinema brasileiro, terá em sua programação a exibição de “O Pai e o Pajé”, documentário dirigido por Iawarete Kaiabi e co-dirigido por Felipe Tomazelli e Luís Villaça. A obra foi selecionada para a mostra Première Brasil: Estado das Coisas, uma curadoria de filmes que dialogam com os temas da COP 30, e será apresentada ao público nos dias 08, 09, 10 e 11/10, com debate após a exibição no dia 09/10.
O longa aparece ao lado de títulos como “Reconhecidos”, “Com Causa”, “Itacoatiaras”, “Rua do Pescador, nº 6”, “Do outro lado do pavilhão”, “Invencíveis”, “Pau d’Arco”, “Cadernos Negros” e “Na onda da Maré”.
Em “O Pai e o Pajé”, Iawarete Kaiabi volta-se para dentro de sua própria família para entender os caminhos de aprendizado com seu tio Pajé e seu pai Pastor. Em um relato íntimo, ele reflete se possível uma coexistência entre as duas visões de mundo dentro do seu povo, com a permanência das tradições ancestrais no Território Indígena do Xingu.
Mais do que um registro pessoal, o filme expõe a ação de missionários evangélicos na região e os impactos profundos que essa presença tem causado ao tecido social e identidade das diferentes etnias que vivem no Xingu.
Para quem estiver em São Paulo, o filme vai compor a categoria Mostra Brasil, na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que acontece entre os dias 16 e 30 de outubro. A programação conta com 373 filmes, vindos de 80 países, que serão exibidos em 52 salas de cinema, espaços culturais e CEUs espalhados pela capital paulista. Adquira os ingressos aqui.
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Nota de pesar pelo falecimento de Olympio Serra, pioneiro na defesa do protagonismo indígena
Antropólogo que dirigiu o Parque Indígena do Xingu após Orlando Villas-Bôas marcou o indigenismo brasileiro ao nomear os primeiros chefes de posto indígenas na Funai
Olympio Serra discursa em março de 2023, no Auditório 2 de Julho, na Reitoria do IFBA, em Salvador|Gilberto Amorim/IFBA
O Instituto Socioambiental (ISA) se despede de Olympio Trindade Serra com tristeza e deferência. Podemos dizer, sem medo de exagerar, que bem antes de se falar em "protagonismo indígena", ou de estar estruturado o campo político que triunfou na Constituição de 1988 para os direitos dos povos indígenas, houve um antropólogo que, ineditamente, nomeava dois indígenas para assumirem cargos administrativos na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que, até então, eram exercidos exclusivamente por funcionários não indígenas.
Olympio Serra foi diretor do Parque Indígena do Xingu (PIX) depois de Orlando Villas-Bôas. Aliados e companheiros, Olympio concebeu, delicadamente, seu conceito de gestão do PIX que admitia, ser ali, não uma dádiva da política pública para povos indígenas, mas sim um território que pudesse ser apropriado por quem deu-lhe conteúdo e consistência.
Megaron Txukarramãe e Mairawë Kayabi foram nomeados "Chefes de Posto" do Diauarum (no Médio PIX) e do Kretire (no Baixo PIX) por Olympio Serra. Apenas o Alto PIX, onde se localiza ainda hoje o Posto Indígena Leonardo Villas-Bôas, manteve um funcionário não indígena da Funai que, ainda assim, em 1987 passou a ser gerido por Pirakumã Yawalapiti, expressando o legado de Olympio para a política indigenista naquela terra indígena que, por muitos anos, insistia-se ser a última reserva indígena possível de um Brasil militarizado e desenvolvimentista.
O ISA ouviu a antropóloga Ana Gita de Oliveira, discípula de Olympio Serra, e sua amiga de "todos os momentos", como ela mesma expressa. Gita concorda que foi ele o grande responsável por realizar em uma Funai da ditadura militar, coordenado o setor de estudos e pesquisas da autarquia. São palavras dela: "naqueles tempos sombrios, [Olympio] teve a coragem de chamar antropólogos para implementarem um grande projeto de esperança para os povos indígenas por meio de políticas específicas, uma iniciativa inédita e progressista com grande repercussão no campo indigenista". A consequência da ousadia resultou na demissão dele e de outros tantos antropólogos que se posicionaram contra os desmandos dos militares.
Fora da Funai, relata Gita, Olympio foi chamado por Aloisio Magalhães para integrar o corpo de pesquisadores da então recém criada Fundação Nacional Pró- Memória, onde me acolheu e, juntos, criamos a setor de Etnias e Sociedade Nacional, inédito no campo das políticas de salvaguarda do patrimônio cultural que teria vida institucional longa. Posteriormente, essa experiência seria integrada ao Departamento do Patrimônio Imaterial do IPHAN, que em sua história recente pode, também de forma inédita, tratar das políticas de salvaguarda dos povos indígenas, dos movimentos negros, quilombolas e das comunidades tradicionais.
Em 1994, Olympio Serra foi chamado por Megaron Txukarramãe, então diretor do PIX, para compor a diretoria da ONG Associação Vida e Ambiente criada por seu tio, Raoni Metuktire, com o apoio de seu amigo, o cantor Sting.
Importante mencionar a defesa de Olympio em favor dos terreiros de candomblé e de todos os movimentos negros – ou de pretos – como dizia. Dentro da Fundação Pró-Memória, herdada pelo Iphan no Ministério da Cultura, ele fazia lembrar, incansavelmente, que a presença da cultura imaterial de pretos e indígenas era tão ou mais importante do que a salvaguarda dos patrimônios de origem europeia geralmente representados pela materialidade de casarões portugueses. A presença indígena nos blocos de pretos do carnaval da Bahia era - e ainda é - como ele insistia, a maior prova dessa sempre viva herança cultural.
Siga em paz, Olympio! Você vai fazer falta.
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ExpoTix promove festival de diversidade e movimenta as economias do Xingu
De colar de caramujo a sal de aguapé, feira do Território Indígena do Xingu celebra produção indígena, denuncia ameaças e busca apoio para futuras edições
A artesã Babalu Kuikuro, que vive na Aldeia Yawalapiti, no Território Indígena do Xingu (TIX), é conhecida pelos colares de caramujo - a joia do Xingu - que ela confecciona desde muito jovem. Ela aprendeu a fazer os colares com o seu pai e carrega nas mãos as marcas do ofício: a peça é feita com lâminas delicadas moldadas a partir das conchas de caramujo do Cerrado, que a cada dia estão mais difíceis de serem encontradas.
Tamuwa Wauja e sua companheira, Atapuwalu Wauja, da Aldeia Piyulaga, no Alto Xingu, são produtores de sal de aguapé, extraído das cinzas do aguapé, planta aquática manejada pelas famílias xinguanas.
Primeiro vem a coleta da planta aquática e, em seguida, acontece o longo processo de secar, cozinhar, desidratar e pilar. O resultado é um sal fino, claro e saboroso. “Esse é um tempero bastante usado com peixe assado e pirão. Pode ser puro ou misturado com pimenta. E é usado no Xingu todo também como remédio”, explica Tamuwa. Além dos Wauja, os principais produtores do sal de aguapé são os Aweti e Mehinaku.
Já Kumesiperiru Wauja é produtora de héjés - ou tachos para fazer beiju -, panelas, xícaras e outros utensílios feitos com argila, matéria-prima que leva até cinco horas de caminhada para ser encontrada. O cauxi (esponja de água doce), também usado nos objetos, está cada vez mais raro no Xingu devido às mudanças climáticas. As peças são desejadas por sua beleza e por terem uso antigo e tradicional, sendo ideais para a culinária indígena.
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Peças de Kumesiperiru Wauja, produtora de cerâmica tradicional, são desejadas pela beleza e utilidade na culinária indígena|Ana Amélia Hamdan/ISA
Os colares de caramujo, o sal de aguapé - delicadamente guardado em embalagem de folhas secas - e a cerâmica Wauja compuseram, junto com outros produtos, um verdadeiro festival de diversidade na 2ª ExpoTix - Feira e Exposição dos Produtos do Território Indígena do Xingu, entre os dias 16 e 19 de setembro, na aldeia Khikatxi, TI Wawi. Este ano, a ExpoTix comemorou também os 30 Anos da Associação Terra Indígena Xingu (ATIX).
O encontro teve a participação de representantes dos 16 povos do TIX e contou com cerca de 700 pessoas, principalmente indígenas. Povos de fora, como os Xavante e Panará, também estiveram presentes. Na parte cultural, aconteceram danças e cantos tradicionais. As apresentações incluíram um desfile de trajes típicos dos povos, com a participação da atriz e influencer Simone Sampaio, e show do DJ Eric Terena. Os comunicadores indígenas da ATIX e da Associação Indígena Khisêtjê (AIK) fizeram a cobertura do evento.
Presidente da ATIX, Ianukulá Kaiabi Suia considera que a ExpoTix promove a compra e venda de produtos, mas vai muito além. O encontro valoriza a roça e a comida tradicional, promove o intercâmbio entre os povos, fortalece o território e as economias do Xingu, combatendo a visão preconceituosa de que o indígena não produz.
A ATIX já planeja a terceira edição e, para isso, lançou a Carta da 2ª ExpoTix, que denuncia pressões que colocam em risco os modos de vida e produção dos povos do Xingu, desde o agronegócio até a alimentação ultraprocessada. O texto também indica e cobra apoio e políticas públicas que fortaleçam os povos, a cultura e as economias da sociobiodiversidade dos xinguanos.
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Na parte cultural, aconteceram danças, cantos tradicionais e um desfile de trajes típicos dos povos|Kamikia Khisêtjê
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A diretora de Etnodesenvolvimento Territorial da ATIX Watatakalu Yawalapiti e a atriz Simone Sampaio|Ana Amélia Hamdan/ISA
“Esse nosso projeto mostra que as terras indígenas têm produções que não são conhecidas e precisam ser valorizadas. Estamos dizendo para a sociedade não indígena e até para nós mesmos que os nossos produtos são todos orgânicos e deveriam ser reconhecidos e valorizados no mundo comercial também. Além disso, as nossas manifestações culturais estão fortemente ligadas aos nossos produtos das roças. Não é por acaso que existe a Festa do Pequi, a Festa da Mandioca, a Festa do Milho. Estamos falando de dinheiro, compra e venda, mas o nosso sistema tradicional de troca também permanece, com a realização do Moitará”, disse. O Moitará (troca) é um ritual tradicional de trocas e partilhas.
Produtores que participaram da ExpoTix aprovaram a feira e já se preparam para a próxima edição.
“Achei muito bom. Eu vendi bastante e também fiz muitas trocas. Eu trouxe para casa colar de tucum do pessoal do Baixo Xingu, farinha dos Khisêtjê, cestaria, urucum e também peixe seco. Esses foram os produtos que eu trouxe da ExpoTix”, conta Babalu Kuikuro. Ela também conseguiu a matéria-prima para confeccionar seus colares. Bernardina Xavante, da aldeia Abelhinha, Terra Indígena Sangradouro, encontrou as conchas na sua região, levou para a feira e trocou com Babalu, que entregou miçangas a ela.
Kumesiperiru, a artesã do povo Wauja, também vendeu e trocou peças. Ao fim da feira, levou na sua bagagem farinha Kaiabi, banana Khisêtjê e goiaba da mata para plantar.
Para o produtor Yaiku Tapayuna, da Associação Tapayuna (AIT), outra importância da feira é a troca de experiências. “A importância da feira é cada um conhecer a produção do outro e trocar experiências. Isso é importante para manter nossa cultura, nossa tradição e nossa forma de trabalhar. E isso depende da nossa organização. Na feira, estamos todos animados, mulheres, jovens e os parceiros. A feira é importante e mostra a nossa diversidade cultural e de alimentos”, diz.
Coordenador do Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), Roberto Rezende esteve na comemoração dos 30 Anos da ATIX e na ExpoTix. Ele ressaltou a importância da diversidade presente na feira, resultado dos modos de vida e produção dos povos indígenas.
“A gente vê aqui cerâmica, tecidos, cestaria, artesanato, comida, beiju, peixe. Mas há produções que resultam das práticas dos povos do Xingu que não cabem em nenhuma exposição. Enquanto o modelo não indígena de produção não gera diversidade e está causando degradação, o modelo diverso dos povos indígenas está interligado à floresta, que produz água, regula o clima”, explicou. “Então, sempre que alguém disser que os povos indígenas produzem pouco, podemos dizer que produzem muito, inclusive porque também produzem o mais essencial hoje: a regulação do clima e a chuva. Isso está começando a ser discutido como serviço ambiental, que é você remunerar os povos que produzem floresta e que produzem diversidade com esse trabalho", disse.
Assessora do Programa Xingu do ISA, Kátia Ono também ressalta a diversidade da ExpoTix, destacando as matérias-primas - algumas raras - que foram encontradas na feira. Uma delas é a resina usada em flechas e também no artesanato.
Ao circular entre os produtores, ela encontrou ainda artesanato com cabaça e linha; peixe com beiju; sucos de frutas do Cerrado; doce de jatobá com mel; paçoca de amendoim, além do prato tradicional feito com massa de mandioca recheada de peixe e assada na folha de bananeira.
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Tecidos, cestaria, urucum fizeram parte das partilhas da ExpoTix|Ana Amélia Hamdan/ISA
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Os artesanatos e a resina usada em flechas também fizeram parte das trocas|Ana Amélia Hamdan/ISA
Essa diversidade foi vista durante toda a ExpoTix: milho, amendoim, cará, mandioca, mangaba, goiaba da mata, abacaxi, coco, cana, farinhas de vários tipos, peixe, beiju foram alguns dos alimentos expostos na feira.
Só na banca dos produtores Jamanary Kaiabi e sua companheira Kunhakatu Kaiabi, da Aldeia Guarujá, tinha farinha de peixe, farinha de fazer pirão, quatro tipos de amendoim, três tipos de milho e dois tipos de cará. Mas Jamanary alerta: “A gente depende da chuva, que já não acontece mais dentro do calendário tradicional”.
Outro produto de destaque foi o mel. Durante a ExpoTix, a ATIX e o ISA montaram um estande do projeto Mel dos Índios do Xingu. Além do produto, foram expostos informações, fotos e até os equipamentos usados para a produção.
Coordenador de Alternativas Econômica da ATIX, Tariaiup Kayabi informa que o projeto do mel envolve 87 apicultores dos povos Kayabi, Ikpeng, Khisêtjê, Matipu, Kalapalo e Kuikuro. A maior parte da produção é para consumo das famílias e da comunidade.
Ele conta ainda que, no passado, seu povo consumia o mel produzido pelas abelhas nativas e não conhecia a abelha Europa, produtoras do mel do Xingu. “Antes de conhecer, o meu povo tinha medo de comer o mel da abelha Apis, que tem ferrão. Pensava assim: como tem a ferroada, talvez o mel tenha veneno. Mas depois foi conhecendo. Os anciãos disseram que o mel da abelha Apis é parente do mel da abelha nativa e também combate a gripe. E assim valorizaram o mel da abelha Apis”, relata.
Os impactos das mudanças climáticas e do avanço do agronegócio também estão afetando a produção do mel. Queimadas e ataques de tatu-canastra foram alguns dos problemas relatados por Tariaiup ocorridos nos últimos anos. A saída encontrada pelos apicultores foi a adaptação: com a ação de brigadas, os incêndios diminuíram. E, para enfrentar os ataques de animais, o grupo está usando cavaletes mais altos, que deixam as colmeias mais protegidas.
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Estande do projeto Mel do Xingu, desenvolvido em parceria entre ATIX e ISA|Ana Amélia Hamdan/ISA
A questão da mudança climática esteve presente em várias das discussões que aconteceram dentro da programação.
“A mudança climática mudou nossos indicadores, que eram o canto do pássaro, o vento, o calor, a umidade. Com essa mudança, de repente vem a chuva. E aí atrapalha o tempo de queima da roça. Agora, a queima da roça dá mais trabalho”, disse Yaiku Tapayuna. Ele levou para a feira artesanato, farinha azeda, farinha de puba, castanha de pequi. Um produto foi destaque: a goiaba da mata, que quase ninguém conhecia.
“Veio o sistema de homem branco e primeiro achamos lindo. Mas dentro do nosso sistema de produção, ninguém coloca veneno. Na nossa tradição, o nosso adubo é a nossa fala. Temos a forma de fazer o canto para adubar a terra”, refletiu.
Na mesa da Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), conduzida por Marcelo Martins, articulador territorial do ISA, foram debatidas as políticas públicas de aquisição de alimentos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Foi trazido também o tema da adaptação, ou seja, medidas que os povos do TIX já estão tomando para se ajustarem às mudanças do clima, entre elas formas de irrigação; manejo do fogo; modos de fazer roça ou de organização das comunidades.
Liderança indígena e ativista, Watatakalu Yawalapiti, diretora de Etnodesenvolvimento Territorial da ATIX, conduziu a roda de conversa das mulheres.
“Estamos na 2ª ExpoTix e não há como não falar das mulheres quando se fala em bioeconomia. Elas cuidam das roças, fazem farinha e polvilho. E repassam esse conhecimento para os filhos e filhas. Os municípios, instituições governamentais e não governamentais precisam olhar para essas mulheres. Este ano vamos receber a COP30 e precisamos olhar para as mulheres que fazem a sustentabilidade dentro dos territórios indígenas”, disse.
Durante o debate, a questão da qualidade da alimentação foi um dos temas de destaque, com a preocupação com o consumo de ultraprocessados trazidos de fora. Consta da Carta da 2ª ExpoTix a ampliação da alimentação tradicional nas escolas e também nas unidades da saúde indígena.
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Sal de aguapé, guardado em embalagem de folhas secas: produto é usado como tempero e remédio|Ana Amélia Hamdan/ISA
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Peixe com beiju faz parte da cultura alimentar xinguana|Ana Amélia Hamdan/ISA
A médica sanitarista Sofia Mendonça, coordenadora do Projeto Xingu da Unifesp, fez uma apresentação indicando a mudança nas doenças que predominam no território, com o avanço de doenças não transmissíveis, como diabetes e hipertensão, muitas vezes ligadas a hábitos alimentares. Ela ressaltou a importância da feira também para saúde, já que valoriza a alimentação tradicional e saudável.
Liderança jovem, Lewaiki Khisêtjê trouxe reflexões sobre a potência das economias indígenas.
“Com esses projetos sustentáveis que a gente tem, podemos mostrar para as pessoas que existe uma economia diferente, não uma economia que destrói tudo, que está matando o nosso planeta. Então, esse é o momento exato de mostrar os nossos produtos da roça, os nossos projetos nos territórios e fazer uma educação para o não indígena, de como preservar, de como manter a floresta em pé. A gente tem a nossa renda, que beneficia a comunidade e os povos. A gente não quer o lucro só pra gente, como o agro quer. Para nós, a sociobioeconomia é isso”, resumiu.
O encontro foi realizado pela ATIX em parceria com a Secel/MT, Governo de Mato Grosso, Ministério da Cultura e Governo Federal, no âmbito do edital Feiras de Economia Criativa e Solidária – Edição Lei Paulo Gustavo, com apoio da Embaixada da França no Brasil, Energisa MT, Funai, Instituto Socioambiental (ISA), Dsei - Xingu, Unifesp (Projeto Xingu), Imaflora, Rede de Sementes do Xingu, Rede Xingu Mais, AIK Produções e Coiab.
Resistência e celebração: ATIX comemora seus 30 anos com cerimônia tradicional
A Associação Terra Indígena Xingu (ATIX) celebrou seus 30 anos de criação com uma grande festa tradicional na aldeia Khikatxi, do povo Khisêtjê. O evento marcou três décadas de luta, resistência e dedicação à preservação da vida e da cultura no Xingu. A solenidade de abertura foi carregada de significado, com o povo Khisêtjê acompanhando a diretoria da ATIX da casa do cacique Kuiussi Suya até o centro da aldeia (Ngá).
Durante a cerimônia, o cacique Kuiussi Suya expressou sua profunda alegria em sediar o encontro, que reuniu representantes de diversos povos: Kuikuro, Wauja, Matipu, Mehinako, Yawalapiti, Kalapalo, Nahukwá, Ikpeng, Awetí, Kamaiurá, Yudjá (Juruna), Kawaiwete (Kaiabi), Trumai, Khisêtjê (Suia) e Kajkwakratxi (Tapayuna).
Em sua fala, o presidente da ATIX, Ianukulá Kaiabi Suya destacou a mensagem central da celebração, que contou com a presença de parceiros. O secretário executivo do ISA, Rodrigo Junqueira, o coordenador do Programa Xingu, Roberto Rezende, o coordenador-adjunto do Programa Xingu, Ivã Bocchini, e outros membros da equipe estiveram presentes.
"A gente chega nos 30 anos da ATIX com a mensagem principal: 30 anos de luta, 30 anos de resistência. A ATIX consegue mostrar à sociedade não indígena que é possível adotar alguns sistemas de organização do "homem branco" ao seu próprio jeito, preservando e protegendo a instituição e a floresta por muitos anos”, disse Ianukulá Kaiabi Suia.
As celebrações contaram com a presença de ex-presidentes da ATIX e lideranças, entre eles Winti Suia, Mairawe Kaiabi e Tapi Yawalapiti. A celebração incluiu competições tradicionais, como torneio de arco e flecha e corrida, reafirmando a força da tradição dos povos do Xingu.
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‘Memórias do Cacique’: Raoni nos fortalece e ensina a sonhar
Trajetória em defesa dos povos indígenas ganha registro inédito em livro escrito com seus netos, com ensinamentos sobre política, espiritualidade e cosmologia Mẽbêngôkre-Kayapó
O cacique Raoni Mẽtyktire lançou na última terça-feira (09/09), no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, o livro Memórias do Cacique. Reconhecido como uma das vozes mais influentes do Brasil na defesa dos povos indígenas e de seus territórios, Raoni iniciou seu ativismo em 1960, aprendeu português e teve papel fundamental na demarcação de Terras Indígenas e no reconhecimento dos direitos indígenas na Constituição de 1988.
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“Me escutem! Minhas palavras são para o nosso bem viver, quero que vocês sejam felizes”, disse Raoni Mẽtyktire emocionado durante a cerimônia de lançamento de seu livro|Kamikia Kisedje/Rede Xingu+
O lançamento contou com a mediação de Danna Dantas (Companhia das Letras) e a participação de Raoni Mẽtyktire, seus netos Beptuk Metuktire, Patxon Mẽtyktire, Paimu Txucarramãe, e do antropólogo Fernando Niemeyer.
Sua biografia vai muito além da longa trajetória em defesa dos povos indígenas: reúne um percurso etnográfico sobre a vida social, mitologia e cosmopolítica Mẽbêngôkre-Kayapó a partir de suas memórias e sonhos.
Raoni pertence ao povo Mẽbêngôkre, também conhecidos como Kayapó, subgrupo Mẽtyktire e falantes de línguas do tronco macro-jê.
Em Memórias do Cacique, o leitor acompanha a trajetória de Raoni Mẽtyktire a partir da conversão da sua memória oral em sua língua materna para a forma escrita em português brasileiro.
Os relatos, dirigidos inicialmente a seus netos, foram por eles traduzidos e editados em parceria com o antropólogo Fernando Niemeyer, que elaborou a pesquisa e o roteiro para orientar as entrevistas.
Muitos netos de Raoni participaram da elaboração da obra, principalmente os que assinam o prefácio, Beptuk Metuktire, Patxon Mẽtyktire e Paimu Txucarramãe compartilharam com o público a trilha de construção de Memórias do Cacique.
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“Todas essas histórias irão servir para as próximas gerações, para os Mebêngôkre-Kayapó que não vão conhecer o meu avô, mas poderão conhecer essa história”, afirmou Paimu Txucarramãe sobre a importância do livro|Kamikia Kisedje/Rede Xingu+
“Começamos desde o início com outros netos, como o finado Bepro, que foi uma das pessoas mais importantes nessa construção, e o Roiti Metuktire. Foi um trabalho de união e harmonia, em que todos nós estávamos juntos, aprendendo e compartilhando as mensagens do nosso avô. O processo de construção do livro é como um museu de conhecimento e quando nosso avô se for, nós seremos o museu dele. Vamos continuar transmitindo para nossos filhos e netos tudo que aprendemos durante a construção do livro”, compartilhou Beptuk Metuktire.
Patxon Mẽtyktire contou que sempre traduziu assuntos políticos para o seu avô. Ser um dos tradutores de Memórias do Cacique levou-o a entrar em contato com todo o universo cosmológico presente na memória de Raoni.
“Foi um aprendizado, pois ele contou coisas que a gente não sabia, da época dele de criança antes do contato. Ele falou sobre suas primeiras visões de pajé, a maneira como os Mẽbêngôkre-Kayapó se relacionam socialmente, as falas rituais, e teve um momento que olhamos um para o outro e perguntamos, e aí, como vamos traduzir isso para o português?”, contou durante a cerimônia.
“Eles sentiram o peso dessa responsabilidade. Na cultura deles é dever de um avô explicar a tradição e é dever de um neto aprender com o avô. Vimos eles fazendo deste livro um processo da reprodução da cultura Mẽbêngôkre-Kayapó de outra forma”, disse Fernando Niemeyer.
Para o antropólogo, que atua com os Mẽbêngôkre-Kayapó desde 2011, Raoni é eterno e é uma honra ser conterrâneo e contemporâneo dessa grande liderança.
“Daqui a muitos séculos Raoni será lembrado, e ele deixar esse livro para as próximas gerações Kayapó, e para a nossa sociedade, é uma contribuição muito importante que ele queria trazer. Tivemos o privilégio de apoiá-lo. Quem está perto dele sente essa força e vocês, que estão no mesmo espaço que ele, conseguem sentir a força que ele carrega”, disse.
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O antropólogo Fernando Niemeyer foi o responsável pela pesquisa e organização da publicação, com os netos linguistas e comunicadores de Raoni Mẽtyktire|Kamikia Kisedje/Rede Xingu+
“É uma trajetória que, espero, nós tenhamos coragem para chegar perto do que o nosso avô é”, afirmou emocionado Patxon Mẽtyktire.
Com a biografia, Raoni deixa ensinamentos muito importantes sobre sua luta, como a demarcação de territórios e conquistas de direitos para os povos indígenas. Ele também ensina que sua luta política é indissociável da dimensão xamânica, do lugar que ele acessa como pajé, da sua relação com os espíritos dos animais, dos peixes, das chuvas e dos ventos.
“Quero aproveitar e falar sobre minhas visões, pois sou pajé também. Tenho visto várias coisas, por exemplo: cheguei a encontrar os donos dos ventos e eles me mostraram que os ventos fortes estavam arrancando todas as folhas. Eu vi. Pude ver também pessoas que tem luz. E eles me disseram que essas ações na terra, como desmatamento, traz calor cada vez mais forte. Sei que na Câmara tem projetos de destruição e fico preocupado com a consequência que isso pode trazer para nós. Coisas muito ruins podem acontecer.”
Para Raoni, ao desmatar não perderemos apenas árvores, mas todo um universo de espíritos, fundamentais para o equilíbrio da vida.
Ele mostra também como o sonho é importante, uma forma de agir no mundo e transformar a realidade, algo que outros intelectuais indígenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak trazem em seus livros: uma forma de agir no mundo. Com um estilo que aproxima o leitor das memórias e dos sonhos dos Mẽbêngôkre-Kayapó, Raoni convida a sonhar a partir da cosmologia de seu povo, em uma narrativa que torna o estado de vigília como um importante momento para as decisões que orientam a política e a vida social entre os Mẽbêngôkre-Kayapó desafiando a maneira como a sociedade não indígena não leva em consideração a importância dos sonhos para suas vidas.
Beptuk Metuktire disse que, durante a construção do livro, seu avô sempre falou que é pajé e os netos sabem que ele é pajé. “Eu costumo comentar que enquanto estávamos gravando o meu avô surgiam cobras e corujas na janela do quarto, nos olhando. Acredito que era o chamado da natureza para construir esse livro”.
Entender como podemos aprender a sonhar, como Raoni, talvez seja o primeiro passo para escutar o chamado da natureza e viver em paz.
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A deputada federal Célia Xakriabá marcou presença na cerimônia de lançamento do livro, celebrando a trajetória de luta e resistência do cacique|Kamikia Kisedje/Rede Xingu+
O livro Memórias do Cacique é uma publicação da Companhia das Letras e contou com o apoio do Instituto Socioambiental (@socioambiental), do Instituto Sociedade, População e Natureza (@ispn_brasil) e do Instituto Raoni (@institutoraoni).
Durante a organização da cerimônia de abertura, os netos discutiram a sequência dos cantos e escolheram finalizar a cerimônia com o Kôrãti, que é um canto que os Mẽbêngôkre-Kayapó cantam para celebrar grandes conquistas. O canto consta no primeiro capítulo do livro, e faz parte do episódio mítico da origem da agricultura e diferenciação dos povos. “O livro foi uma grande vitória para nós, conseguimos concluir depois de cinco anos e estamos apresentando ele para vocês, por isso agora vamos cantar o Kôrãti:
Kôrãti…Krãtôitxô kamã arôrô arôrô ne kôrãti krãtôitxô kamã arôrô arôrô Grande surubim sobre o tracajá boia boia E o grande surubim sobre o tracajá boia, boia
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Atix comemora 30 anos de atuação com protagonismo indígena no Xingu
Criada em 1995, a Atix atuou e atua com sucesso em melhorias das condições de transporte, saúde e educação, na geração de renda, proteção do território e valorização de suas culturas
André Villas-Bôas
- Secretário executivo da Rede Xingu+ e sócio-fundador do ISA
Em 2025, a Associação Terra Indígena Xingu (Atix) completa 30 anos de trajetória marcada pelo protagonismo indígena e pela construção de novas formas de diálogo com o estado brasileiro e a sociedade.
Criada no início da década de 1990, a associação surgiu em um contexto de mudanças nas políticas indigenistas. Até então, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) concentrava praticamente todas as responsabilidades sobre os povos indígenas, como assuntos relacionados à educação, saúde, fiscalização e demarcação de terras, em uma relação marcada pelo paternalismo estatal.
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Dança Kuikuro, celebração dos 20 anos da Associação Terra Indígena do Xingu (Atix), aldeia Moygu do povo Ikpeng, Parque Indígena do Xingu (PIX)|Letícia Leite/ISA
Com a descentralização dessas políticas, lideranças dos povos do Xingu perceberam a necessidade de se organizar de forma independente para garantir seus direitos e estabelecer conversas diretas com diferentes esferas do poder público, incluindo governos estaduais e municipais, além de frentes de cooperação internacionais. Foi assim que, inspirados em modelos de organização externos à sua cultura e diante da urgência de proteção do território que fundaram a Atix para que pudessem representar seus próprios interesses.
Nesse processo, o ISA, também recém criado a partir da experiência do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), se consolidou como importante aliado dos xinguanos por muitos anos, com o papel de fortalecer a estrutura da Atix e promover capacitação técnica, respeitando a autonomia e independência dos povos. O trabalho conjunto, especialmente ao lado de Mairawê Kaiabi, primeira grande liderança da associação, foi fundamental para consolidar a atuação da entidade.
Trinta anos depois, a Atix é reconhecida pela capacidade de gestão de seus projetos, pela articulação política com governos e instituições e pelo papel central na defesa dos direitos e do território dos povos do Xingu no estado do Mato Grosso. Para o ISA, ser parceiro dessa trajetória é motivo de orgulho. A Atix tem hoje total autonomia e protagonismo. O ISA é e sempre será um aliado, mas o caminho foi e continua sendo construído pelos próprios povos do Xingu.
Para somar na articulação, foi criado em 2019 o Movimento Mulheres do Território Indígena do Xingu (MMTIX), focado na emancipação e participação das mulheres de diversas etnias da região nas decisões políticas. Elas buscam também representatividade e visibilidade, tanto dentro como fora de suas aldeias. Entre suas inúmeras ações, estão projetos de geração de renda, ações emergenciais para enfrentamento da pandemia e contra o desmatamento.
Em um cenário político que ainda impõe desafios e ameaças aos direitos indígenas, a história da Atix reafirma a importância da organização e do trabalho coletivo. Seus 30 anos celebram a memória das lideranças que a fundaram e sustentaram em atuação estratégia, mas também a força de um movimento que soube transformar adversidades em conquistas de autonomia e fortalecimento cultural.
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Livro de memórias de Raoni terá lançamento em Brasília
Um desejo de longa data da liderança histórica do povo Kayapó, obra é uma realização do Instituto Raoni e da Companhia das Letras, com apoio do ISA e do ISPN
O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) recebe no dia 09 de setembro, às 19 horas, o evento de lançamento do livro Raoni-Memórias do Cacique. A obra concretiza um desejo de longa data do Cacique Raoni, e é uma realização do Instituto Raoni em parceria com a Companhia das Letras, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). O evento será aberto ao público, haverá sessão de autógrafo com o cacique e um diálogo com Raoni, seu neto Beptuk Metuktire e Fernando Niemeyer.
Ropni, aportuguesado como Raoni, pertence ao povo Mẽbêngôkre, também conhecido como Kayapó Cacique, pajé e cuidador de seu povo, tornou-se uma liderança que conheceu o mundo dos brancos, fez alianças pessoais e políticas, dentro e fora do Brasil, e formou uma visão de mundo própria, onde não há diferença entre mito e história, revelando a complexidade do pensamento originário.
O livro foi construído a partir de entrevistas inéditas realizadas pelos tabdjwy de Raoni, seus netos, entre 2020 e 2023. Falando sempre em mẽbêngôkre, e rodeado de parentes, Raoni gravou durante dezenas de horas, em diversas sessões, as histórias e mitos que resultaram neste relato. O material foi traduzido para o português por meio de um trabalho meticuloso e extenso de uma equipe de tradutores Mêbêngôkre, sob a coordenação do antropólogo Fernando Niemeyer, que também supervisionou a redação e edição do manuscrito.
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Trajetória do cacique Raoni exalta a floresta viva, com seus espíritos, cosmovisão, modos de vida e esperança|Lilo Clareto/ISA
As memórias do cacique nos convidam a enxergar a história do Brasil pela perspectiva daqueles que sempre habitaram estas terras, que testemunharam a chegada dos invasores e que, desde então, elaboram estratégias de resistência. É a perspectiva daqueles que veem a floresta viva e repleta de espíritos como seu principal meio de existência e que lutam por ela como um ato de esperança para o futuro.
"Me comovo quando penso em Raoni, herói mítico do panteão dos guerreiros, líder da resistência nativa no continente americano com quem temos a oportunidade de conviver, alguém de cuja luta podemos ser testemunhas", compartilha Ailton Krenak.
Raoni nasceu em 1937, na região do Kapôt, norte do Mato Grosso, e tornou-se intermediário entre seu povo e os não indígenas em viagens dentro e fora do Brasil para reivindicar seus interesses coletivos e buscar alianças e recursos. Com atuação emblemática na arena política, teve importância decisiva na demarcação de vários territórios e na conquista de direitos indígenas a partir da década de 1970.
Serviço
Memórias do Cacique: Um diálogo com Raoni Mẽtyktire, Beptuk Metuktire e Fernando Niemeyer
Mediação: Danna Dantas Local: Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília (SCES, Trecho 2 - Asa Sul, Brasília/DF), aberto de terça a domingo, das 9h às 21h Data: 09 de setembro, às 19h Ingressos:bb.com.br/cultura ou na bilheteria do CCBB Brasília a partir do dia 8/9, às 12h (via link ou na bilheteria física)
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Mulheres Waurá levam cerâmica ancestral do Xingu a SP, tradição ameaçada pela crise climática
Ceramistas realizam contação de histórias, conversas e oficinas na capital paulista para compartilhar saberes e denunciar os impactos das mudanças do clima nos territórios
Yakakumalu Waurá faz panelas para cozinhar caldo de mandioca na aldeia Piyulaga. São necessários três homens para carregar uma panela|Piratá Waurá
Guardado e transmitido há mais de mil anos pelas mulheres, o conhecimento ceramista dos Waurá ou Wauja , povo que vive no Alto e no Médio Xingu, será apresentado em uma série de encontros, oficinas e rodas de conversa em museus e centros culturais da capital paulista.
A agenda começa em 30 de agosto no Museu das Culturas Indígenas (MCI), com a contação de histórias, segue em 2 de setembro no espaço Floresta no Centro, do Instituto Socioambiental (ISA), com a conversa “COP30: Mudanças climáticas e o impacto na identidade xinguana”, continua no Sesc Consolação nos dias 4 e 5 de setembro com oficinas de cerâmica e se encerra em 6 de setembro no Museu A Casa do Objeto Brasileiro, com um bate papo e uma oficina de grafismo em cerâmica.
Confira a programação completa ao final
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Além de panelas, itens decorativos e cuias fazem parte da produção das mulheres xinguanas|Cláudio Tavares/ISA
Crise climática
A cerâmica Wauja é reconhecida pela beleza, precisão técnica e forte ligação com o território, os ciclos da natureza e os rituais xinguanos. Porém, as mudanças climáticas vêm comprometendo sua continuidade.
Um dos maiores desafios é a escassez do cauxi – coral retirado do fundo dos rios e essencial para dar liga ao barro e evitar rachaduras nas peças. As secas prolongadas e as cheias cada vez mais curtas e irregulares reduziram drasticamente a disponibilidade desse recurso.
Além disso, o processo artesanal, que envolve coleta de barro, queima em madeira específica (jatobá) e pintura com grafismos tradicionais, também sofre com os impactos ambientais. Sem esses insumos, fica em risco não apenas a produção, mas a autonomia econômica das mulheres e a transmissão cultural para as novas gerações.
Esse cenário reforça a urgência dos debates da COP30, que será realizada em Belém no fim do ano, trazendo à tona a importância da justiça climática e da valorização dos saberes tradicionais como parte da solução para a crise global.
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Meixulã Waurá segura cerâmica durante a EXPOTIX, Exposição de Produtos do Território Indígena do Xingu|Tairu Kayabi Juruna/Rede Xingu+
Programação completa
No dia 30/08, as ceramistas visitam o Museu das Culturas Indígenas para uma sessão de contação de histórias gratuita, mediante retirada de ingressos. Nesta edição, o público conhecerá Kamalu-hái, figura central na cosmologia do povo Waurá. Considerada a “dona do barro”, trata-se de uma criatura semelhante a uma cobra , responsável por ensinar aos Waurá a arte da cerâmica.
No final da tarde de 02/09, o Espaço Floresta no Centro, do ISA, recebe as ceramistas do Xingu para uma conversa gratuita sobre os efeitos das mudanças climáticas na produção de cerâmicas tradicionais, às vésperas da COP 30 em Belém. Haverão dois artistas waurá realizando pintura corporal.
Nos dias 04 e 05/09, o Sesc Consolação promove duas oficinas livres de cerâmica, conduzidas pelas ceramistas, que apresentarão como o processo de produção mantém os saberes tradicionais de seus povos.
As últimas atividades ocorrem em 06/09, no Museu A Casa do Objeto Brasileiro, em dois momentos: pela manhã, uma conversa aberta e gratuita sobre os impactos da crise climática no Território Indígena do Xingu (TIX); e, em seguida, uma oficina de grafismo em cerâmica, com inscrição paga e na qual cada participante receberá uma peça exclusiva.
Contação de história
Local: Museu das Culturas Indígenas, R. Dona Germaine Burchard, 451 - Água Branca, São Paulo Dia: 30/08 Horário: 11h às 12h Valor: Gratuito (retirada de ingresso)
COP30: Mudanças climáticas e o impacto da identidade Xinguana
Local: Floresta no Centro, Av. São Luiz,187 Galeria Metrópole - loja 28 2o piso - Centro Histórico de São Paulo, São Paulo Dia: 02/09 Horário: 19h Valor: Gratuito
Oficina cerâmica
Local: Museu das Culturas Indígenas, R. Dona Germaine Burchard, 451 - Água Branca, São Paulo Dia: 03/09 Horário: 14h Valor: Gratuito
Oficina cerâmica
Local: SESC Consolação, R. Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque Dia: 04/09 e 05/09 Horário: 18h30 e 14h (respectivamente) Valor: Gratuito (mediante inscrição)
Papo de Casa
Local: Museu a Casa do Objeto brasileiro, Av. Pedroso de Morais, 1216 - Vila Madalena, São Paulo Dia: 06/09 Horário: 11h00 às 12h00 Valor: Gratuito
Sujeito a lotação
Oficina grafismo
Local: Museu a Casa do Objeto brasileiro, Av. Pedroso de Morais, 1216 - Vila Madalena, São Paulo Dia: 06/09 Horário: 14h às 18h Valor: R$480,00
Todo o valor arrecadado nas atividades pagas será inteiramente entregue às ceramistas, que também irão vender suas peças durante os eventos. Também haverá oportunidade de pintura corporal em alguns dos eventos.
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Escola Politécnica da USP e ISA firmam parceria para medir impactos cumulativos na Bacia do Xingu
Projeto de pesquisa de quatro anos foi aprovado na chamada do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas FAPESP em maio de 2025
Em um desenvolvimento significativo para a pesquisa ambiental no Brasil, um projeto colaborativo entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Escola Politécnica da USP (Poli) foi aprovado na Chamada FAPESP de Propostas (2024) – Fase 1, do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (PPPP), no final de maio de 2025.
O projeto, intitulado “Avaliação de impactos cumulativos para o Xingu: propostas para o planejamento e licenciamento de projetos de infraestrutura” tem como objetivo principal analisar e subsidiar cientificamente o planejamento de obras de infraestrutura e respectivo licenciamento ambiental na Bacia do Xingu, com foco na problemática dos impactos cumulativos resultantes das mudanças de uso e cobertura da terra na Bacia do Xingu. A pesquisa contará com modelagem espacialmente explícitas dos impactos de projetos de transporte na região, além de discutir cenários com alternativas para a região.
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Região ocupada por reservatório da Usina de Belo Monte teve vegetação morta após alagamento e sofre com a cheia permanente|Mônica Lizardo
A coordenação do projeto e liderança da pesquisa fica sob a responsabilidade da professora Juliana Siqueira-Gay, da Escola Politécnica da USP, tendo como pesquisadores associados a professora Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo e o professor Luis Enrique Sánchez, também da Escola Politécnica da USP. Além disso, o projeto contará com uma equipe de sete pesquisadores bolsistas, ainda a serem selecionados. É parte da equipe do projeto o ISA, sendo a gestora responsável a economista Mariel Nakane.
Além da Escola Politécnica da USP e ISA, também outras instituições entraram na condição de associadas ao projeto, ou seja, acompanharão o desenvolvimento da pesquisa, sendo essas o Ministério dos Transportes, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e a Rede Xingu+. A colaboração entre pesquisadores, gestores públicos e a sociedade civil foi considerada uma “garantia da relevância dos resultados para a região de estudo”.
A proposta se destacou por sua abordagem metodológica, que inclui análises espaciais e modelagem de cenários de uso e cobertura da terra, além de parcerias com entidades da sociedade civil e atores relevantes do licenciamento. A pesquisa pretende gerar modelos para subsidiar a avaliação de impactos cumulativos envolvendo a proposição de cenários, áreas de influência e limiares de significância dos impactos, com o objetivo subsidiar técnica e cientificamente pareceres de órgãos ambientais, contribuindo para a melhoria do planejamento e licenciamento ambiental.
A professora Juliana Siqueira-Gay detalha que este projeto “atua na interface ciência e políticas públicas e possui um enorme potencial de impacto social para as comunidades indígenas e tradicionais que vivem sobretudo no interflúvio Xingu-Tapajós. Acredito que, com este projeto, estamos desempenhando um papel importante como comunidade científica junto à sociedade, e em parceria com todas as instituições parceiras e associadas, buscamos colaborar diretamente com subsídios técnicos para melhorar a tomada de decisão no planejamento e licenciamento de projetos”.
A análise da FAPESP ressaltou o mérito do projeto na “geração de conhecimentos para a formulação, revisão, aprimoramento, análise, monitoramento e implementação de políticas públicas relacionadas ao planejamento e execução de projetos de infraestrutura, que são de grande importância econômica, cultural, ambiental e social”.
“Apesar do atual contexto do desmonte da política ambiental, com o PL da Devastação, nossa pesquisa propõe o caminho de fortalecimento, melhoria e desenvolvimento da avaliação de impacto ambiental no país, tanto no âmbito da política ambiental, no licenciamento, quanto na política setorial, no planejamento de política de transportes federal, sobretudo com o reconhecimento da avaliação de impactos cumulativos pelos gestores públicos, porque são impactos que tanto afligem os territórios mas cujos efeitos são recorrentemente esquecidos nos estudos de impacto ambiental.” – Mariel Nakane (ISA)
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Lewaiki Khisêtjê, do Xingu para a ONU: resistência indígena que cruza fronteiras
Elas que lutam! Liderança premiada por documentário sobre agrotóxicos investe em formação internacional para defender direitos e territórios
A jovem liderança Lewaiki Suyá, do povo Khisêtjê, carrega um sonho e uma responsabilidade que andam juntos: fortalecer a luta pela proteção do território de seu povo para que suas filhas, Mawirá, de 11 anos, e Yambakhrety, de oito, assim como as futuras gerações, possam viver em paz na terra ancestral dos Khisêtjê, mantendo viva sua cultura e identidade.
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Liderança do povo Khisêtjê passou a compor o Programa para Representantes Indígenas da Organização da ONU|Amanda Pankará
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Seguindo o exemplo de seus avós, ela se tornou porta-voz de seu povo e fica em Genebra, na Suiça até julho|Arquivo pessoal
No início de maio, na aldeia Khikatxi, Lewaiki compartilhou um pouco da sua história. Ela estava em luto pela perda de duas anciãs da aldeia, cujos nomes não devem ser falados ou escritos em respeito aos costumes ancestrais. Nesse processo, estava com os cabelos um pouco mais curtos e sem as pinturas tradicionais.
“O grande sonho que eu tenho é de que um dia o meu povo possa viver em paz. Sem ameaças, sem se preocupar com o que pode acontecer amanhã. Todo dia a gente acorda pensando nisso, de que a qualquer momento a gente pode perder o nosso território, de que a gente pode não estar praticando a nossa cultura, nossas festas. Então esse é o meu medo. E o meu sonho é ter esse território para as futuras gerações”, afirma.
De família de lideranças indígenas, Lew – como é chamada pelos mais próximos – é diretora executiva da Associação Indígena Khisêtjê (AIK) e está celebrando uma conquista que fortalece sua luta e seu sonho: foi selecionada como bolsista do Programa para Representantes Indígenas da Organização das Nações Unidas (ONU), após ser indicada pela diretoria da associação para concorrer à vaga.
“Eu fico muito feliz, porque não é uma conquista só minha, mas do povo Khisêtjê. Fico feliz em estar representando o meu povo. Desde pequena eu ouço o nome ONU. Mas eu nunca imaginava estar participando nesse espaço, que é tão importante”, diz.
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Lewaiki Khisêtjê durante o II Encontro da Educação Escolar Indígena do TIX - Saberes para o Bem Viver, que ocorreu em maio de 2025|Kamikiá Kisedje/ISA
Inicialmente, as atividades aconteceram em Brasília. Em seguida, Lewaiki seguiu para Genebra, na Suíça, onde fica até julho. É a primeira vez que ela deixa o país. Ela vive na aldeia Khikatxi, no Território Indígena Wawi, anexo ao Território Indígena do Xingu, no Mato Grosso, e sempre morou com seus pais.
A luta de Lewaiki começa neste território: antes, ela vivia com sua família na aldeia ancestral Ngojhwere, um lugar de memória, reconquista e história do contato com os não indígenas. Mas o avanço do agronegócio e a pulverização dos agrotóxicos expulsaram seu povo desse território. E eles passaram a viver na aldeia Khikatxi.
É nesse cenário que nasceu o filme “Sukande Kasáká | Terra Doente”, narrado por Lewaiki e pelo cineasta indígena Kamikia Khisêtjê. O filme - lançado este ano e premiado em festivais como É Tudo Verdade e Ecofalante - denuncia o avanço silencioso dos agrotóxicos sobre os corpos e os rios.
“É uma ferramenta de luta contra a ameaça invisível”, define ela. “Quando a gente é liderança, a gente sabe dos perigos que pode correr. Mas a gente tem que proteger o nosso povo. Sempre coloca isso em primeiro lugar. E é isso que o meu avô, o cacique Kuiussi, nos ensina”, conta.
Lewaiki vê na comunicação e na formação política instrumentos de resistência. Inspirada pelo trabalho de Kamikia, que levou a voz do povo Khisêtjê para além da aldeia, e no exemplo de seus avós, ela se tornou porta-voz de seu povo.
Para além de liderança, Lewaiki mantém no seu dia a dia na aldeia as atividades tradicionais. Cozinha, faz beiju, cuida da roça e tece cestos. “A gente não vive só de escritório. A gente precisa da valorização da nossa cultura. É ela que nos fortalece.”
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No seu dia a dia, a cultura de seu povo permanece resistindo, seja na feitura de cestarias, nas cozinhas ou nas roças|Kamikiá Kisedje/ISA
Nas reuniões e decisões comunitárias, Lewaiki representa também a força dos jovens e das mulheres: guardiãs dos saberes, cuidadoras do bem viver, estão cada vez mais presentes nos espaços de decisão ao lado dos homens.
Formação na ONU
Agora, com a bolsa da ONU, prepara-se para aprender mais sobre direitos indígenas e mecanismos internacionais de proteção. “É um desafio estar nesses lugares, ocupar esses espaços. Você sendo uma liderança, uma mãe, ter que se ausentar para buscar conhecimento para defender o seu povo. Mas a gente resiste há centenas de anos. E a gente continua resistindo.”
Ela quer estar na ONU para aprender, voltar e multiplicar o conhecimento.“Eu quero me dedicar ao máximo para poder aprender, porque esse é um dos objetivos do programa: a liderança indígena aprende e passa a ser uma multiplicadora dentro do seu povo. E é isso que eu quero fazer com os jovens, que são o futuro do povo e precisam estar alinhados com os mais velhos. Os nossos anciãos vão orientar sobre o caminho a seguir. E a gente sempre tem que manter esse vínculo com essa raiz, com o nosso povo. Porque se a gente se desvincular disso, a gente erra o caminho”, reflete a jovem liderança.
O programa do qual Lewaiki participa está vinculado à Seção de Povos Indígenas e Minorias do Escritório do Alto Comissionado das Nações Unidas para Direitos Humanos (OACNUDH), em Genebra, e busca promover as condições de desenvolvimento econômico e social.
De acordo com a ONU, o objetivo é que os bolsistas conheçam o sistema e mecanismos das Nações Unidas, principalmente sobre questões indígenas, para que possam melhor ajudar a proteger e promover os direitos dos povos indígenas, além de compartilhar o conhecimento adquirido.
Em junho, ela deu início à viagem para participar do programa da ONU em Brasília e, logo após, seguiu para Genebra, para continuar com o seu sonho de fortalecer seu povo e seu território.
Lewaiki carrega em seu nome também a história de um sonho. Pela tradição Khisêtjê, os nomes começam com “Ngay”, “Pyi” ou “Koko”. Seu nome é único. Ela foi chamada de Lewaiki após seu tio Tony Suyá sonhar, em contato com o mundo espiritual, com esse nome, que é de uma planta. E ela segue semeando esperanças, seja no Khikatxi, em Brasília ou em Genebra.
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